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JUP RADAR: DIOGO DE OLIVEIRA, DO PORTO À ÓPERA DE PARIS NUM PÉ DE DANÇA

Diogo de Oliveira tem 20 anos e é o primeiro bailarino português na Ópera de Paris.  Começou a dançar aos 11 anos na Escola portuense Domus Dança (EDD) e conta prémios em vários pontos do globo. Em entrevista ao JUP, Diogo revela os maiores desafios da sua profissão e os obstáculos a ultrapassar para chegar a uma carreira profissional de sucesso. Por Alice Carqueja e Marta Tuna.

Diogo de Oliveira deu os primeiros passos do bailado na Escola Domus Dança, dirigida pelos tios, que sugeriram que ele experimentasse a dança numa perspetiva lúdica. Diogo apresentava as características físicas ideais, precisava apenas de ser trabalhado.

Já sobre as características emocionais, Diogo conta ao JUP que “foi algo que foi acontecendo, não houve um momento que eu soubesse que queria mesmo ser bailarino ou um dia que eu tenha chegado a casa e tenha dito aos meus pais: “eu quero ser bailarino!”. Isso nunca aconteceu. Foi um interesse que foi evoluindo em mim, a começar nos estúdios, nos ensaios, e todo o processo, não só técnico, mas artístico de encarar a personagem e ter sempre um objetivo, quer seja espetáculos, apresentações, concursos…”.

Diogo foi bolseiro de inúmeras escolas de sucesso, chegando a receber uma bolsa para a Academia de Ballet Bolshoi. Foi o primeiro português convidado a participar no curso de verão da prestigiada academia russa, e, como tal, “fiquei muito feliz, mas uma oportunidade como esta tem custos elevados e além disso, na altura ainda era muito novo” – revela Diogo.

Para além de inúmeras outras bolsas, Diogo foi premiado em vários dos melhores concursos de dança do mundo como o Prix de Lausanne, na Suíça, e o Youth America Grand Prix (YAGP), onde foi considerado um dos melhores bailarinos do mundo e onde recebeu também um lugar na Escola da Ópera de Paris, para concluir os seus estudos. O bailarino conta ao JUP que “sempre gostei de fazer concursos, porque têm o lado competitivo que eu adoro e que me faz mesmo gostar do que faço, porque sei que nunca vai estar perfeito e vai haver algo que tenho de trabalhar e, ainda hoje, é isso que de me agarra a esta profissão”.

Em 2015 Diogo foi, convidado pela diretora da Escola da Ópera de Paris a ingressar na mesma, sendo o primeiro português na escola e um dos raros a ser convidado pessoalmente. Com apenas 18 anos, Diogo foi viver para Paris, e regressou por decisão própria a Portugal. Em 2018, Diogo regressa à Ópera de Paris, desta vez não como estudante, mas como membro da companhia. É assim o primeiro português bailarino na Ópera de Paris e um dos poucos a conseguir um lugar na mesma, sem pertencer à escola. Antes da Ópera, Diogo integrava a Companhia Júnior do Ballet de Dortmund, onde trabalhou durante um ano.

A gestão de tempo é algo essencial na vida de um bailarino e ainda mais importante na vida de um “aspirante a bailarino”. Diogo aprendeu desde cedo a distribuir o seu tempo entre a escola e a dança, sendo que o seu dia se dividia entre manhãs de aulas e, a partir das 15h00 e até às 22h00, dedicava-se à dança. Os treinos semanais eram divididos em preparação física, técnica clássica, técnica contemporânea e repertório, numa média diária de seis horas de esforço.

Uma carreira como bailarino em Portugal tem muitos entraves, não só devido à falta de apoios: “em Portugal, patrocínios são uma miragem e não realidade”, afirma Alexandre Oliveira, professor de Diogo na Escola Domus Dança à Agência Lusa, há também uma falta de ajuste nos planos curriculares escolares. A carreira artística e, neste caso, do ballet é muito estereotipada.

Acerca de estereótipos, Diogo não conta razões de queixa: “como, infelizmente, não é tão comum um rapaz fazer ballet, foi uma novidade para os meus amigos e colegas de escola e sempre senti da parte deles um entusiasmo, suporte, quando ia a concursos ou mesmo espetáculos ou apresentações que eles pediam para ir ver, para assistir, para lhes mostrar vídeos e tudo mais, nunca liguei muito aos comentários negativos e não construtivos”. A viver fora do país natal há mais de dois anos, o bailarino afirma que “não é necessário sair de Portugal para se seguir uma carreira na dança, mas depende muito dos objectivos de cada um”.

“quero continuar a apostar numa carreira internacional e nunca me conformar com a posição atual, tentar superar-me, aproveitar ao máximo cada momento e, acima de tudo, ser feliz”

A trabalhar na Ópera de Paris, uma das melhores companhias do mundo, Diogo vive o sonho de qualquer aspirante a bailarino, com desafios constantes. “Somos todos diferentes”, diz Diogo, mas identifica um cuidado transversal: “talvez um que nós bailarinos tenhamos em comum seja o desafio diário de saber cuidar do nosso instrumento de trabalho, que é o nosso corpo, e nisso podemos englobar prevenção e tratamento de lesões, saber quando devemos parar, questões alimentares ou de exercício complementar”.

Um outro desafio que Diogo identifica será, talvez, o maior na gestão e crescimento de uma carreira no ballet: “é o de se superarem, tanto tecnicamente como artisticamente. A partir daí é muito pessoal, cada um tem as suas dificuldades e facilidades e isso é o que faz cada um de nós especiais à sua maneira”.

Quando questionado sobre planos para o futuro, Diogo fala em “continuar a apostar numa carreira internacional e nunca me conformar com a posição atual, tentar superar-me, aproveitar ao máximo cada momento e, acima de tudo, ser feliz”.

JUP Radar é a rubrica mensal do Jornal Universitário do Porto, incluída na editoria de Cultura, que explora os artistas emergentes, nas mais diversas áreas, que chegam ao nosso radar. Os artigos saem no último domingo de cada mês.