Cultura

OS ARTISTAS QUE QUEREM O MUNDO

Para brindar os espetáculos de dança, integrados nos Dias da Dança, e os de teatro, no âmbito do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, organizou-se esta quinta-feira, no Salão Nobre do Teatro Nacional São João, um debate sobre a internacionalização da criação artística. Por Inês Sincero.

O Porto de hoje distingue-se – entre variadíssimos aspetos – pela sua cicatriz cultural e pelo compromisso em apresentar, promover e difundir as artes e as suas dinâmicas num Portugal adolescente, numa Europa efervescente e num cenário mundial em mutação.

Em 2019, o Festival Dias da Dança (DDD) e o Festival Internacional de Teatro e Expressão Ibérica (FITEI) unem-se pela primeira vez. Esta fusão histórica conduz a uma agenda de cinco semanas – entre 24 de abril e 25 de maio – altamente ativa, completa e capaz de atingir resultados ainda mais válidos e positivos, para os programadores, públicos e, acima de tudo, artistas. O Norte do país, que abraça teatros do Porto, Matosinhos, Gaia e Viana do Castelo, transforma-se no «spot do costume» para as artes performativas e o ponto de encontro para os projetos artísticos mais relevantes no panorama internacional da atualidade.

Na quinta-feira de manhã, às 10h30, no Salão Nobre do Teatro Nacional São João, reuniram-se estudantes, professores, artistas, pensadores, interessados e curiosos para uma conversa pouco acesa, mas bem esclarecedora, sobre as fronteiras da arte.

António Pinto Ribeiro moderou a sessão e, numa primeira fase, sublinhou o valor desta parceria; a importância destes dias como rampa de lançamento para outros tempos e lugares; o peso que o gosto pessoal dos programadores tem, inevitavelmente, na seleção da agenda; e ainda a preocupação que a «viagem artística» tem tido com questões globais, nomeadamente a pegada ecológica.

Seguiu-se Nuno Moura (Direção-Geral das Artes), que se orgulha de Portugal estar no pódio da Europa Criativa, e Tiago Guedes (DDD), que sorri com a lista infindável de residências cruzadas internacionais; com as colaborações entre programadores de cantos opostos do mundo; e com o potencial do novo programa Shuttle, que vai apoiar as práticas artísticas do Porto no estrangeiro.

Danilo Santos de Miranda (SESC São Paulo), que atravessou o Atlântico para estar numa das casas da arte «mais belíssimas», debruçou-se sobre o papel central que a cultura desempenha num país que, como o dele, precisa de uma revolução educacional, e afirma, sem papas na língua, que «esta cena precisa de ser vista lá fora», com a certeza que é a influência exterior que altera o rumo do mundo.

A palavra foi, então, assumida por Marcelo Alassino (Iberescena), que trouxe ao Salão Nobre a realidade do teatro independente na Argentina e (tentou) explicar – por mais inexplicáveis que sejam – os pilares que distinguem a arte do seu país e a tornam tão louca, icónica e aclamada no panorama teatral. A última das cinco vozes foi a de Gonçalo Amorim (FITEI), que quer dar continuidade a esta viagem e quer que todos continuemos a crescer juntos, mas não deixa de equacionar novas formas, outros meios, mais inovação.

Na segunda parte da manhã, depois de um intervalo que claramente fazia prever inquietações, o debate foi aberto à audiência. O cerne da discussão, dizia-se, era a internacionalização, com os seus benefícios e malefícios. Mas, até ali, para todos os convidados oradores, o mundo lá fora parecia só trazer sorrisos. Portugueses, estudantes, professores, dedicados e apaixonados sabem, porém, que as políticas culturais têm dado passos mas ainda não andam sozinhas; sabem que os apoios têm crescido mas ainda são muito insuficientes; sabem que se corre atrás de espaços, atrás de tempo, atrás de experiência, atrás de público. «Nunca falta vontade, mas falta demasiada oportunidade e bom senso», comentava um jovem, ainda no coffee break – que, como tantos outros, não sabe se a solução para o progresso em Portugal está na aposta da co-produção com o mundo ou se essa jogada deve ser feita, apenas, quando todos os portugueses tiverem quem aposte neles.

Ninguém tinha o objetivo de sair do Teatro totalmente esclarecido. Mas todos saíram diferentes – como acontece sempre que se pensa sobre arte, sobre o futuro, e sobre o futuro da arte. «Tudo isto é apenas uma parte ínfima do que há para falar», dizia Gonçalo Amorim. «Nada é eterno, mas isto parece eterno», de tão bonito e subversivo que tem sido.