Cultura

ANDRÉ VIAMONTE: “TUDO O QUE É EXPRESSÃO FAZ SENTIDO”

André Viamonte esteve no Hot Five, no passado sábado, para uma atuação musical emotiva onde demonstrou a possibilidade de utilizar sons como forma de terapia. Por Alice Carqueja.

André Viamonte atuou no último sábado no Hot Five Jazz & Blues Club. Tanto a sua presença de palco como a mensagem transmitida através da sua música emocionaram o público presente. Em entrevista ao JUP, o músico admitiu que a paixão pela música lhe surgiu em criança: “aos cinco já andava a fazer imitações de sons (…) A minha mãe dava cabo de mim porque eu fazia imitações de sinaleiros”. Porém, foi apenas aos 22 [tem hoje 35] que se fundiu com o mundo da arte.

Em 2013, formou-se em Musicoterapia, em Lisboa. Assim, conciliou a composição com o canto, e com a parte terapêutica. Apercebeu-se de que queria seguir a carreira musical, nomeadamente como compositor, através desta experiência relacionada com a terapia musical.

Sem artistas favoritos, orienta-se através de referências de obras, sendo um obstáculo para ele seguir uma linha musical. Assim, todo o tipo de arte o inspira. “Tudo o que é expressão faz sentido”, diz André. É então um amante de “todas as pessoas que se expressam a partir da arte”.

Terminada a formação em musicoterapia, descobriu o tipo de música que queria fazer: música de sentimento, de emoção, de ajuda. Pretendia utilizar o seu talento como um apoio aos ouvintes, um resgate às emoções. Tendo crescido sozinho, quando se encontrava em situações de ansiedade, a música era o seu refúgio. Viamonte pretende transparecer a mesma segurança que os sons lhe traziam quando era criança. Para ele, a música era como uma “segunda maternidade”, sendo seu trabalho atual baseado nisso mesmo, num “tipo de música que acolhe muito as pessoas”. Verificou-se este conceito logo na chegada do público ao local do concerto. Na entrada, foram entregues pequenos frascos com letras das músicas que iriam ser cantadas. A ideia era dedicar uma música a cada dono dos recipientes, tornando a experiência mais pessoal.

Em conversa com o JUP, o cantor e compositor declara que as suas obras não constatam de um perfil fixo de ouvintes. De facto, até as crianças tendem a ficar estarrecidas com a sonoridade das cordas e com a envolvência dos concertos. A sua música atinge todas as faixas etárias de tal modo que, em concertos, pode existir uma adolescente de 18 anos que se comove com as canções, pois a relembram que alguém partiu, quando uma senhora idosa de 80 anos que, sem a conhecer, lhe dá a mão como símbolo de apoio. E é exatamente isto que Viamonte gosta que aconteça, tendo em vista o objetivo da sua música. O músico considera que tem um público “genuíno, muito verdadeiro”. Já no final da atuação, eram visíveis os espectadores comovidos com toda a emoção que transbordava do palco, e das próprias lágrimas do cantor.

O artista não se deixa intimidar pelo facto de a arte ser ainda desvalorizada em Portugal e, embora a falta de apoio seja ainda uma realidade, André acredita que cabe também ao artista procurar suporte. Sendo o público o consumidor da arte, é necessário agradar ao mesmo. Algo que contribuiu na escolha do local do concerto, que Viamonte considerou acolhedor e relacionado com a alma do Porto. Acompanhou esta ideia enquanto cantava as músicas com tal intensidade que fazia o público estremecer de emoção.

André Viamonte apresenta como um dos seus objetivos pessoais “continuar a ter espaço e tempo para fazer música”. Por vezes, torna-se complicado dividir o tempo e gerir as despesas associadas a tudo o que envolve este percurso.

Quanto às críticas que recebe, considera-as construtivas e dignas de serem ouvidas e analisadas. E através delas, pretende que o seu álbum, VIA, lançado em 2016, cumpra o intento de “chegar às comunidades, tocar nas pessoas e fazer a diferença”. Sem dúvida que conseguiu alcançar o propósito no final do concerto, quando foi felicitado por todos aqueles que assistiram, enternecidos à atuação.