Cultura

REVISTA DÉDALO, UM LABIRINTO DE TRANSGRESSÕES

Práticas em transgressão e construção coletiva protagonizaram a discussão no lançamento da 11ª edição da revista Dédalo. O evento contou ainda com a presença da arquiteta Fran Edgerley, do coletivo inglês ASSEMBLE Studio.

Aconteceu no passado dia 7 na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP). Por volta das 19h00, o Auditório Fernando Távora abria as portas para apresentar a nova edição da revista, mas também para acolher a arquiteta Fran Edgerley, que veio do Reino Unido em representação do ASSEMBLE Studio e mostrou à audiência como ela e alguns colegas se juntaram para praticar arquitetura. Um lançamento seguido de uma conferência que abriu espaço para falar sobre coletivo, intervenção e transgressão.

Construída por e para estudantes, a Dédalo é uma revista da FAUP. Com periodicidade anual, a publicação serve de espaço de discussão e partilha de ideias que pretende extravasar fronteiras e transversalizar a reflexão sobre sujeito, espaço e circunstância. O projeto editorial acolhe a reflexão partilhada e coletiva sobre arquitetura, mas não se encerra nesta. Pedagogia, sociedade, política e arte são apenas algumas das temáticas evadidas pelo conteúdo da revista que, desde 2006, se propõe a mobilizar a comunidade para pensar arquitetura.

Em 2018, uma nova equipa editorial surgiu para propor à comunidade académica o diálogo acerca de “Práticas em transgressão”. Constituída por Diogo Rodrigues, Fernando Pimenta, Joana A. Graça, Leonardo Abreu e Lima, Nuno Lopes Delgado e Ricardo Nolasco, a equipa apresentou enquanto proposta ‘problematizar a liquidez do sujeito’, ‘explorar as circunstâncias de limiar à luz do ato de transgredir’ pretendendo, assim, reunir discursos vários e ‘em particular, aqueles frequentemente ausentes dos palcos públicos e institucionalizados’.

Geradora de discussão, esta edição propões um olhar sobre as narrativas artísticas, sociais e políticas envolvidas na prática da arquitetura, deixando-se conduzir pela noção de limite e da sua transposição. A revista está à venda, com desconto para quem a adquirir na livraria da AEFAUP.

Fran Edgerley +  ASSEMBLE Studio 

Com uma obra situada entre a arquitetura, o design e a arte, o ASSEMBLE Studio é um coletivo inglês fundado em 2010 por um grupo de pessoas com vontade de criar e construir. Chegou à FAUP na voz de Fran Edgerley. A arquiteta conta com um background em comunicação visual, filosofia e psicologia, e falou sobre o coletivo, sobre ser otimista e retirar o melhor de cada experiência.

Com apenas oito anos de existência, o coletivo conta com mais de 50 projetos interventivos feitos, alguns temporários, outros permanentes e alguns em desenvolvimento. Segundo Edgerley, isto constrói-se “taking small steps and being optimistic”. Enquanto explicava cada projeto, falava da importância do envolvimento com a comunidade, das inseguranças no processo e do valor dado ao resultado.

Na fase das perguntas e respostas, alguém questionou sobre o financiamento, isto é, se houve ajudas externas no início, e Fran explicou como o projeto surgiu de uma conversa entre amigos, de um crowdfund online e da procura por um local onde intervir. Não deixando de admitir que “sometimes it fails, it’s an ongoing project”, a arquiteta mostrou que o que é necessário é vontade de fazer, coletiva e otimisticamente. “We were just a group”, disse, evidenciando a proximidade entre agente e processo, coletivo e intervenção.

Após a conferência, o JUP conversou com Fernando Pimenta, membro da Equipa Editorial da Dédalo.

Em primeiro lugar, o que me podes dizer sobre a Dédalo?

A Dédalo é um projeto de importância particular no contexto da FAUP. Acho importante que existam publicações exclusivamente de estudantes e, portanto, acho que é evidente, óbvio e inevitável, e ainda bem que assim é, que esta esteja, de facto, sob o guarda-chuva da Associação de Estudantes. Isto é interessante porque acaba por se tornar das poucas publicações escritas de periodicidade previsível – é anual – cuja voz são os estudantes. Também interessante foi fazer uma chamada à participação aberta para quem quisesse enviar contributos (desde que relacionados com o tema) e os grossos contributos eram, de facto, de estudantes.

Os contributos são exclusivamente de estudantes da FAUP?

Recebemos contributos na chamada aberta de recém-formados também. Mas, em boa verdade, contámos com um contributo, meio inesperado, meio de surpresa, do Szymon, [único contributo internacional para a revista,] esse ainda estudante de arquitetura no Reino Unido que por acaso esteve no Porto há uns tempos.

Não há contributos por parte de professores?

Não. E é interessante que no ano passado também não houve. Não é uma atitude de hostilidade, apenas, por acaso, não aconteceu. Na Dédalo deste ano, escolhemos este tema das práticas em transgressão que, em boa verdade, vem na continuidade do tema do ano passado, Processos de Criatividade – sujeito disciplina circunstância. Portanto, o foco foi tudo aquilo que são os processos inerentes a isto, que é por ventura uma vocação artística ou que é uma prática arquitetónica, os modos de fazer, de pensar, de criar. Era talvez um tema mais declaradamente não exclusivo da arquitetura.

Pegando neste ponto, este ano escolhemos puxar um pouco mais a brasa à sardinha daquilo que é a discussão e o debate em torno duma espécie de medir o pulso do que muitas vezes se chamam novas práticas, novos grupos, novos agentes. Então, convidamos uma série de arquitetos e de ateliers, maioritariamente aqui do Porto – os Fala, os FAHR, os Summary – que de facto são tidos como uma espécie desta nova geração, que traz alguma frescura. Aquilo a que nos propusemos foi colocar em comparação os diferentes discursos. Cada coisa que é produzida contém o seu discurso. É evidente que falando de discursos uma coisa é a ideia que cada um tem de si outra coisa é a ideia que o outro tem do outro outra coisa é aquilo que cada um é.

Sentes que estas práticas em transgressão necessitam de ser discutidas dentro da FAUP?

Penso que sim. Penso que é um debate sempre interessante e volta e meia vai surgindo, mas que é sempre muito ausente, porque o que é que é ser estudante? Ser estudante é no fundo estar refém, não só de poder continuar a estudar, pagar uma propina, porventura conseguir pagar uma renda fora de casa. É uma condição sempre a prazo, uma condição temporária e acho que não é totalmente inconsequente o facto de cada vez menos os estudantes terem a possibilidade de intervenção, de molde e de reivindicação daquilo que são as próprias dinâmicas não só democráticas dentro da faculdade enquanto instituição, mas também do próprio ensino.

Acho que procuramos no fundo levantar a questão sobre como é que conseguimos ser críticos em relação aquilo que nos apresentam no meio profissional, que em boa verdade estamos sempre reféns das relações de poder do arquiteto que nos emprega e nós somos aquele arquiteto que afinal é proletário. Esta crescente proletarização da suposta classe dos arquitetos, mas que no fundo contém as mais diversas classes dentro dessa classe. E como é que se pode procurar que um estudante consiga colocar estas questões quando em todo o seu ensino, aquilo que é a unidade curricular onde se dedica à criação e o pensamento de Projeto, que é no fundo o supra sumo da nossa atividade, são espaços extremamente controlados. Um único professor para a turma. No fundo há uma relação de autoridade relativamente correspondente e são estas subtilezas que no fundo fazem esta continuidade e esta necessidade e urgência também de questionar este tipo de relações entre aquilo que é uma prática produtiva da arquitetura e aquilo que é uma prática pedagógica.

No fundo foi isso que tentámos pôr um bocadinho a cru. Acho que o nosso editorial é relativamente claro, é muito áspero, até um pouco ácido no que toca ao falar sobre a realidade da nossa faculdade. Confesso que enquanto aquilo era escrito se tinha em mente o tipo de discurso que está, por exemplo, na miséria do meio estudantil de 1966. É preciso, enquanto estudantes, não termos medo de pensar criticamente e só colocando as ideias em cima da mesa é que estas podem ser também comparadas, criticadas e refletidas e só assim é que se pode crescer e é assim que é feita a pedagogia. A forma como ordenamos os artigos que temos não é aleatória e é interessante como há coisas que não precisam de ser ditas porque às vezes se calhar lendo aquilo seguido permite um tipo de olhar diferente sobre aquilo que se está a ler.

A revista está ao encargo da AEFAUP?

A revista é um departamento autónomo da Associação de Estudantes. O seu financiamento chega quase totalmente da AE. Qualquer financiamento que tenhamos que não seja da AE é através de patrocínios – este ano não houve – ou então através de apoios, como é o exemplo da própria faculdade enquanto instituição para fazer acontecer esta conferência. Mas, de resto, apenas com o dinheiro que a Associação de Estudantes nos permite ter é possível ter esta publicação. Isto é muito importante porque garante a isenção da própria revista e a sua liberdade. Esperamos que este ano uma nova equipa consiga pegar no projeto e que faça algo totalmente diferente porque a Dédalo é isso. Dédalo é o nome do arquiteto que construiu o labirinto para o Minotauro. Foi o Dédalo que fez as asas de cera para o Ícaro. É interessante esta ideia da Dédalo enquanto arquiteta de labirintos, de baralhar um pouco as coisas.