Cultura

LUÍS SEVERO: “A MÚSICA É UM ECOSSISTEMA, É MAIS RICO QUANDO EXISTE ESPAÇO PARA TUDO”

Numa sala de fraca luz do Passos Manuel, o JUP esteve à conversa com Luís Severo, que veio ao Norte mostrar em palco o seu novo álbum. Por Raquel Maria.

Luís Severo, que trouxe recentemente ao Passos Manuel O Sol Voltou, sentou-se com o JUP para uma conversa sobre o seu trabalho, o novo álbum e as artes. O músico voltou à cidade para apresentar o seu último trabalho, álbum que nos surpreendeu a todos este ano.

Depois de começares Cara d’Anjo e de te afirmares como Luís Severo, agora sais das ilhas e trazes de volta o sol. Como começou este álbum surpresa?

Bem, foi uma surpresa porque, na verdade, o que eu fiz foi que ele saísse todo. Quando se faz um disco há muito o hábito de lançar um single antes, e eu sempre gostei quando os discos aconteciam sem singles antes, mesmo como público: sempre gostei de quando um músico que eu ouço lança um disco e eu tenho um disco novo todo para ouvir, tanto que quando editam singles eu quase nunca os ouço, que é para depois ter o disco todo de seguida.

Há quem diga que não é a melhor estratégia do ponto de vista comercial e de marketing, então eu tive de convencer as pessoas à minha volta que gostava que isso acontecesse. A solução que nós arranjámos para que fosse mais chamativo foi, já que ia sair todo por inteiro, não anunciar, não dizer nada, iria ser uma surpresa, e foi assim que aconteceu.

Como tem sido, então, a reação do público, para quem o álbum caiu por inteiro de uma vez?

Na verdade, tenho de confessar que estava um bocadinho ansioso antes, porque quando saem os singles, tu começas a ter um feedback aos poucos. Este disco saiu do nada, e é tão diferente de tudo o que eu tinha feito antes. Contactei com pessoas que acabaram por gostar muito mais deste do que o que eu tinha feito antes, outras gostaram mais do que eu tinha feito antes do que deste… Isso é uma coisa normal, mas houve muito feedback positivo, e isso foi algo que me deixou mesmo contente, porque eu tinha medo que este disco não fosse tão aceite por ter uma vibe um bocadinho diferente.

Sendo parte do teu último disco desenvolvido nos Açores, por que motivo foi o rapaz que canta a cidade para o meio da natureza cantar a vida através dela?

Sim, eu estive nos Açores, em São Miguel, no Centro de Artes Contemporâneas. Eu acho que essa coisa do “rapaz que canta a cidade” surgiu muito por causa do meu segundo disco, mas eu acho que foi um bocadinho exagerado. É claro que o disco tem muita cidade, mas não é só sobre cidade, há muita coisa que é citadina e é mesmo a minha vida também, mas na verdade eu acho que não é só isso, tal como acho que este disco não é só campo. Tem também alguma cidade, mas terá mais campo, e isso não foi algo muito pensado, foi algo que aconteceu. Na verdade, em 2018 toquei muito a solo e fiz muita estrada, como eu gosto. Não gosto de tocar sempre em cidades, em sítios grandes. Fiz algumas vilas, até acho que as contabilizei: sete vilas e oito aldeias. Acho que soube muito bem conhecer Portugal; é uma das coisas de que gosto mais naquilo que faço, para além de tocar, e cada vez mais me sinto contente. Mas outra das coisas é conhecer sítios que possivelmente, se não fosse pela música, não viria a conhecer, e tenho essa honra de acabar sempre por descobrir que há mais um sítio lindo que eu não conhecia e onde me sinto bem. Acho que este disco teve um bocadinho disso, é um disco sobre viagem, que é fruto de eu ter estado muito tempo a tocar.

Toda a escrita, composição e produção foi da tua inteira responsabilidade. Tornou-se mais pessoal?

Sim, sim… Sem dúvida. Foi um bocado iniciativa própria, mas eu sempre assumi que se não estivesse a correr bem ou se sentisse que não estava a fluir, não ia ser teimoso. O que acontece é que tenho 26 anos, faço música há 11 anos – quando tinha 15 anos, fazia música no quarto, punha músicas na internet. Como não sabia tocar muito bem – não tinha conhecimento técnico -, o que eu fazia era tocar muito com pessoas. Tive o Coelho [Radioativo], que esteve cá hoje, mas também tive o [Filipe] Sambado a co-produzir, escrevi com os Capitão Fausto, que tocam no segundo disco, e também toquei com mais pessoas. Ao longo destes anos, toquei com muitas pessoas que me ensinaram muito, e sem elas eu não teria aprendido tudo o que sei hoje. Foi nesse sentido que eu decidi fazer um disco que, depois destes anos todos, é algo como “deixa lá ver o que eu consigo fazer sozinho, como é que eu retive todos estes ensinamentos de todas estas pessoas?”. Foi um bocado esse o intuito. Eu imagino as canções na minha cabeça de uma forma, e sempre que convido pessoas para tocar comigo, essa pessoa muda de rumo, algo completamente natural: é outra cabeça, outro cérebro, outra vida. Eu sentia sempre aquela sensação de “como é que isto teria ficado se não tivesse ido por aquele rumo?”, mesmo que a pessoa tenha dado contributos ótimos. Tentei fazer um disco mais dentro da minha cabeça.

Fotografia: Mariana Cardoso
Fotografia: Mariana Cardoso

As tuas letras são bastante pessoais. Ao mesmo tempo, tornam-se bastante relacionáveis. Continuas a sentir a partilha de universal no sentimento e história das tuas letras?

Sim, e isso é das coisas mais bonitas. Senti um bocadinho, mas não é bem universalidade no sentido em que não há de tocar a todas as pessoas, há de tocar a algumas e essas pessoas identificam-se com algumas partes de letras e isso deixa-me muito feliz.

Dizes em “Cheguem bem” que ‘esta vida não dá para mim’. De que vida falas?

Essa frase é apenas uma vida nómada, é aquilo que eu estava a contar há bocado. Em 2018, tive a sorte de poder tocar muito ao vivo. Tive mais de 50 concertos, o que em Portugal é mesmo uma honra. Claro, tive concertos com menos condições, mas isso é muito fixe, eu curto bué isso. Quando eu disse “essa vida não dá para mim”, foi no sentido de estar sempre a “saltar” muitas vezes: apetecia-me ficar mais tempo em cada sítio, tenho de ir sempre a um sítio a seguir e nunca posso ficar.

O Luís Severo do terceiro álbum perdeu já mesmo a cara de anjo?

Não sei, não sei… Acho que ainda me sinto um bocado puto, acho que me vou sentir sempre um puto, mas na verdade sou cada vez menos puto: levo cada vez mais a sério o que faço e cada vez tenho mais o sentido de responsabilidade com o que faço – apesar de continuar a deixar espaço para alguma macacada.

Em tempos em que se fala de apoio do Estado para a Cultura, onde achas que o setor musical precisava de ser mais apoiado? O que está a faltar aos pequenos músicos criadores para poderem crescer?

Eu acho que não há uma música, há várias músicas: há a mais pop, que se alimenta a si própria, e, nesse sentido, acho que há muitos músicos, nos quais até me incluo, que não precisam de muito apoio. Sinceramente, na fase em que estou da minha vida, em que consigo viver do que faço, não quero ter apoio nenhum, seria estar a roubar a quem realmente precisa. Acho que é preciso saber que a música é um ecossistema, e é mais rico quando existe espaço para tudo: para a música que vende e passa na rádio, para o jazz, para a música experimental, para o noise. O que eu gostava era que alguns produtores soubessem que a saúde desse ecossistema assenta precisamente em todos os músicos terem esse espaço independentemente de serem uma máquina de lucro ou não. Nem tudo nas artes dá lucro: há muito teatro que não dá lucro, muito cinema que não dá lucro, mas na verdade têm uma importância imaterial que eu considero que vai muito para além do lucro que dá ou não. Sinto que cada vez mais a música de músicos que dão menos lucro tem menos espaço e isso dá-me pena. Reforço, para que fique claro, que não me incluo neste pacote; apesar de tudo, eu não me posso queixar, tenho discos e tenho público.

Também conselhos para novos músicos… Eu não sou ninguém para dar conselhos, mas acho importante, numa fase inicial, não ter medo e fazer as coisas que experimentamos. Irrita-me muito pessoas que dizem “mas essa pessoa não tinha o seu trabalho em condições suficientes, porque é que ela editou?”. Acho importante as pessoas editarem, haver espaço para coisas que, mesmo que ainda não estejam, daqui a cinco anos vão estar mais do que hoje estão. Pessoalmente, o que posso falar é que muita da minha evolução foi feita em público, eu evoluí já com uma exposição pública. Não tenhas medo de experimentar, de expores e depois ouvires a crítica e o que as pessoas dizem – mas também saber filtrá-la. Há muita crítica que não tem qualquer intuito de te ver evoluir.