Cultura

PATHOS: ENTRE O PASSADO E O PRESENTE VENCE UM FUTURO

O "espetáculo-ruína" encenado por Cátia Pinheiro e José Nunes passou pelo Teatro Carlos Alberto entre 10 e 13 de abril, confrontando duas realidades que, apesar de aparentemente separadas por mais de dois milénios, partilham os mesmos problemas e as mesmas tragédias. Por Francisco Lima.

Pathos retrata uma tragédia dos tempos antigos que abarca os mais debatidos problemas da atualidade, desde o feminismo à ecologia, da globalização ao aquecimento global, da colonização e do saque à extração e às necropolíticas. Cátia Pinheiro e José Nunes serviram-se do passado para metaforizar o nosso presente.

A peça apresenta-se à plateia de uma forma supostamente simples mas com cores intensas e sincronizadas – constantes azuis, verdes, vermelhos e castanhos colidem para criar cenários alternativos. As plantas e o plástico, que constantemente acompanham a obra, moldam-se aos olhos dos espectadores, num mesmo ambiente, num mesmo clima, transpondo, paradoxalmente a mensagem de proteção do ambiente.

A obra destaca-se pela irreverência e por uma simplicidade contemporânea. Pathos é uma criação em cinco atos; são cinco momentos trágicos, cuja unidade de ação, em constante confronto com o século V a.C., se foca no aqui e agora. São abordadas grandes questões, tão típicas das tragédias, e que ainda atualmente têm palco, desde o não-reconhecimento do estrangeiro ao modo como aceitamos o outro, tão igual a nós mas tão diferente. Pathos é um conceito grego que pode envolver noções como paixão, catástrofe, passividade, sofrimento ou doença, para referir apenas alguns. No Teatro Carlos Alberto, esse sofrimento é aquele ao qual os homens são conduzidos por causa das suas ações, ações essas que são irreversíveis.

Esta peça é uma viagem à Grécia antiga que nunca teve um fim – nem nunca o terá. Essa viagem ficou marcada por uma tragédia inevitável e um sentimento de perda. É a partir da convocação de um suposto início, da reminiscência de uma ideia vaga de humanidade (a Grécia Antiga, berço da civilização ocidental, da democracia, da filosofia) que Pathos nos permite avaliar e medir o nosso tempo.

Não podemos interpretar esta narrativa como uma crítica, uma vez que, como o próprio criador José Nunes aponta, o que temos aqui é uma reflexão, sem um posicionamento moralista sobre o que é certo ou errado.

Emoções de revolta são recorrentes ao longo do espetáculo. Esses sentimentos são herdados da Antiguidade Clássica, das suas tragédias, que definiram a nossa personalidade e identidade ocidental, o nosso património, a nossa forma de ser. Contudo, e paradoxalmente, este universo fascina-nos, prende-nos como uma síndrome de Estocolmo. A ideia de irreversibilidade dos nossos comportamentos, já desde o tempo de Ésquilo, Sófocles ou Eurípides, é outro ponto de interesse na peça, transmitindo uma ideia de que já não podemos retroceder e emendar as nossas ofensas. Resta-nos apenas esperar pela catástrofe. Pelo inevitável.

Pathos vem encerrar uma tetralogia que a companhia artística Estrutura desenvolveu entre 2017 e 2019. Depois de Geocide (2017), The End (2017) e M’18 (2018), a nova criação tenta concluir uma espécie de busca ontológica, com a procura, na antiguidade, de respostas aos problemas do presente. Entre a memória, a vivência e o desejo, estas peças estimulam um olhar crítico sobre a Humanidade, analisando o caminho percorrido até agora e estudando o caminho que iremos adotar de hoje em diante.

A vontade que as tragédias gregas nos suscitam é a mesma que temos perante as águas paradas de um lago: apetece-nos sempre atirar uma pedra e ver quantas vezes a conseguimos fazer saltar. É por isso que Pathos é um salto de fé; é a junção entre um lago perfeito e parado e a nossa vontade de o agitar.