Cultura Opinião

O ESPELHO ENFRENTA O HOMEM EM OTELO

Em cena no Teatro Nacional São João até 20 de janeiro, Otelo mostra o homem, podre e inconstante, e o que o ser humano pode fazer quando tem o ego ferido. Fala ao público e, nesta peça de Shakespeare por Nuno Carinhas, fica bem perto dele. Por Giulia Pedrosa.

Pela segunda temporada no Teatro Nacional São João, Nuno Carinhas trouxe a complexidade Shakespeariana para perto – literalmente, com atores iniciando a peça aos gritos na lateral da plateia que se assustou e riu em seguida ao tê-los sentados nas cadeiras em pleno ato – com pecados capitais no cerne da trama e o público como cúmplice. Assim como o próprio encenador disse, Otelo é um “teatro de excessos”, abordando também outros temas universais como traição, ciúme, vingança e carência.

Com cenário minimalista – mais que suficiente, devida a evidente beleza do teatro – e banda sonora que mais pareciam gotas precisas em cenas de tensão, Otelo surpreendeu.

Minutos antes do início, pôde-se ouvir espectadores comentando: “quem será que ele matará desta vez? Shakespeare sempre mata alguém”. E mesmo se tratando de uma obra clássica, muitos ali não a haviam lido, mas nem por isso ficaram perdidos; apesar da linguagem rebuscada, a peça contextualizou bem os leigos, com tradução e versão cénica de Daniel Jonas, ainda contou com legenda em inglês acima do palco, mesmo que arcaico – típico de Shakespeare.

Racismo, xenofobia e violência doméstica são o que mais ouvimos nos media atualmente, e parece que Shakespeare sabia disso ao escrever essa peça em 1604. Otelo fala da humanidade e como é fácil alcançar extremos. Sentimentos e ações inerentes ao homem são explicitadas no espetáculo com duração de 2h45min (com intervalo), no qual se pôde  ver espectadores intrigados e curiosos debruçados ao manual de leitura que lhes foi entregue no início – que mais se assemelha a um livro, por sua grossura e rico conteúdo, cheio de entrevistas e textos de apoio dos produtores e atores da peça – em busca de algum spoiler ou explicação do que estava por vir no segundo ato. Outros aproveitam o intervalo para tirar fotografias.

O intervalo acaba e as luzes se apagam, novamente trazendo o público ao universo do mouro e seu ciúme estúrdio. As cenas de Dinarte Branco, que interpreta Iago, manipulador e pivô de todos os acontecimentos da trama, são intensas. Cheias de comentários sarcásticos e preconceituosos (infelizmente aceites na época da trama), os olhares do ator são acentuados pela luz direcionada a seu rosto e a entoação transparece o desatino obsessivo do personagem.

António Durães, que interpreta Brabâncio e Graciano, mesmo aparecendo em poucas cenas, deu um show de atuação com expressões faciais genuínas de um pai dececionado com a filha. Nos primeiros minutos da trama já se percebe a densidade de seu personagem. Convenções sociais foram entendidas pela plateia sem alguma palavra, apenas com gestos.

Apesar de ser uma tragédia clássica, rendeu algumas risadas com diálogos sexualizados, danças e cantorias estrambólicas. Embora Maria João Pinho, que interpreta Desdémona, tenha cantado brevemente em uma cena e encantado os presentes.

O figurino misturou o antigo ao contemporâneo com blazer de veludo, shorts de couro e calças em mulheres; estas, que, na peça, sofrem do começo ao fim abusos físicos e psicológicos dos homens, afloram o que poderia ser a semente do feminismo, em diálogos que enfrentam pais, maridos e mostram como hoje ainda mantemos os mesmos comportamentos de há 400 anos, reprimindo, abusando e objetificando as mulheres.

Otelo explicita o homem, podre e inconstante. Mostra o que o ser humano pode fazer ao ter o ego ferido – quão inconstantes e manipuláveis nós somos. Fala ao público durante todo o tempo, desperta identificação, mostra nossa natureza doentia ao simpatizarmos com personagens tão errados e problemáticos. Mostra o honesto virar criminoso, o amor virar ódio e o respeito virar agressão. O ser humano é posto em “preto e branco”, simples, cruelmente exposto e sem floreios, assim como as intimidades dos personagens expostas em cena. O racional flerta com a loucura e o público é cúmplice.

A trama contou com a participação também de Diana Sá como Bianca, Joana Carvalho como Emília, João Cardoso como Otelo, Jorge Mota como o Duque e o Bobo, Paulo Freixinho como Rodrigo, Pedro Almendra como Montano/Ludovico e Pedro Frias como Cássio.

O espetáculo encerrou por volta das 23h45 com chuva de aplausos que rendeu três retornos dos atores ao palco, e que esperaram de mãos dadas o público de pé parar seu reconhecimento. Otelo fica em cartaz até dia 20 de janeiro.