Cultura Opinião

RUI MASSENA: SEM PALAVRAS, MIL EMOÇÕES

O Coliseu do Porto encheu-se na sexta para assistir ao espetáculo sonoro e visual de Rui Massena Band. A noite foi marcada pela estreia ao vivo do álbum III.

Rui Massena é luz, cor e som. É emoção, a mais pura das alegrias, a mais profunda das tristezas, raiva, revolta e dor. Preso no limbo entre a música clássica e a pop, a nenhum dos dois universos pertence totalmente. As dimensões fundem-se para gerar algo único, diferente de tudo o resto. Neste seu limbo, vive num mundo só seu, mas estende pontes e abre portas a quem quiser entrar. Nesta noite no Coliseu do Porto, não só abriu portas como deu convites, desejoso de partilhar o resultado deste seu III.

Às 21h38, Rui Massena entra sozinho em palco. Um único foco de luz ilumina uma caixa de música, a que o músico dá à manivela e solta notas de “The Tree”. As luzes acendem-se e os músicos da sua Band entram. Com a primeira onda de aplausos da noite, Massena desloca-se para o piano, onde toca um prelúdio de “The Tree” e, sem parar, parte para “Amanhecer”.

Este primeiro momento marca o início de uma jornada irrepetível. A melodia épica pode ser digna de acompanhar um filme, mas não precisa de o ser; as imagens sucedem-se na mente. Arte é imaginação e sentimento. A sala está, certamente, preenchida tanto por conhecedores de técnica e composição musical como por leigos no assunto. Mas a música é uma linguagem universal por alguma razão. O primeiro segundo, a primeira nota e a primeira vibração marcam o fim do mundo exterior e o início da viagem ao mundo único que é o de Rui Massena. Os problemas da vida são esquecidos e apenas importa o aqui e agora. Tal como a vida deveria ser sempre, na verdade.

Fotografia: Joana Nogueira
Fotografia: Joana Nogueira

A tela no fundo do palco sobe, revelado uma superfície que vai mudando de cor ao longo do espetáculo. Começa com cor de laranja, partindo para verde quando Massena se desloca à frente do palco, faz uma vénia e se senta no piano de cauda. Os músicos que o acompanham dividem-se por baixo, teclas, cordas e percussão. Para “Estrada” – música que, tal como “Amanhecer”, pertence ao Ensemble de 2016 – apenas ficam as cordas no palco.

“Fé”, primeira música de Solo, toca-se com fundo cor de rosa e todos os músicos em palco. Uma pausa sepulcral entre faixas relembra que o silêncio também pode gritar significado. De música em música, a cor escurece para um tom de violeta e “Um Lugar”. Esta viagem pelo tempo chega, assim, a III.

Rui Massena não canta, mas espanta e a todos encanta. Identificamo-nos com certas frases em letras, mas a música instrumental a todos toca e a todos tem algo para dizer. Nesta odisseia de sete músicos, o público espreita o passado e vislumbra o futuro – tudo o que já foi e tudo o que será. As ondulações da música marcam os altos e baixos da vida, e relembram que após uma tempestade também há dias de sol e arco íris.

“Recordo hoje que em janeiro de 2014 estava em Alfândega da Fé, estávamos a gravar as primeiras canções. Passados uns meses, a 6 de junho, saiu uma canção. Vamos ver se a reconhecem”.

As primeiras notas de “D-Day” partem do piano e instantaneamente chegam ao coração e à alma de todos os presentes. Esta segunda composição de Solo é curta, mas é das mais arrepiantes da discografia de Rui Massena. Ouvem-se soluços e suspiros; haverão, certamente, várias lágrimas a ser contidas pelo Coliseu fora.

Fotografia: Joana Nogueira
Fotografia: Joana Nogueira

O fundo preto volta a descer enquanto Massena se desloca para o piano no centro. Deixa os seus dedos passear pelas teclas enquanto fala. “Pois é. Esta canção foi composta num domingo, depois de um sábado de festão. Foi um dia difícil, então tentei compor uma canção alusiva. Esteve para se chamar ‘Ressaca’, mas ficou por ‘Lazy’. Claro que a maior parte das pessoas que aqui estão não têm idade para saber o que é uma ressaca”. Com esta intervenção, consegue uma gargalhada geral, mostrando a sua boa disposição e provando que o mundo da música clássica não tem que ser sempre demasiado sério.

“Lazy” não é tocada de forma preguiçosa, mas em jeito de união. A iluminação sóbria mostra os músicos da Band reunidos à volta de Massena, com um dos percussionistas a mudar para um xilofone. A canção acaba com os sete num círculo de cabeças, numa espécie de vénia dramática.

Massena inicia “Nós” no centro do palco. Junta-se a ele o violino, num crescendo de ritmo e emoção. O diálogo entre os instrumentos é acompanhado por luzes de cores quentes, focos de laranjas e vermelhos que alternam consoante o momento. O clímax da música transporta os presentes para um salão nobre de baile. Os segundos finais podem ser melhor apreciados de “olhos fechados”, como se ouve membros do público a partilhar nos corredores no fim do concerto.

Mas de olhos fechados é opção apenas durante alguns momentos. Já de volta ao piano de cauda, “Luzes” é acompanhada pela projeção do fantástico vídeo que o acompanha. As imagens sucedem-se, quase sempre com a presença da figura que aparece nas capas dos álbuns do músico. Uma lua com névoa e salpicada por estrelas, luzes de uma cidade, e um círculo brilhante que aumenta até se transformar num planeta – que, por sua vez, dá lugar a uma imagem circular mutável, preenchida por cidades, água, peixes, linhas, ilustrações de diversos artistas e de diversos estilos – podem ser vistos e apreciados. Nos últimos dezassete segundos, as imagens repetem-se rapidamente na direção contrária, como um ponto ao encontro do início do círculo.

A escuridão no palco mantém-se e Massena continua com “Dias Assim”. O facto de se encontrar sozinho no palco não o intimida de todo; pelo contrário, está confortavelmente no seu meio. As suas mãos percorrem todo o comprimento do piano, os seus dedos tocam em todas e cada tecla, de um jeito que apenas ele sabe fazer.

“Esta canção tem uma importância especial para mim porque marcou o início de uma relação com a Deutsche Grammophon, quando escolheu esta canção para integrar uma compilação de composições neoclássicas. E, portanto, porque abriu as portas à música, abriu as portas para que a minha música se pudesse ouvir noutras partes do mundo. E, sobretudo, foi nesta relação com o III que se mostrou mais forte”.

“Valsa” é colorida por luzes azuis, que se distribuem pelo palco de forma a fazer lembrar um pavão. Fumo branco sai dos focos, dando a ilusão de que se tratam de ondas e que todo o palco está submerso no oceano.

Nadando vêem os músicos pela escuridão, e regressam aos seus lugares iniciais para “Mateus” – tirando o baixista e Massena. Oito luzes verticais cor de laranja encontram-se espalhadas pelo palco, uma novidade neste que já se destaca por ser um espetáculo bastante rico a nível visual.

Deixando os sintetizadores e de volta ao baixo e ao piano de cauda a meio da composição, os sons fundem-se com o adufe, o baixo, as vassouras na bateria e o fantástico trabalho de cordas.

“Muito obrigado. Eu ia dizer alguma coisa a reboque desta canção, a próxima canção. Tanto na ‘Família’ como na ‘Luzes’, a criação dos vídeos, em parceria, neste caso, com o César Pedro – o III tem ligação ao André Tentúgal, que está aqui a filmar, na criação do ‘The Tree’ -, mas sobretudo porque criou as três capas dos três discos, deste III também, além de fazer parte da minha família, de ser minha irmã, é também presente no meu trabalho, e peço-vos, então, uma salva de palmas para a Cristina Massena.”

Parte-se então para “Família”, música com um lado emotivo particularmente carregado. Articulam-se as notas agudas com as graves de piano. O vídeo feito para a música passa na tela, mostrando um turbilhão de linhas coloridas, formas e figuras abstratas. A personagem criada para as capas dos álbuns parece viajar pelo mundo, acima de um mar de nuvens.

“Alento” é iniciada com o palco na penumbra. Vai adquirindo um tom cor de rosa, um gradiente com a fonte de luz em baixo. O arco é batido no violino para criar um som fora do comum, antes de se ouvir uma bela sequência de cordas.

“Muito bem, este III foi construído em maio num ano particularmente exigente, e foi objeto de um grande desafio pessoal e emocional. Mas foi um extraordinário laboratório de conjugação das identidades musicais destes músicos – e também do produtor, o Mário Barreiros – para se conseguir o resultado final, que para mim foi realmente o passo em frente na compreensão de coisas cá dentro e de quem sou, e na junção do universo acústico e dialético ao eletrónico. Claro que estes caminhos não se fazem sozinhos, há aqui equipas invisíveis. Uma delas é a do o guru Tó Cunha, a editora Universal e a agência Uguru. São parceiros muito importantes neste caminho”.

“Queria dizer que hoje temos pela primeira vez um convidado muito especial. Felizmente, a sua agenda internacional estava disponível para hoje. É uma pessoa que tem estado muito presente diariamente e que, tal como as pessoas que hoje aqui estão – família, amigos, pessoas que eu conheço, pessoas que eu não conheço – estão presentes nos momentos principais, neste momento principal. E, portanto, eu diria que esta canção que se segue, em nome desta Band, é dedicada a todos vocês. São, de facto, a minha árvore”.

Com isto, um menino pequeno entra pelo lado esquerdo do palco e senta-se ao lado de Massena no piano de cauda. Se o discurso do maestro já havia emocionado o Coliseu, esta surpresa ainda o emociona mais. Toca sozinho o início de “The Tree”, com um tom verde no fundo e um único foco de luz centrado em si. Pela expressão de orgulho de Rui Massena, supõe-se que seja seu filho. Com um enorme aplauso, o pequeno músico faz uma vénia e sai do palco. Massena pega na canção e continua-a, visivelmente feliz. O talento dos sete músicos é particularmente percetível nesta música.

O público aplaude de pé esta interpretação do single de III. Os músicos agradecem no centro do palco e saem por alguns segundos. Quando regressam, partem para “Resistir”. Visualmente, assiste-se agora a uma evolução de gradiente, do verde para o amarelo, do amarelo para o laranja, e do laranja para cor de tijolo. Massena inicia sozinho, sem pressas, e os músicos olham atentamente, aguardando o seu sinal com os instrumentos preparados. Afinal, maestro é sempre maestro.

São usados quase todos os instrumentos presentes no palco nesta música de seis minutos. A componente eletrónica está mais saliente; mais uma vez, ouvem-se choros na plateia. Os músicos fazem mais uma saída sob uma chuva de aplausos. Nesta noite de sexta, ninguém quer voltar para casa. A chuva lá fora é pouco convidativa, é preferível ficar nesta sala suspensa no tempo e no espaço.

De seguida, Massena anuncia “Tolerância”. O som e a cor fundem-se numa harmonia perfeita. Nas rápidas sucessões de cordas e de percussão, as luzes saltam de forma ritmada; nas sequências mais calmas, a cor suaviza de laranja para rosa. O maestro, por vezes, toca no piano e no sintetizador ao mesmo tempo. No fundo, surge a sombra de uma estrutura metálica, enquanto as mãos do baterista voam por entre diferentes instrumentos. O ritmo que lembra o jazz chega a uma pausa, interrompida pelo carrilhão e por um arranhar no violino – como se o instrumento estivesse em sofrimento. O ritmo sobe outra vez e contagia um público profundamente absorto, perdido no som e no sentimento.

“aBem” surge quase sem dar descanso aos instrumentos, numa sequência de dezasseis minutos interrompida apenas por um curto aplauso. O fundo negro, as luzes brancas em forma de pavão e o ritmo suave da canção permitem a Rui Massena fazer alguns agradecimentos e apresentar a Band. Os músicos vão tocando pequenos solos à medida que são chamados.

“No violoncelo, Raquel Ribeiro. Viola de arco, Rui Moreira. No violino, Pedro Carvalho. Na percussão, João Cunha. Teclados e baixo, Bernardo Fesch. Percussão, Sandro Mota”. “aBem” é tocada até ao fim, descendo o tom da música até terminar num suspiro.

Fotografia: Joana Nogueira
Fotografia: Joana Nogueira

O Coliseu do Porto inteiro levanta-se e aplaude durante o que parece uma eternidade. No entanto, Rui Massena interrompe a ovação para fazer uma experiência. “Esta canção – que é uma canção que se calhar vai entrar em qualquer coisa, ainda não faço ideia – foi estreada na Bélgica há pouco tempo e chama-se ‘Home’. Com h, não com o. Então, preciso que os homens façam o baixo, com o sol”. Com isto, ouvem-se home’s repetidos por toda a sala em tom grave. “Agora afinado”, brinca Massena – que por agora já assumiu o seu tão familiar papel de maestro. “Agora as senhoras”. Os home’s agudos são recebidos com gargalhadas. O “eu sei que o texto não é fácil” do maestro faz soltar ainda mais risos pela sala. “Respirar antes de cantar, okay?”.

O coro geral é acompanhado pelas notas que Massena toca no piano. Este espetáculo é, verdadeiramente, um caleidoscópio de emoções. O maestro faz com a mão um ‘já chega’, dando sinal ao violoncelo para entrar, depois o violino e, finalmente, o coro. A sala enche-se com um novo som, o som de centenas de vozes, graves e agudas, afinadas ou não. Massena pede a subida do volume, conseguindo uma ascensão gradual acapella. O penúltimo home da noite é mantido até os pulmões já não terem oxigénio. Ar não há para falar, mas as mãos têm força para aplaudir. O maestro pede um último home, ainda sob aplausos, enquanto os músicos se reúnem no centro e agradecem.

São 23h20 e pelas colunas é anunciada uma sessão de autógrafos na entrada com Rui Massena. No corredor, ouve-se “muito agradável, muito agradável”, entre diversos outros elogios. Independentemente da escolha de palavras, uma coisa é certa: esta é uma noite que ficará guardada no coração de todos.

Fotografia: Sofia Matos Silva
Fotografia: Sofia Matos Silva