Cultura

O GAJO: “É A PARTIR DA HISTÓRIA QUE ALICERÇAMOS NOVAS IDEIAS”

Com uma viola campaniça no regaço e o desejo de "partir para o mundo", O Gajo lança um olhar contemporâneo sobre a música tradicional do país que o viu nascer e trabalha onde mais gosta de estar: "fora do quadrado".

João Morais não tem dúvidas: quando pegou numa viola campaniça pela primeira vez, “abriu-se não uma porta mas um portão”. O Gajo, como se dá a conhecer na estrada, não diria necessariamente que acordou para a guitarra tradicional alentejana um bocado tarde, “mas ela já me fazia falta há algum tempo”.

O músico lisboeta tocou em bandas voltadas para o punk e o hardcore durante quase 30 anos. Em 2017, o seu desejo de fazer com que pessoas de qualquer canto do mundo conseguissem associar as suas composições e a sua sonoridade a Portugal – “queria criar uma geografia na música que faço” – levou-o a Longe do Chão.

Com o seu primeiro disco de estúdio, O Gajo escreveu canções que parecem viagens temporais por Lisboa. Ouve-se um som de uma cidade que se calhar já não existe no século XXI, e também se ouve uma tensão amplamente característica de uma Lisboa moderna. Ouvem-se traços de Carlos Paredes, referência incontornável no universo da guitarra portuguesa, mas a nostalgia dialoga com um olhar contemporâneo sobre o país e o mundo.

João Morais encontra um refúgio nas raízes culturais de Portugal quando deixa de se identificar completamente com a cena musical de que tinha feito parte durante a vida inteira. “Continuo a ouvir muito rock e muito punk. Acho que têm intenção e intervenção. Mas acho que muito do punk que se faz hoje está já um pouco subvertido. Já perdeu um bocado a sua essência e a sua razão de existir. Comecei a ouvir demasiados chavões”.

Quando cresces e começas a sentir que estás num rebanho muito grande, e que tu és aquela ovelhinha lá no meio, começas a ponderar se te identificas. Será que isto sou eu? É isto que quero ser? Comecei a pensar que tinha de encontrar a minha essência de alguma forma. Acho que todos a procuramos

Fotografia: Maria Vilela.
Fotografia: Maria Vilela.

A paixão pela campaniça acontece por acaso e, observa O Gajo, num momento “em que o nosso próprio país está a mudar em termos daquele que é o interesse pelo que se faz cá dentro. Durante muito tempo, parecia que se fosses estrangeiro é que eras bom e se fosses português não eras nada de jeito. E hoje em dia isso já não acontece. O fado tornou-se Património Imaterial da Humanidade, o canto alentejano tornou-se Património Imaterial da Humanidade. Há um reavivar de interesse pela música tradicional”.

Dois anos depois do primeiro disco, O Gajo está agora a trabalhar nas suas Quatro Estações. O músico vai lançar quatro EPs em 2019: cada um será partilhado com o público numa estação do ano diferente, e cada um representa uma estação ferroviária de Lisboa. Rossio é a primeira paragem desta compilação, que vai ser composta por 20 novas músicas.

Se as músicas deste amante da campaniça parecem viagens temporais por Lisboa, faz todo o sentido que o comboio sirva como mote para as novas composições. “O comboio representa a viagem e a descoberta da forma que eu sinto que seja mais romântica”, revela ao JUP.

E não é só o artista que viaja quando toca. “Durante os concertos que fui fazendo de apresentação do primeiro disco, o feedback que mais vezes ia recebendo era o de que as pessoas quase iniciavam uma viagem no início do concerto. Havia realmente ali uma ideia de partir para qualquer lado. Eu próprio também viajo muito com esta viola e parto para muitos sítios. Foi em Lisboa que nasci e cresci e é de lá que parto para o mundo”.

Eu passo muitas horas na minha sala de ensaio, e a sala de ensaio é uma espécie de toca fechada, forrada a cortiça. Mas é talvez o sítio onde eu viajo mais. Quando estou na minha sala de ensaio, estou realmente a existir. Às vezes estou ali fechadíssimo, mas é naquele espaço que tudo faz mais sentido

Segundo a perspetiva de João Morais, a relação que criou com a viola campaniça é uma que cresce a cada dia, porque “parece que sempre que pego nela sai uma coisa nova”. O Gajo tem um profundo respeito pela história e a herança cultural do país que o viu nascer, porque “é a partir da história que alicerçamos novas ideias”, e quer “pegar na tradição ou naquilo que já está criado e transportar isso para outro ambiente”, oferecendo qualquer coisa de novo no processo.

É, ou seja, com um olho no passado e outro no futuro que O Gajo define as suas rotas e planeia as suas viagens. Sabe que “há muita malta tradicionalista que não vê com bons olhos os novos rumos da campaniça e torce o nariz porque sente-a vandalizada”, mas não quer estar preso por convencionalismos.

“Tenho um filho na escola e é muito difícil para mim conviver com uma escola que é conservadora. Se o puto pinta fora das linhas, ficam logo chateados. E para mim, fora das linhas é sinal que para ele as linhas não são o limite. Há coisas para lá da linha. E é para lá da linha que eu gosto de estar. Dentro do quadrado, já está tudo muito explorado, e não sinto que haja matéria-prima para trabalhar. Embora o quadrado, um bocadinho como a história, seja a base, as coisas tornam-se fixes quando estás fora dele”, confessa.

Santa Apolónia é a próxima paragem do comboio em que O Gajo decidiu entrar. Depois disso, no seu projeto das Quatro Estações, segue para Alcântara-Terra e o Cais do Sodré. A promessa de, depois daí, “partir para o mundo” está feita.

Fotografia: Maria Vilela.
Fotografia: Maria Vilela.