Cultura

UMA NOITE FELIZ AO SOM DUMA CANÇÃO SILENCIOSA NO CINEMA TRINDADE

O quinto dia do Europa 61 Semana de Cinema Europeu trouxe em sua última sessão a ficção polonesa “Cicha Noc” e a complexidade das relações familiares. Por Giulia Pedrosa.

“Noite Silenciosa” em sua tradução literal, foi traduzida para “Noite Feliz” no português, por retratar uma noite natalina e fazer referência à mítica canção “Silent Night”. Contudo, a noite do filme está longe de ser silenciosa.

Além de ganhar todos os prêmios da academia polaca, Cicha Noc encheu a sala do Cinema Trindade e ganhou a simpatia do público presente. A ficção de 2017 dirigida por Piotr Domalewski foi premiada em categorias como melhor ator e atriz, principal e coadjuvantes, além de fotografia, direção, som, roteiro e montagem.

Traz em cena temas universais que aproximam o público do enredo, como disse um dos organizadores do festival antes da sessão iniciar, o filme “retrata uma Polônia rural mas que nós muito bem conhecemos, que parece com muitos, mas muitos lugares que estão mais próximos de nós”.

O diretor de fotografia Piotr Sobocinski Jr. trouxe o espectador quase que para dentro dos cômodos da trama, os diálogos (ou a falta deles) causavam um constrangimento à flor da pele. A família tradicional polonesa em um ambiente rural pode parecer longe de nossa realidade, porém o filme nos arrasta para perto de cada uma das subtis críticas à sociedade de forma abrangente.

A emigração e a necessidade de sair de seu país para buscar uma vida melhor, o alcoolismo como forma de escapismo, traição, conformismo e infelicidade, problemas entre irmãos, um pai ausente, violência doméstica e abuso no casamento, brigas por herança, ser graduado e desempregado, frustrações, mentiras e solidões, são algumas das notas tocadas por Domalewski em sua canção silenciosa.

Temas que são muitas vezes silenciados ao debate em sociedade são explicitados na trama com uma voz discreta mas precisa. Em um trecho do filme, um personagem declara o drama vivido por emigrantes que estão bem próximos de nós: “Você sabe por que eu estava com medo de ir para o exterior? Porque quando eu fui, pensei que poderia ser um ser humano ali, e não um… polaco. Apenas anos depois eu percebi que isso é exatamente o que eu era. E só na Polônia eu posso ser um ser humano. É para isso que este país serve. Para que possamos nos sentir humanos”.

A complexidade das relações familiares é esmiuçada aos olhos da plateia, a sinceridade de uma família que se ama apesar da toxicidade. A frase dita por Adam, o personagem principal da trama, reflete toda essa obscuridade, “Não se gosta da família, simplesmente se tem uma”.

Um filme que pode ser considerado monótono, mas ao prestar atenção, as críticas subtis são realmente bem aplicadas. Com doses de humor negro, “Noite Feliz” nos reúne ao redor da mesa em uma noite tipicamente familiar e conclui com a ideia que “quando se trata de família, as coisas funcionam melhor nas fotos”.