Cultura

A BODA: O QUE DEIXAMOS NO ARMÁRIO

Brecht cria um mundo horrível, falso, nada esperançoso. Cem anos depois, o público continua a relacionar-se com ele. A rir tristemente. Por Maria Pinto.

Em 1919, Bertolt Brecht, com apenas 21 anos, escrevia uma das suas primeiras peças: A Boda dos Pequenos Burgueses (mais tarde intitulada apenas A Boda). Não sabia ainda que viria a ser um dos dramaturgos essenciais para o estudo do teatro. Nesta peça, Brecht expõe a cru a essência do ser humano, ilustrada por convidados que jantam a celebrar um casamento.

Cem anos mais tarde, Ricardo Aibéo decidiu juntar atores de diferentes gerações que, numa certa parte das suas vidas, se cruzaram no extinto Teatro da Cornucópia. Estes atores são os que dão vida à essência das personagens desta Boda. O público ri, e nas gargalhadas parece haver um forte sentimento de identificação, quase como se estivesse a ver um “típico casamento atual”.

O riso nervoso do início da peça é facilmente misturado com risadas audíveis perante formas de violência. “Tristemente rimos” enquanto assistimos a um armário que não abre, a uma casa que se desfaz, a um cenário que se desmonta, a uma relação que já está desfeita antes sequer de começar. Assistimos à formação da bestialidade daquela gente, ao seu ‘verdadeiro ser’, acordado pela noite, pelo cansaço, pelo consumo de álcool.

Estas reações são notadas pelos atores em palco, acabando por criar, assim, uma imagem de célula familiar tripartida: uma boda que junta uma família; um encenador que junta atores que, tendo o mesmo tipo de “escola”, se conhecem melhor do que ninguém; uma relação atores-espectadores onde se sentem os burburinhos quando duas personagens dançam sensualmente, o choque de determinado comentário, as risadas nervosas (aquelas que dizem “eu não me devia estar a rir disto”).

Facilmente nos apercebemos do vazio das relações humanas que estão em palco. Começamos, inconscientemente, a lembrar nomes que nos são comuns: afinal não somos tão diferentes do que nos está a ser mostrado, com relações que são mobília fixa com cola que se vai desfazendo com o passar do tempo. O cenário que é mostrado – a mobília do casal que acaba de se unir – torna-se assim numa das personagens principais, apenas à espera do momento certo de alguém se sentar, para lhe sair uma perna e ficar desfeita no chão. A bonita casa mostrada no início da peça transforma-se em pedaços de madeira sem forma, que deixam de ser um assento, uma mesa, um sofá. Vazios.

Dois projetores de cinema iluminam toda esta cena, transportando-nos para um decor de cinema ou televisão e indicando-nos o caminho ténue do que seria a distanciação do teatro brechtiano. Da tipologia do cenário ao cómico criado pelos atores, há um certo transportar para a arte do cinema, também muito ligada a Brecht, com influências de Buster Keaton e Buñuel.

Os convidados vão embora, completamente desmascarados, uns mais satisfeitos que os outros, e os dois noivos ficam sós. O cheiro a cola, de móveis desfeitos, propaga-se pelo ar. Os dois noivos dançam juntos, com a sua relação praticamente desfeita, com um olhar que parece dizer “vamos fingir os dois juntos, esconder a nossa bestialidade individual que começamos os dois a conhecer”. O noivo vai ao armário, não o consegue abrir e arromba a porta. “Ao menos não viram o que estava dentro do armário”, diz o noivo para a noiva, agradecendo pela macabra noite ter acabado.

Desta peça, escrita e encenada, há alguma moral a tirar? A moral estará em cada um de nós que assiste. Brecht cria um mundo horrível, falso, nada esperançoso. Cem anos depois, o público continua a relacionar-se com ele. A rir tristemente. Talvez a nossa verdade esteja sempre melhor onde costuma estar: escondida no armário da sala.