Cultura

SALVADOR SOBRAL: UM NOVO CAPÍTULO, A MESMA MAGIA

Salvador Sobral atuou no passado sábado, no Coliseu do Porto. O concerto serve de promoção ao novo álbum, "Paris, Lisboa".

O regresso de Salvador Sobral à Invicta fez esgotar o Coliseu do Porto. A sala começava a compor-se à medida que uma batida ritmada ecoava pelo espaço.

A chegada da hora do espetáculo eleva o volume do som e diminui a luminosidade. Acaba por ficar nítido que se trata do tema “180, 181 (catarse)”. Contudo, as cortinas do palco permanecem fechadas e Salvador surge a cantar num camarote do lado esquerdo da sala. A meio da atuação, desaparece e volta a revelar-se no meio do público para o clímax. As luzes apagam-se, a canção termina e o público aplaude.

As cortinas abrem-se para revelar o palco e os artistas começam a entrar como se nada fosse. Inicia-se “Change” do disco anterior antes de se partir para um trabalho mais recente, “Cerda del Mar”. Os primeiros temas bastam para deixar claro que a banda que acompanha Salvador tem tanto valor quanto o artista. Aliás, o cantor muitas vezes deixa o palco para o foco estar puramente nos improvisos de jazz do piano, do contrabaixo e da bateria.

“Finalmente estamos a atuar para o melhor público do país” – ouvem-se aplausos – “eu digo isto em todo o lado, já agora”. Logo a primeira intervenção de Salvador permite reconhecer o estilo bem humorado que tem tantos fãs como críticos. O cantor ia acabar por falar muitas vezes ao longo da noite; “vocês puxam por mim”, admite.

“Presságio”, uma habitual do alinhamento, é a próxima. “Ui, tantas palmas. Já é um hit, é um hit,” reage Salvador ao ânimo do público perante o título da canção. Um solo improvisado de Júlio Resende é o começo da interpretação do poema. A plateia acompanha o cântico das palavras românticas. “Fernando Pessoa estaria orgulhoso”, avalia Salvador no final.

O concerto segue com “Ela Disse-me Assim”. Desta vez é André Rosinha, com um solo de contrabaixo, a brilhar. A música sobre infidelidade termina com um momento à capela em que Salvador faz-se ouvir no silêncio maravilhado dos presentes. Depois da última nota ser entoada o público dá um forte aplauso. “Esta é sobre alguém que pôs os cornos. Geralmente, é quem leva com os cornos que se sente mal para escrever uma música”, reflete Salvador.

“Descobri as cordas num disco do Caetano Veloso… Um amigo meu”. O próprio cantor acha piada à oportunidade que a fama lhe deu de se tornar amigo de um dos seus ídolos. “Desde esse disco que queria um dia fazer algo com cordas…musicalmente, claro!”. A explicação introduz um quarteto feminino de violinos para ajudar Salvador intepretar “Grandes Ilusiones”.

Como já é hábito, nem todas as músicas do concerto são conhecidas. Uma inédita, escrita por Luísa Sobral e chamada “Estrada Dividida”, foi a seguinte. “Se não gostarem, não gravamos!”, diz Salvador. A julgar pela reação da plateia, provavelmente vai ser.

A banda original regressa e interpreta-se “La Souffleuse”. A língua francesa é envolvida pelo jazz romântico dos instrumentos. A música termina com um solo magnífico de bateria de Bruno Pedroso, usado para uma transição suave que vai ter a “Paris, Tokyo II”.

O ritmo da música seguinte é mais veloz e leva Salvador a comentar: “é música de casino. Welcome to Las Vegas, ladies and gentlemen. The next song is about a transexual person“. É a introdução para “Benjamin”. A letra “No Corpo e na Alma estava um Coração” é cantada em harmonia por todo o Coliseu do Porto, num dos momentos mais bonitos da noite.

A banda volta a sair de palco. “É uma noite especial, por isso temos de ter convidados especiais” explica Salvador antes de chamar ao palco Luísa Sobral e André Santos. O trio fica sentado no centro do palco, em três cadeiras. André toca a sua guitarra e Salvador e Luísa cantam “Prometo Não Prometer”. Feito o dueto do álbum de Salvador, ficava a faltar o dueto do disco de Luísa: “Só um Beijo”. A harmonia vocal dos dois irmãos, unida à guitarra intimista, deixa a plateia rendida.

Luísa Sobral e André Santos são ovacionados ao sair do palco e a banda regressa. “Playing with the Wind”, do novo disco, e “Ay Amor”, uma das mais conhecidas do primeiro álbum, terminam a parte principal do concerto.

Salvador não demora muito a regressar para o encore e com ele o quarteto de cordas e Júlio Resende. “Esta também é uma nova, olha vejam se gostam”. Uma pequena mentira para anunciar a chegada da inevitável “Amar Pelos Dois”, desta feita no arranjo original. Sem surpresas, o público canta com o artista a que elevou Portugal na Europa e que, passados dois anos, continua tão simples e bela.

Depois de um piscar de olhos ao passado, Salvador volta a olhar para o presente e o futuro. Agora sim, uma nova: “A Casa Dela”. Escrita por Júlio Resende, é cantada só com piano a acompanhar. Mais uma candidata para um possível terceiro disco.

Mantendo apenas o piano, partimos para “Mano a Mano”. Depois do primeiro refrão, André Rosinha e Bruno Pedroso voltam aos seus postos e a segunda metade da canção é interpretada com todo o ímpeto instrumental.

Já com mais de duas horas de concerto para trás, Salvador termina em festa. André Santos, desta vez no cavaquinho, acompanha o cantor para o meio do público. Toca-se “Anda Estragar-me os Planos” e todos os presentes levantam-se e batem palmas. Conhecidos e amigos de Salvador invadem o palco, incluindo Luísa Sobral, Janeiro e Tiago Nacarato. O próprio artista regressa ao palco e convida mais membros da plateia a entrar. Toda a gente salta e canta o refrão até ao acorde derradeiro. Uma ovação da audiência que já se encontrava de pé prolonga-se durante vários minutos e os músicos despedem-se do Porto.

Salvador Sobral confirmou nesta segunda digressão que é um artista consagrado. Num alinhamento focado no novo capítulo que encara agora na sua vida, o artista teve sempre o público na palma das mãos. Isto porque “a magia de Salvador Sobral”, como descreveu Júlio Resende durante o concerto, continua a mesma.