Cultura

AQUI NINGUÉM É CRIADO

"Cria" - espetáculo apresentado na quarta edição dos Dias da Dança - é o encontro entre a arte contemporânea e o passinho. É a voz que nasce das favelas e luta para ser ouvida. É uma dança de reivindicação e uma dança contra a morte.

Há dias, os criadores de Looping: Bahia Overdub – espetáculo que marcou o arranque da quarta edição dos Dias da Dança (DDD) – falavam-nos do Brasil e da importância da coletividade. Felipe de Assis explicou que, mesmo perante cenários onde a alegria é frequentemente posta em xeque, “o povo brasileiro busca maneiras singulares de se reinventar” e celebrar a vida. Rita Aquino, por sua vez, lembrou que “caminhar lado a lado” é, para além de um ato político extraordinariamente poderoso, uma possibilidade de cruzamento e aceitação das diferenças.

Linn da Quebrada, que foi chamada a fazer uma intervenção no encontro Mulheres em Te(n)são, realizado a 4 de maio no pequeno auditório do Teatro Municipal Rivoli, também tocou no tópico da coletividade. Para a artista, “a raiva é um ótimo motor para nos unir e também para nos munir de forças”. Em Cria, uma das obras que a carioca Alice Ripoll trouxe ao DDD, esse motor é o que move os corpos presentes no palco.

Cria é o segundo trabalho que Ripoll desenvolveu com o coletivo Cia Suave, “um grupo de artistas da periferia do Rio de Janeiro” que assume como objetivo “elaborar e recriar a arte contemporânea”. A dança explorada neste espetáculo é o passinho, que, conforme revelou a coreógrafa ao JUP, surgiu em “festas de favela promovidas por traficantes”. “Sempre tem muita gente armada” nessas festas, “tem muita bebida e muita droga”. Ripoll considera que a tensão e a sensação de desassossego fazem parte do “quotidiano de quem vive nas favelas do Rio”.

Fotografia: Renato Mangolin.
Fotografia: Renato Mangolin.

A artista reconhece no passinho “uma certa crónica da vida quotidiana”; os intérpretes com quem trabalha “estão falando da realidade deles”. Ripoll gosta de ouvir as propostas que o grupo tem a apresentar, e opta por “interferir muito pouco”: a artista observa as interações que os diferentes membros do coletivo têm entre si para, dessa forma, estudar as formas “como a gente se conecta e toca o outro”.

Lia Rodrigues, criadora do Festival Panorama – um dos mais importantes festivais de dança no Brasil – e uma das oradoras na conferência Mulheres em Te(n)são, afirmou que é na favela da Maré, onde desenvolve trabalhos com a Escola Livre de Dança há 15 anos, que mais aprende “a agir e a abrir espaços”. “A vida diz ‘não’ todos os dias a quem mora lá”, e a força que é necessária para triunfar sobre essa voz de tirania e opressão ajuda a que a artista perceba “como é que podemos ser realmente criativos”.

No espetáculo de Alice Ripoll, o público é convidado a conhecer justamente os “ódios e afetos que transformam a violência do atual contexto brasileiro em potência criativa”. Os corpos dos onze intérpretes que ocupam o palco transgridem limites e questionam convenções instauradas por uma ideia de sociedade normativa que não lhes diz nada e da qual querem distância. A dança assume contornos eróticos e o corpo assume contornos políticos; cada movimento é como um grito contra o silêncio e o esquecimento.

Fotografia: Renato Mangolin.
Fotografia: Renato Mangolin.

Nayse López, jornalista e curadora que moderou o debate Mulheres em Te(n)são, critica o que ela identifica como uma “tendência para institucionalizar”. “Você quer fazer arte? Então vem cá que eu vou te institucionalizar. Vem aqui para esse museu e a gente te dá um dinheiro para montar um negócio fino. Mas aí tu tem que mudar de roupa, não pode vir na abertura com essa roupa”, exemplificou. Sónia Sobral, programadora cultural que trabalha atualmente em São Paulo, diz que sempre teve medo de institucionalizar porque “são muitas as invisibilidades” que se formam.

O que se pode registar em Cria é uma tentativa de contrariar essa tendência: o passinho transita da favela para o palco sem se perder a sua essência. Com os punhos cerrados e uma postura desafiante, os intérpretes unem-se no espaço para que se possa ouvir uma voz que demasiadas vezes se quer calada, e sublinham que as “crias da favela” não são criadas de ninguém.

No palco, como nas ruas, ouvem-se os sons de uma agitação que não pode ser ignorada (Leonardo França, um dos criadores de Looping: Bahia Overdub, já nos tinha contado que “há bastante alegria” quando os corpos se juntam “mas há também muita violência”), mas a dança em Cria é fundamentalmente uma dança de reivindicação e uma dança contra a morte. Afinal de contas, como escreveu a poetisa brasileira Conceição Evaristo, “eles combinaram de nos matar, mas nós combinámos de não morrer”.