Cultura JUP Destaques

JUP DESTAQUES: FEVEREIRO 2019

O JUP Destaques de fevereiro lança um olhar sobre o que de melhor trouxeram o mundo da música e dos grandes e pequenos ecrãs no mês mais curto do ano. Por Adriana Pinto, Cristiana Rodrigues e João Malheiro.

Cinema

The Favourite

Fevereiro foi mês de Óscares e, por isso, a estreia do The Favourite foi das que atraiu mais atenções. Na gala da Academia, o filme teve dez nomeações, sendo que Olivia Colman ganhou o prémio de Melhor Atriz Principal.

Uma comédia negra histórica, o projeto de Yorgos Lanthimos retrata a história da rainha Anne e de duas primas que tentam tornar-se as favoritas da corte.

O estilo particular e surreal do realizador grego está patente ao longo de todo o filme. É um conto bizarro e bem representado, devido ao trabalho de Colman, Racheil Weisz e Emma Stone.

Não será propriamente uma biografia fiel à realidade, mas o propósito de The Favourite não é esse. É uma viagem estranha pelo mundo da realeza britânica e uma das referências do cinema de 2018.

Alita: Battle Angel

Robert Rodriguez regressa às grandes produções com Alita: Battle Angel. O filme é baseado num manga dos anos 90 e já é tido como uma das melhores adaptações cinematográficas do meio.

Alita é um ciborgue que acorda num corpo novo, sem memórias do seu passado. Com o objetivo de descobrir a sua identidade, a personagem vai viajar por uma Terra distópica e futurista.

Rosa Salazar interpreta Alita, através de um extraordinário uso de efeitos especiais. O elenco de apoio é constituído por estrelas com Christoph Waltz, Jennifer Connelly, Mahershala Ali e Jackie Earle Haley.

Um sucesso de bilheteira, o projeto impressionou os espetadores com os seus visuais, as cenas de ação e o trabalho de Rosa Salazar. É uma história de ficção científica de grande escala a não perder, e um dos grandes destaques do mês de fevereiro.

Stan & Ollie

A famosa dupla Bucha e Estica cativou gerações com os seus filmes mudos de comédia. Esta biografia relata os anos finais dos dois artistas, quando fazem uma tournée exigente pelo Reino Unido.

Steve Coogan e John C. Reilly encarnam os dois protagonistas. As suas atuações são de alto nível e ambos foram nomeados para prémios como os Globos de Ouro e os BAFTA.

A aventura é divertida e mostra as dificuldades de artistas com a carreira em queda. É um percurso interessante pelos bastidores do mundo do espetáculo clássico.

É uma obra simples e agradável com uma história inspiradora sobre dois homens que dedicaram a vida ao entretenimento.

João Malheiro

Música

Girl With Basket of Fruit, Xiu Xiuxiu-xiu

Muitas palavras podem ser utilizadas para descrever Xiu Xiu, mas previsibilidade não é, de certeza, uma delas. No ativo desde 2002, quase não há género que ainda não tenha passado pela voz e mãos talentosas de Jamie Stewart e companhia – que vai sempre mudando. Desde as melodias agridoces de álbuns como Fabulous Muscles (2004) às reflexões ocas emparelhadas com delicadas progressões de sintetizadores do último projeto Forget (2017), não há quem derrube as fronteiras do art rock e do abstract pop como a banda.

Quem achou que a leveza e airosidade de Forget tinham chegado para ficar; que, talvez, também Stewart tivesse embarcado pela moda geral da positividade, enganou-se. Apesar de mais refinado no que toca à produção, Basket Of Fruit encontra um Stewart quase tão irritado como em Dear God, I Hate Myself. Em “Mary Turner Mary Turner” – aquela que é a descrição vivida e macabra do linchamento do casal de afro-americanos Mary e Hayes Turner – Jamie grita “Fuck your guns / Fuck your war / Fuck your truck / Fuck your flag”. Xiu Xiu é música que soa a aversão; a nojo – é música cujo objetivo é deixar-nos desconfortáveis.

As letras hiper-descritivas e realísticas combinam com os instrumentais crus – quase inacabados -, e os vocais degoladores de Stewart. Como em tantos projetos anteriores, o objetivo da música nunca é ser bonita. Apesar da atmosfera caótica em que nos envolve, a raiva que faz Girl With Basket of Fruit vibrar nunca vem de um lugar de superioridade ou invasão, mas sim de vulnerabilidade e empatia – emoção pura.

 

thank u, next, Ariana Grandearianag

Os contos das suas relações amorosas são mais conhecidos que a Cinderela ou a Bela Adormecida. Todos se riram quando Ariana Grande ficou noiva de Pete Davidson após dois meses de namoro; ou quando o curto noivado terminou em outubro do ano passado, ou quando tatuou “BBQ Grill” no dedo. Mas algo comum a essas situações é que Ariana tomou a mão superior em todas elas (ou na maioria). Do recente e curto namorico, fomos presenteados com o seu melhor álbum até à data; o projeto que sabe a lua de mel e a dias de primavera – Sweetener – como se de um brinde de casamento se tratasse.

Mas o que é bom acaba depressa, aparentemente, e seis meses depois voltamos a ser presenteados – desta vez com aquele que parece o fruto da #PeteDavidsonIsOverParty, mas que é tão mais para além disso – com thank u, next.

Apesar de baseadas nas ligações românticas e sexuais da cantora, todas juntas as doze faixas de thank u, next, são, na verdade, asserções e afirmações de crescimento pessoal e da arte de “deixar ir”. O desmaio amoroso embalado nos ritmos doces de Pharrell em Sweetener desapareceu e deu lugar à influência estilística do trap, que define batidas e sintetizadores agitados contra arranjos pop clássicos, que tremem a cada clímax emocional na voz da cantora.

Já em 2016, em “Side to Side”, Nicki Minaj afirmava com toda a assertividade a que se sentia intitulada “young Ariana run pop”. Três anos depois, a não-tão-young Ariana parece ter cumprido a profecia. Thank u, next não é um álbum perfeito, nem melhor que Sweetener, mas é o capítulo que a carreira e vida da cantora precisavam.

 

Let’s Try the After (Vol. 1), Broken Social Scenebss

Depois do magnífico Hug of Thunder, de 2017 – o primeiro álbum da banda em sete anos – e da promoção e tour em sustento do mesmo, Let’s Try the After (Vol. 1) é como que o “e agora?” de Broken Social Scene.

Sentado em cinco faixas, o EP é uma recolocação da fantasia do projeto anterior. Depois de tantos anos nisto, a banda conhece as suas forças e fraquezas e sabe tirar o melhor partido delas. A primeira faixa, “The Sweet Sea, apesar de curta, define o estado de espírito do projeto e dos BSS nesta fase da sua carreira – a música é suave e puramente instrumental. Os dias em que gritavam letras para um público que prontamente respondia estão ultrapassados para ambas as partes e “Remember Me Young” é a prova disso. Com quatro minutos e sem qualquer palavra real, a canção é a prova da capacidade de Broken Social Scene em gerar respostas emocionais através de sons densos e triunfantes.

Embora a cacofonia não ofereça muito espaço para pensar ou sentir alguma coisa para além da submersão, a banda canadiana tem vindo a provar que, através do som, consegue guiar os ouvintes até um doce alívio.

Como todos ou quase todos os EPs, Let’s Try The After não deixa de saber a aperitivo. Mas esse é, precisamente, o seu objetivo – deixar espaço nas nossas barrigas para mais, porque, se este é o Vol. 1, certamente haverá Vol. 2.

Outros a destacar: Freewave 3, Lucki | Mazy Fly, SPELLLING | Solitude, King Midas Sound

Adriana Pinto

Séries

Victoria

Victoria é uma série da PBS sobre, como o nome indica, a rainha Victoria. Acompanha a menina de 18 anos que saiu do palácio de Kensington para arcar com todas as responsabilidades da realeza numa idade tão tenra.  Dá-nos a conhecer também Albert, o seu futuro marido, por quem se apaixonou, na série e na vida real, tal como está retratado nos seus diários pessoais.

Victoria não é talvez a série com mais precisão histórica no que concerne ao decorrer dos eventos, ou mais especificamente, o que precedeu certos eventos históricos. No entanto, o drama, o romance e a personalidade da rainha são cativantes o suficiente para nos fazer acreditar na história.

A série terminou este mês a sua terceira temporada. Victoria já cresceu, como pessoa e como rainha. Superou tentativas de assassinato e crises políticas. Esta terceira temporada empenhou-se em ir além do romance e do drama, para dar mais ênfase a problemáticas da altura, tal como a revolução francesa e o movimento dos Cartistas.

Jenna Coleman tem vindo a impressionar a cada temporada com a personalidade e carisma que dá à personagem. O resto do elenco também não desaponta. Os cenários e o vestuário são maravilhosos e transportam-nos automaticamente para a época Victoriana.

You’re The Worst

You’re the Worst é uma comédia romântica sobre um casal inconveniente, inconstante e instável. Gretchen (Aya Cash) e Jimmy (Chris Geere) lidam com vários problemas psicológicos e traumas pessoais. Durante muito tempo desprezam o conceito de casal romântico, violando as normas e convenções sociais do amor e todos os seus tabus. Inicialmente sentem-se atraídos fisicamente, desenvolvendo uma relação de “friends with benefits”, com mais benefícios do que amizade. Mas rapidamente, ao partilhar confissões dos seus erros do passado, alcançam intimidade emocional.

Contudo, a história vai além das duas personagens principais com personagens secundárias muito bem construídas, que revelam a sua profundidade ao longo das cinco temporadas. São igualmente interessantes as  histórias de Edgar, o veterano do Iraque,  colega de casa de Jimmy; ou então de Lindsay, a melhor amiga pré-adulta de Gretchen e sempre pronta para uma festa.

A comédia cínica e o humor deixam espaço para momentos mais dramáticos e expõe muitas atitudes tóxicas e pouco saudáveis na relação do casal. A série não tem medo de abordar temas mais obscuros e menos habituais deste género. Por isso mesmo, o seu ponto forte é manter o equilíbrio entre o leve e o mais pesado. Há risos, mas também momentos de silêncio e de dor pela depressão de Gretchen, pelo momento de luto de Jimmy, pelo stress pós traumático de Edgar. 

A quinta (e última) temporada está a ser transmitida agora, cada semana um episódio mais perto do final incerto dos, agora, noivos.  Cada episódio mostra que os problemas de compromisso e de confiança ainda não foram todos resolvidos e que o casamento é um passo muito grande que os dois podem não estar prontos para dar. Ainda é tempo de entrar neste comboio de emoções em chama e apanhar o final deste casal pouco convencional.

The Umbrella Academy

Num universo alternativo, onde Kennedy não foi assassinado, nasceram 47 crianças no mesmo dia, em condições especiais: nenhuma das mulheres estava grávida no princípio desse mesmo dia. Um multimilionário excêntrico, Reginald Hargreeves, consegue adotar 7 delas e dedica a sua vida a desenvolver os seus super poderes para combater o mal.

Uma família completamente disfuncional, sem uma figura paternal carinhosa, sem qualquer modelo a seguir, sem ter direito sequer a um nome. Foram todos numerados. Número 1, 2, etc. Não é de admirar que anos mais tarde, já adultos, se encontrem com vários problemas, psicológicos e físicos. Todos separados, voltam a reunir-se com a notícia da morte  misteriosa do seu pai.

Esta primeira temporada foca-se no Apocalipse, que o número 5 presenciou numa viagem no tempo. Agora que conseguiu regressar tenta salvar o mundo, em menos de uma semana.

São apresentadas muitas personagens principais, com igual relevância na história, mas a série sabe dosear a informação que expõe, de forma a permitir ao espectador colocar as peças do puzzle no sítio e começar a perceber o desfecho da história à medida que esta se desenrola. 

Uma série leve, peculiar e rápida. Há momentos de soltar um sorriso com personagens charmosamente sarcásticas como Klaus, ou número 4. Mas também mais tensas, onde o drama familiar, se assim se pode chamar, entra em cena. Podemos observar claramente as falhas e problemas dos super-heróis, o desmascarar da ideia de perfeição sobre-humana.

The Umbrella Academy é fruto da mente de Gerard Way, cantor (antigo vocalista da banda My Chemical Romance), compositor e escritor. Gerard escreveu e Gabriel Bá ilustrou esta história de ficção que foi agora adaptada para série pela Netflix.

Cristiana Rodrigues