Cultura

NERVE SOBE AO PALCO DO PÉROLA NEGRA (E TEM UM MONÓLOGO)

Na véspera de 25 de abril foi a vez de NERVE se expressar em frente ao público do Pérola Negra, com o auxílio de Notwan. Por João Norte.

No panorama nacional do hip-hop poucos artistas conseguiram criar um nicho tão único como NERVE. Não há ninguém como o Sacana Nervoso, porque ninguém o consegue ser. Numa só estrofe tem trocadilhos e rimas suficientes para um EP de quase qualquer outro rapper.

De facto, os momentos mais satisfatórios na escuta de uma música do NERVE acontecem quando, após a milésima escuta, conseguimos descodificar aquele verso que parecia indecifrável. É aí que a canção passa de um conjunto de palavras sem sentido para um poema tão belo como o de qualquer grande poeta que estudámos na escola. Mas de que maneira é que num concerto esses instantes de epifania conseguem ser replicados?

A verdade é que não conseguem, pelo menos não totalmente. Mas mesmo sem esses momentos “eureka”, nenhuma pessoa no Pérola Negra ficou igual perante as palavras que o rapper disparava para o microfone como balas, cada uma delas carregada de emoção.

Notwan foi o homem responsável pelo warm-up, no qual atuou algumas das suas faixas. O MC e produtor continuou no palco o resto do concerto e até houve momentos em que roubou o holofote ao Sacana Nervoso, com os seus acordes – sim, acordes – de saxofone.

A maioria das músicas tocadas pertenciam aos últimos três projetos de NERVE, mas ainda houve tempo para a faixa “Funeral”, a colaboração com Mike El Nite, e “Ingrato”, uma feature no novo álbum do Stereossauro.

Muito é discutido da personalidade de Tiago Gonçalves. Será que ele é tão sinistro e misantropo como faz parecer na sua música? Ou é tudo uma expressão artística? Será que NERVE é simplesmente um nome de palco que Tiago Gonçalves usa para manifestar os recantos mais sombrios da sua personalidade?

Não se sabe se alguma vez haverá uma resposta definitiva para estas perguntas. Mas foi evidente no concerto de quinta-feira que, em palco, estava o NERVE a atuar. Cada rima fluía tal como nas gravações, sem nenhuma falha nos versos ou hesitação na voz. As suas palavras ecoavam com tremendo poder, como se de um pregador se tratasse.