Cultura

PRIMAVERA SOUND 2019: GRUAS NO CÉU, SOLANGE NA TERRA

Perante a magia de Solange, Danny Brown, Jarvis Cocker e Stereolab, a chuva parou poucos no primeiro dia do NOS Primavera Sound.

Aquando do lançamento do cartaz do NOS Primavera Sound 2019, muitas línguas se levantaram em fúria face à presença do reggaeton de J Balvin, a alegada fuga às origens do festival e a falta de nomes “grandes” de edições anteriores. E as críticas só aumentaram quando Lizzo, Kali Uchis e Ama Lou cancelaram os seus concertos.

A verdade é que tanta crítica se manifestou na quantidade de pessoas no recinto. A ameaça da depressão Miguel pode ter contribuído, mas o contraste entre as 30 mil pessoas do primeiro dia da edição passada com as 20 mil deste ano notou-se, tanto no espaço geral como no público a assistir aos concertos.

A tarde arrancou calma com o funaná de Dino D’Santiago no Palco Super Bock. Dada a chuva que se fazia sentir em força no recinto, a abertura das portas atrasou-se, pelo que poucas eram as pessoas a assistir ao concerto do português. Contudo, o estado de espírito para o resto do dia ficou determinado.

O céu foi-se casualmente abrindo, deixando uns breves – mas deliciosos – raios de sol de fim de tarde brilhar nas caras da espanhola Christina Rosenvinge, no palco NOS, e do trio canadiano Men I Trust, que seguiram no palco Super Bock.

Perto da hora de jantar, o recinto já estava composto. A nova cara da eletrónica portuguesa, Mai Kino – cujo concerto fora passado para a hora de Ama Lou – abriu o Palco Seat perante um público que se ia amontoando para o que aí viria – o ex-Pulp Jarvis Cocker e o post-rock de Stereolab.

Perante uma plateia maioritariamente constituída por baby boomers nostálgicos, Jarvis, acompanhado da sua nova banda Jarv Is, apareceu da maneira que conhece aparecer: inquieto, dotado de uma incrível skill de storytelling e com uns dance moves surpreendentes para a idade, que não parece dar tréguas.

Fora quem se foi movimentando para a zona de restauração ou para outras atuações, o público manteve-se composto para Stereolab. Recém-regressados de uma pausa de dez anos dos palcos, Tim Gane e Laetitia Sadier não mostraram qualquer sinal de ferrugem e o seu indie rock caloroso conquistou o coração de todos os que se aproximavam do palco Seat.

As duas faces da moeda

Do outro lado do recinto, uma imagem diferente. No palco Super Bock, o indie-pop de MorMor e o rap de Tommy Cash foram presenteados com um público jovem e enérgico, que se mexia ao som de cada batida. Ao lado, no maior espaço do festival, a banda de culto Built to Spill sofreu com a concentração da sua demográfica no palco Seat. “Keep It Like a Secret” – um dos seus álbuns mais aclamados e, alegadamente, o mais radio-friendly – foi tocado por completo para uma plateia qua ia acompanhando, aqui e ali. Depois da barriga estar cheia e as energias restauradas, os jovens deslocaram-se em massa para Danny Brown, cuja energia não poderia contrastar mais com a dos Built to Spill.

A voz aguda, as rimas rápidas, a energia, o humor e os beats que provocam uma enchente de moches nas filas da frente estiveram lá. O concerto começou logo em grande com temas como “Die Like a Rockstar”, “Adderall Admiral” e “Monopoly”, mas, reconhecidamente, os momentos de maior farra chegaram com os temas “Grown Up” e “Really Doe”. Sem encore, o final do concerto ficou marcado pela apresentação de um tema do novo álbum –  uknowwhatimsayin? – “coming out soon”, palavras do rapper.

Ao mesmo tempo, no recatado e verde Palco Pull&Bear, o rap tuga in-your-face de Allen Halloween amontoava alguns seguidores fiéis. Às 23:45h, no mesmo local, as britânicas Let’s Eat Grandma conquistaram aproximadamente a mesma quantidade de público – que parecia impaciente pela verdadeira estrela da noite – Solange.

O ponto alto da noite

Com concerto anunciado para as 00:20h, a partir da meia-noite a quase totalidade do recinto foi-se chegando em massa para o Palco NOS. O cenário lá montado induzia dúvida na cabeça de alguns: que tipo de espetáculo iria a irmã mais nova Knowles dar? Com a banda e as duas cantoras back up no palco, faltava a protagonista. A par da mudança de luzes, Solange entrou e o Primavera Sound fez-se ouvir. Depois dos clamores e sorrisos, os primeiros acordes de “Things I Imagined” fizeram-se ouvir. O álbum mais recente da cantora, When I Get Home, foi o foco do espetáculo e, tal como viria a explicar a meio do concerto, o mais especial para si – um disco acerca de aceitar a luz e não fugir dela. Mas também A Seat At The Table, de 2016, teve lugar para brilhar, com músicas como “Mad”, “F.U.B.U” e a clássica “Cranes in the Sky”.

Apesar de meticulosamente preparada, a atuação nunca o aparenta ser. Todos os movimentos e notas – até a ida ao público – não parecem forçados; tudo flui naturalmente. E a fidelidade da plateia notou-se especialmente quando, no encore, o recinto foi presenteado com o maior dilúvio do dia até então e, ainda assim, poucos foram os que fugiram para procurar abrigo. Quem ficou, acolheu-se nas dance breaks e reworks de Solange e companhia.

No final deste que foi o maior concerto da noite, os resistentes (ou não ensopados) dirigiram-se para Peggy Gou no Palco Pull&Bear ou para a eletrónica do Primavera Bits, que contou com Job Jobse e Yaeji.

Hoje atuam no festival nomes como J Balvin, James Blake, Interpol e Courtney Barnett.