Cultura JUP Destaques

JUP DESTAQUES: ABRIL 2019

Abril ficou marcado pelas despedidas de "Game of Thrones" ou "Avengers" e pelo novo lançamento de Beyoncé. O JUP volta a selecionar os destaques do mês no mundo das artes.

Música

Beyoncé – Homecoming: The Live Album

homecomingO panorama musical internacional ganhou uma nova faceta quando, há seis anos atrás, Beyoncé lançou o seu álbum auto-intitulado sem qualquer tipo de promoção anterior, dando origem a uma nova moda para artistas grandes como Drake, que repetiu a façanha poucos meses depois.

Com quase 20 anos de carreira e uma pegada gigante tanto a nível musical como cultural, a artista de Houston encontra sempre maneira de surpreender. Agora, o esquema foi mais ou menos o mesmo – um álbum lançado de surpresa – mas Beyoncé não pode simplesmente fazer a mesma coisa duas vezes, e Homecoming: The Live Album chegou acompanhado de um filme-documentário sobre as suas atuações lendárias no festival Coachella em 2018.

O álbum é uma celebração desinibida da cultura negra e, especialmente, da cultura negra das Historically black colleges and universities (HBCUs). A execução de todas as 40 músicas foi pensada para os trombones e tubas da banda – cujos elementos foram todos cuidadosamente selecionados por Beyoncé – dando até aos hits mais antigos, como “Crazy in Love”, uma nova vida, que somos sortudos o suficiente para poder experienciar.

Para além da lista extensa de talentos que possui, a artista é a voz de uma geração. Em tudo o que executa, tem o olho posto em algo superior e fora de si. E fá-lo tão bem que, ao invés de nos inspirar a ser como ela, inspira-nos, sim, a sermos a melhor versão de nós mesmos. É revigorante viver num mundo onde Beyoncé existe.

Lizzo – Cuz I Love You

lizzo

Lizzo é tudo menos nova na indústria da música, tendo participado em grupos musicais desde os catorze anos. Mas foi apenas nos últimos três anos que a efervescente rapper, cantora, compositora, flautista e atriz captou o olho do mainstream, graças à sua personalidade contagiante e hinos de amor próprio.

Desde então, singles como a funky “Juice”, o seu positivismo corporal e a sua incrível série de vídeos virais “ho and flute” tornaram-na numa empolgante poster child de um panorama pop mais empoderador, inclusivo e diversificado.

Em Cuz I Love You, Lizzo aceita o desafio e assume o trono com facilidade, detalhando uma jornada dinâmica pelo amor próprio e as influências dos outros na mesma.

Sonicamente, a produção é quase perfeitamente representativa da cantora, na medida em que não se contém e vai sempre mais longe. No seu cerne está o pop, mas evoca constantemente as suas raízes de jazz e o seu amor histórico por twerk. É na penúltima música, “Heaven Help Me”, que, através do seu impressionante alcance vocal, se torna óbvio que Lizzo não é apenas a elétrica e complexa pop star que o mundo quer, mas também aquela que ele precisa.

KEVIN Abstract – ARIZONA BABY

kevinO poder da arte de Kevin Abstract reside no seu senso absoluto de crueza. O talentoso rapper não só tem uma habilidade magnífica para contar histórias, como também um talento para transformar emoções e ideias conceitualmente complexas em vida – vívida e visceral. As suas memórias e nostalgia chegam com dentes afiados, que cortam profundamente, e em ARIZONA BABY isso não muda.

De um ponto de vista geral, Kevin é conhecido, em primeiro lugar, por ser o “líder” dos Brockhampton, mas é nos seus projetos a solo que se transforma e brilha. ARIZONA BABY é o clímax de um longo processo visionário e ambicioso. É confessional, desinibido e rico em musicalidade. É também o melhor que Kevin já soou em qualquer medida – rap, canto, composição – e um lembrete nítido de que é um talento geracional, que podemos agora ver e ouvir com uma clareza renovada enquanto ele ocupa, sozinho, o centro do palco.

Em muito maior proporção quando comparado a projetos anteriores, ARIZONA BABY é, antes de tudo o resto, uma documentação sincera e sangrenta da experiência jovem, negra e queer – “I was a flaming faggot, that’s what the principal called me / Not to my face, but I felt / When I was stuck in his office”, canta em “American Problem”.

Ao criar um álbum de tamanha abertura e honestidade, Kevin Abstract pode não ter dominado os seus demónios, mas certamente deixou o caminho aberto para tantos outros que tentam domar os seus.

Adriana Pinto

Séries

Game of Thrones T8

Desde o seu lançamento em 2011 que Game of Thrones é quase tudo aquilo de que toda a gente fala. Depois de dois anos fora do ar, o entusiasmo para a oitava temporada era universal e gigante, especialmente tendo em conta o facto de que esta vai ser a última. Agora, a apenas dois episódios de finalizar aquela que é uma das histórias mais acompanhadas de sempre, o entusiasmo adormeceu.

Se temporadas como a quarta e a sexta foram demasiado lentas, a oitava está a compensar, de alguma maneira, mas tal não é, de todo, positivo. Na temporada mais crítica de qualquer série – a última – Game of Thrones está a tornar-se tudo o que não pretendia ser. 

A série começou por captar uma audiência leal porque desde cedo estabeleceu – e cumpriu – um conjunto de regras consistentes: ações têm consequências e ninguém salva ninguém. Na primeira temporada, Ned Stark; na terceira, Robb Stark; na quarta, Oberyn Martell – os bons, os heróis; os que não poderiam morrer e, no entanto, morreram, ninguém os salvou. Na oitava temporada, Jon Snow cai centenas de metros do céu num dragão ferido, levanta-se sem sequer um arranhão, o Night King “reaviva” centenas de mortos à sua volta e, no entanto, o menino de ouro vive.

Desde a primeira cena do primeiro episódio que os White Walkers são representados como absolutamente terríficos, e a sua história acaba da maneira mais inexpressiva possível. A descaracterização das personagens principais, os diálogos longos que nada acrescentam e as mortes previsíveis não foram as características que fizeram de Game of Thrones, em tempos, um dos melhores programas a nível mundial.

A série tornou-se uma antítese de si mesma. Tudo o que tornava o seu universo lógico, cativante e estimulante desapareceu, e Game of Thrones tornou-se no livro de estórias que tanto tentou subverter.

Adriana Pinto

The Chilling Adventures of Sabrina T2

Após assinar o seu nome no livro do diabo, Sabrina está diferente. Mais bruxa, mais sombria, mais confiante em si mesma, agora uma estudante a tempo inteiro na Academia das Artes Ocultas, a sua vida continua repleta de acontecimentos peculiares que a conduzem para o caminho da noite. Mesmo quando ela não se apercebe disso.

Apesar de alguns desentendimentos com os seus amigos mortais, Sabrina está sempre acompanhada. Se não é pela sua família, é pelo próprio Diabo ou por Lilth (Michelle Gomez), ou então pelo seu novo namorado, o feiticeiro Nick Scratch (Gavin Leatherwood). Um casal previsível mas só agora possível, porque Harvey está fora desta cena amorosa.

A segunda temporada foca-se mais no mundo das bruxas ao invés do dos humanos, o que pode ser visto como um ponto fraco, pois tanto a personagem de Sabrina como a atriz que a interpreta, Kierna Shipka, funcionam muito melhor no seu papel do quotidiano humano, onde brilha a curiosidade, a coragem e a tenacidade em vez do ar intimidante que pretendia retratar em certos momentos de bruxaria.

Contrariamente, Michelle Gomez volta a brilhar. Tem a capacidade de alternar facilmente entre o seu espírito malicioso de conspiração de planos diabólicos e momentos de genuíno desgosto. A sua personagem ganhou mais relevância nesta temporada, o que permitiu um desenvolvimento muito grande da mesma. Mas não é só Lilth que mudou. Muitas outras personagens, como Ros, Susie, Theo e Zelda encontram espaço para crescer e encarnar outros papéis.

Ainda que mantenha a temática adolescente, a segunda temporada consegue abordar temas mais sérios, como relacionamentos familiares, transexualidade e machismo. Este último tema encontra-se personificado no Padre Blackwood, que tudo faz para reformar a Igreja da Noite de maneira conservadora. Para além disso, as referências reversas às tradições católicas da primeira temporada são triplicadas nesta, desde o papa profano às profecias.

Sabrina continua com uma escrita mediana, não merecedora de prémios, tanto que os primeiros episódios deixam a desejar. Mas melhora ao longo da história, terminando com um bom desfecho e com motivo para uma próxima temporada, aguardada pelos espectadores.

Special

Special é baseada no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves To Get Through Our Twenties, do escritor Ryan O’Connell, que também fez parte da escrita do guião e da produção da série, para além de interpretar o protagonista. Podíamos dizer que Special é uma série sobre um jovem com um baixo grau de paralisia cerebral. Mas é mais do que isso.

Para além da sua condição, Ryan é também gay, o que o coloca dentro de dois “armários” que a personagem precisa de enfrentar. No início da série – tal como na sua vida –, Ryan sofre um acidente de carro antes de começar um trabalho como estagiário numa revista digital. Ele decide então usar o acidente como desculpa para os seus movimentos limitados.

É preciso notar que Ryan nunca procura esconder a sua sexualidade mas tem vários problemas em ser honesto sobre a sua deficiência. Parece-lhe que a sua vida social é mais confortável se as pessoas não souberem da sua condição. Ryan quer que o mundo o leve a sério, quer escrever artigos que o liguem às pessoas e quer também encontrar amor ou alguém com quem perder a sua virgindade. Pelo menos nesta última, ele é bem sucedido.

O protagonista tem uma mãe extremamente protetora, e um dos seus desafios é conseguir viver no “mundo real” sem a sua vigilância constante. É através da personagem da mãe, Karen (Jessica Hatch), que são introduzidos temas mais profundos – problemas familiares e preconceitos relacionados com deficiência.

A série, com apenas oito episódios de curta duração, não chegando aos 20 minutos, foge à típica comédia americana. Em pouco tempo, cada cena apresentada é necessária e importante, não deixando espaço para cenas de “enchimento”. A história funciona muito bem graças a Ryan – engraçado, convincente e empenhado em descrever as suas próprias imperfeições.

Special carrega um humor aguçado no que diz respeito ao politicamente correto. Não se limita apenas à questão da paralisia cerebral, mas cria uma personagem muito mais profunda. Coloca Ryan no centro de situações comuns a qualquer jovem adulto, expondo as suas inseguranças e instintos, próprios de pessoas com a mesma idade.

Cristiana Rodrigues

Filmes

Avengers: Endgame

Depois de 11 anos e 21 filmes, chegou finalmente o derradeiro capítulo da maior saga cinematográfica de que há memória.

O novo filme dos Avengers é a continuação do final estonteante de Infinity War. Por isso, todos aguardavam com expetativa a sua estreia e questionavam se o projeto estaria à altura das expetativas.

O sucesso crítico e comercial vem provar que sim. Endgame é a cereja no topo de um bolo que a Marvel demorou mais de uma década a cozinhar. A saga é um feito impressionante e, possivelmente, irrepetível nos próximos anos. Os recordes estabelecidos por estes filmes garantem-lhe um lugar na história do cinema.

Para além de um dos destaques do mês, Avengers: Endgame é um dos maiores destaques de 2019.

Dumbo

A Disney está numa fase de produção de remakes dos seus clássicos. O mais recente alvo deste tratamento é Dumbo.

Realizado por Tim Burton e contando com Colin Farrell, Michael Keaton e Danny DeVito no elenco, o filme prometia. A ideia passou por criar uma nova história que mantivesse a essência da mensagem original.

Visualmente, este é mais um trabalho muito bem conseguido por Tim Burton. A banda sonora de Danny Elfman também promete ficar na cabeça.

Dumbo foi a estreia de abril para toda a família. Pode não conseguir agradar aos fãs do original, mas não deixa de dar emoção aos mais novos.

Menina

Nuno Lopes e Beatriz Batarda unem-se num dos projetos de maior destaque do cinema português este ano.

O filme relata a história de Luísa Palmeira, uma criança de 10 anos nascida em França e filha de emigrantes portugueses. Para a mãe analfabeta, ela é quase uma adulta, mas para o pai, alcoólico, é ainda uma menina. Um certo dia, ele conta à filha que sofre uma doença grave.

Realizado por Cristina Pinheiro, é uma obra franco-portuguesa. Naomi Biton é a jovem atriz no papel principal.

O nosso país não tem muita presença no mundo do cinema. Devido a isto, a grande mistura de talento de Menina faz com que seja um destaque neste mês.

João Malheiro