Cultura

ÉDIPO, O REI QUE GANHOU OU PERDEU TUDO

"O Resto Já Devem Conhecer do Cinema", peça reinterpretada pelo escritor e encenador Martin Crimp a partir da obra "Fenícias", de Eurípedes, esteve em cena entre 27 de março e 14 de abril no Teatro Nacional São João. Por Raquel Batista.

Dor, medo, fúria. Já todos teremos visto estes sentimentos retratados no cinema e já todos os teremos sentido ao longo da vida. É por isso que a pergunta: “que filme é que vocês projetam incessantemente no cinema deserto da minha mente?” faz todo o sentido.

Os encenadores Nuno Carinhas e Fernando Mora Ramos trouxeram ao Porto a história que mistura tudo isto e os novos hábitos da época (moderna?).

Tudo se passa na cidade de Tebas, mas são as Fenícias, as mulheres estrangeiras que por ali passavam – oriundas daquilo que hoje conhecemos como Síria, Líbano, Palestina e Israel – que instigam à ação e guiam a narrativa.

Segundo o encenador Fernando Mora Ramos, estas mulheres são “uma espécie de voz de problemas da atualidade, e são vozes muito assertivas, muito críticas, que fazem aquelas perguntas que são inconvenientes”. As Fenícias, muito ativas e operacionais, contrapõem totalmente o estereótipo do feminino daquele tempo.

Crimp inverteu o foco da história originalmente escrita no ano 411 a.C., e deu relevância ao papel das mulheres, que agarravam racionalmente e espontaneamente o guião, tornando-se na “expressão máxima do desconforto”, tal como diz o escritor.

O autor que gosta de “títulos longos” escolheu o título para a sua peça depois de ver consecutivamente na televisão o filme Jasão e os Argonautas. Em entrevista à investigadora e professora Maria Sequeira Mendes, lembra que costumava tapar a cara por não suportar os horrores do filme.

Jocasta, interpretada pela atriz Isabel Lopes, usou a metáfora da balança, considerada por Nuno Carinhas como “um dos grandes discursos do teatro”, para simplificar a política. “As balanças não foram feitas só por quem detém o poder, foram feitas para dividir o que é fruto das sementeiras por todos os cidadãos”, reflete.

O momento crucial surge quando Sara Barros Leitão, Antígona em cima do palco, faz contas ao final da tragédia clássica e dá um banho de água fria à sala do Teatro Nacional São João, questionando por que é que Tebas é tão rica e enumerando as possíveis causas da guerra: “será devido, a) ao investimento de novas tecnologias; b) ao cultivo da azeitona; c) ao cobre e ao estanho; d) ao cobre e ao estanho; e) ao cobre e ao estanho”.

A vítima personifica-se em Édipo, que se torna o mediador entre as Esfinges, e a sala e torna-se um “nó do fim da história de humanidade”, como disse Fernando.

“Um ser humano cuida dos mortos? E dos vivos?”. Foi esta a pergunta à qual o texto de Crimp não dá resposta, mas sobre a qual a montagem dos encenadores portugueses especula.