Cultura

KAMASI, TE AMAMOS

Para um homem que não canta na sua música, Kamasi Washington tem muito a dizer. Desde a calorosa saudação à despedida sentida, o saxofonista apelou ao amor num concerto no Hard Club que encarnou a universalidade do jazz. Por João Norte.

Em 2015, com o lançamento de The Epic, Kamasi Washington assumiu-se como um dos artistas de jazz mais ambiciosos dos últimos anos. A crítica aplaudiu o álbum pela sua grandiosidade, ancorada no regresso do formato de jazz de big band, uma fórmula que o saxofonista tenor manteve nos quatro projetos que lançou esta década.

As faixas longas que parecem EPs e os LPs com durações de discografias inteiras não aparentam ser o alvo mais apelativo de audiências mais jovens. No entanto, o som universal de Kamasi tem vindo a conquistar ouvintes de todas as faixas etárias, tal como se viu no Hard Club, na sexta-feira.

Mesmo assim, quem só tinha sido atraído pelo esplendor da sua música, ao vivo também foi conquistado pela sua presença, que, tal como a sua figura, tem tanto carisma como imponência. Vestido de túnica preta e acompanhado por cinco músicos, Kamasi entrou no palco e, com um “oi”, dito numa tentativa sincera para falar português, cumprimentou o público.

Com uma diferença tão grande entre os 56 músicos usados na produção do seu último LP Heaven and Earth e os cinco que o acompanharam a entrar no palco, nem toda a complexidade instrumental dos seus discos é difundida ao vivo. No entanto, a energia crua dos rasgos de saxofone tenor e a intensidade da percussão das duas baterias compensam a falta de detalhe das inúmeras camadas musicais usadas nas gravações.

Depois de a atuação ter começado com “Street Fighter Mas e “Vi Lua Vi Sol”, foi a vez de Rickey Washington subir ao palco e, no papel de flautista, em sintonia com o resto da banda, tocou algumas das melodias mais reconhecíveis da discografia do seu filho. “Abraham” foi a terceira faixa que a banda atuou, uma composição do baixista Miles Mosley que assumiu, ao longo do concerto, o papel de vocalista.

Como líder de banda, Kamasi abdicou de ser o alvo dos holofotes para elevar os artistas que estavam ao seu lado e cada um deles teve o seu momento para brilhar. Desde o teclista Brandon Coleman, várias vezes aplaudido pelo seu desempenho vocal, a Miles Mosley, o homem no contrabaixo que hipnotizou o público com os seus solos melódicos. O último até foi descrito por Kamasi como o melhor baixista que ele conhece, um elogio enorme que vem de um homem que já colaborou com Thundercat.

Entre cada faixa, e depois de largos segundos barulhentos de aplauso e gritos, Kamasi tinha sempre algo para dizer ao microfone. O discurso mais memorável que teve foi um apelo à união e à compaixão entre todas as pessoas, mesmo antes de tocar “Truth”:

diversity (…) is not something to be tolerated, it’s something to be celebrated”

Antes de atuar a faixa do seu EP adequadamente nomeado Harmony of Difference, o compositor deu a entender o processo de construção da música: “I wrote this piece to remind ourselves how beautiful we are. We don’t have to look the same to love each other”. É uma ode ao amor ao próximo, um cântico que, numa confusão de melodias, e sem palavras, toca ao ouvinte de forma universal.

Ainda houve tempo para os bateristas exibirem os seus dotes. Colocados em lados opostos do palco, Tony e Robert dialogaram. Os tambores, os pratos e as baquetas tomaram o lugar das palavras, perguntas e pontos finais, durante os únicos minutos em que o som da percussão não foi acompanhado pelos outros instrumentos.

Ao longo de uma hora e meia, os gestos e a linguagem corporal de Kamasi espelharam o ambiente no Hard Club. Quando Miles Mosley iniciava um solo de contrabaixo, o líder da banda punha-se de lado e, em aprovação, acenava a cabeça e abanava o corpo, tal como o público fazia quando o saxofone tenor ou a trompete gritavam uma explosão de notas intensas.

No final de “Fists of Fury”, o último tema da noite, o líder da banda fez uma promessa: “te amo, Porto. We will be back”. Durante uma hora e meia, celebrou-se o poder da música como fator universal de união. O jazz hoje já não é visto como um género musical de outrora, graças a artistas como Kamasi Washington, que fazem de tudo para conjugar jazz espiritual com sonoridades modernas e, assim, criam arte acessível e universal. Até já, Kamasi, te amamos também.