Cultura

NÃO DÁ PARA ESQUECER MANEL CRUZ

Manel Cruz atuou na Casa da Música no passado domingo, para o primeiro concerto da promoção do novo álbum, "Vida Nova".

A Sala 2 da Casa da Música esgotou para receber Manel Cruz. O artista que se tornou famoso por ser o vocalista dos Ornatos Violeta apresentava agora o primeiro trabalho a título pessoal.

Quatro minutos depois da hora marcada, os músicos entram em palcos todos a cantarolar. “Buraco” e “Como um Bom Filho do Vento” foram as escolhidas para iniciar o espetáculo.

“Obrigado pessoal!”, começa Manel Cruz. “Vamos ver se nos esquecemos dos quatro”, brinca, em referência aos sofridos golos do Benfica.

O alinhamento continua pelo novo disco com “Anjo Incrível”. “Entre as Pedras” e “Reboque” surgem, de seguida, e apesar de não serem do conhecimento do público, este reage em euforia à atuação dos artistas.

“Obrigado! Vamos lá tentar esquecer os quatro…Eu já disse isto, não já? Desculpem, tenho uma obsessão”, diz. O bom humor de Manel Cruz foi evidente ao longo de todo o concerto e sempre acarinhado pelos presentes na sala.

De regresso ao novo álbum, “Cães e Ossos” recebe vários aplausos. A adrenalina do espetáculo leva Manel a remover a camisa e ficar de tronco nu durante o resto da atuação.

“Missa”, mais um trabalho original, liga-se tematicamente com a música anterior e mantém o ritmo alto do espetáculo. Em reação à energia do público, Manel conclui: “Estou a ver que o diabo tem muitos amigos por aqui!”.

A mensagem de “Ainda Não Acabei” serve de mote à nova fase da carreira de Manel Cruz. Uma declaração que o artista ainda tem muito para dar, reiterada pela repetição da frase por mais de vinte vezes no clímax da música. O público aprecia a perícia e Manel levanta o punho, em agradecimento.

“Caso Arrumado” salta à vista pelo seu ritmo pitoresco que fica na cabeça do ouvinte. No final da música, Manel bebe um pouco de água e depois entrega a garrafa a um membro do público. “Não tenhas nojo, não estive a fazer coisas indecentes”, garante.

Numa mudança de paradigma, o alinhamento vai ao projeto antigo de Manel Cruz: Foge foge Bandido. Ouve-se “As Minhas Saudades Tuas”, reconhecida por alguns fãs mais antigos.

De regresso ao novo disco, “Libelinha” e “O Navio Dela” são as próximas. As músicas recentes revelam-se populares entre o público, que já conseguiam acompanhar o canto de Manel Cruz.

“Canção da Canção Triste”, também de Foge Foge Bandido, é a seguinte, sendo que depois os músicos que acompanham Manel Cruz largam os instrumentos. O artista vai para o fundo do palco, senta-se numa cadeira e com o cavaquinho toca “O Céu Aqui”.

O talento de Manel revela-se na sua plenitude através da simplicidade. O ambiente intimista continua com “Reencontro”. “Estou a tocar baixo agora, se tudo correr bem o Eduardo sai da banda”, brinca com o baixista que acompanha Manel há dois projetos.

Os músicos voltam às suas posições e começam “Meu Amor Está Perto”, de Foge foge Bandido. Depois, o alinhamento salta para o novo álbum. “Beija-Flor” e “A Invenção da Tarde” fazem-se ouvir.

O vaivém de projetos continua e o ritmo do concerto aumenta. “Tirem o Macado da Prisão”, “A Cisma” e “Estou Pronto” voltam a reforçar o trabalho de Manel na época do Foge foge Bandido. O carinho do público leva Manel Cruz a anunciar, com humor: “está toda a gente convidada para ir beber um copo lá a casa… A casa da minha irmã, atenção”.

“Ovo”, um dos projetos mais característicos de Manel, chega nos momentos derradeiros. Os sons surreais e discrepantes criam um caos melódico que absorve toda a sala.

O alinhamento principal termina com o clímax intenso de “Maluco”. O público aplaude intensamente os artistas, que se reúnem na parte frontal do palco, fazem uma vénia, dançam sapateado e ausentam-se do palco. Seria uma despedida em grande, mas havia mais.

Manel Cruz surge sozinho, de volta à cadeira no fundo do palco, para cantar “Onde Estou Eu”. O momento bonito não restringe o artista de mandar mais uma graçola, enquanto se senta – “isto não é opção estética, é velhice”.

Mesmo a brincar, Manel reconhece a passagem do tempo. Não o impede de celebrar a “Vida Nova” que pretende com este novo disco e os restantes músicos voltam ao palco para o ajudar a cantar a canção homónima. Por fim, um regresso derradeiro a Foge Foge Bandido com a “Canção da Canção da Lua” é a forma escolhida para encerrar, definitivamente, o concerto. Mais um enorme aplauso, este mais audível e prolongado, leva a uma nova vénia dos músicos.

Os anos passam, a carreira já vai longa, os projetos espaçados e diversos. É normal não haver memória para todos num reportório tão extenso. Até nos podemos esquecer dos Ornatos Violeta, como foi pedido. No entanto, uma coisa é certa: não dá para esquecer Manel Cruz.