Cultura

HIP-HOP EM 2018: UMA RETROSPETIVA

O hip-hop é, mais do que nunca, mainstream. Todavia, isso não é propriamente mau sinal. Embora o trap e pop rap reinem as ondas de rádio - o que, inevitavelmente, cobre o género sob um véu de futilidade e repetitividade - há cada vez mais artistas prontos para quebrar o molde e levar o hip-hop para novos caminhos. Por João Norte.

Ninguém pareceu ficar surpreendido quando, a 3 de janeiro deste ano, um relatório da Nielsen Music reportou que, em 2017, R&B/hip-hop se tinha tornado no género musical mais ouvido nos Estados Unidos da América. A cultura urbana tem-se infiltrado cada vez mais na vida pública e na arte, e muitos questionaram se a sua vertente musical iria evoluir e explorar novas sonoridades em 2018. Agora, em dezembro, é possível afirmar que o hip-hop não só consolidou o seu lugar como o género musical mais ouvido e influente como também se demarcou como um espaço de constante inovação e criatividade ilimitada.

Ao longo do ano, o pop rap de Drake, Eminem, Kendrick Lamar, Cardi B, Post Malone e Travis Scott dominou a rádio. No entanto, focar apenas nos sucessos comerciais seria uma injustiça para todos os outros artistas que, embora não conseguissem alcançar o topo das tabelas musicais, exploraram novas sonoridades dentro do hip-hop, fazendo com que todos os subgéneros da cultura florescessem em 2018.

Foi um ano recheado de excelentes projetos, um período de tempo em que vimos a evolução sónica de artistas como Earl Sweatshirt e Denzel Curry, que lançaram os seus projetos mais pessoais até hoje, explorando temas sombrios como doenças mentais e toxicodependência. É de notar que estas questões permearam o debate em torno do hip-hop este ano. Outras obras que este ano abordaram estas temáticas foram KOD (J. Cole), ye (Kanye West), Kids See Ghosts (Kanye West e Kid Cudi), Book of Ryan (Royce da 5’9″) e Swimming de Mac Miller, que acabou por ser o seu último álbum, publicado um mês antes da sua overdose fatal, acabando com a carreira de um dos artistas mais talentosos da New School.

Mencionando os EPs, os dois projetos de Black Thought este ano vieram consolidar o lugar do vocalista dos The Roots no panteão do hip-hop, enquanto Tierra World de Tierra Whack se destacou pela sua singularidade, sendo um projeto audiovisual com 15 faixas em que cada uma tem a duração exata de um minuto. Não nos devemos esquecer de The Alchemist que, continuando com o seu modus operandi, lançou três EPs, um deles Fetti, um projeto colaborativo com Freddie Gibbs e Curren$y, dois rappers que continuaram a provar o seu valor artístico em 2018 com outros projetos a solo. Al também manteve a sua sinergia com os elementos da Griselda Records, uma editora que a cada ano que passa vê a sua base de fãs crescer.

2018 foi um ano bastante produtivo para Kanye West. Produziu todas as faixas de Daytona, Nasir e K.T.S.E., relembrando o mundo que este não perdeu o seu toque único para a produção. Ainda teve tempo para lançar dois álbuns, um deles ye, cujo conteúdo lírico parece contradizer-se em cada faixa, uma reflexão do seu bipolarismo que este mesmo considera ser “o seu superpoder”. Também lançou Kids See Ghosts, o tão aguardado projeto colaborativo com Kid Cudi, cuja fusão de hip-hop com rock psicadélico serve como painel de fundo para uma química surpreendente entre os dois artistas.

É de notar que, além de terem sido bem recebidos pela crítica, West e Cudi submeteram a faixa “Freeee (Ghost Town, Pt. 2)” para consideração para o Grammy de Melhor Música Rock de 2018, demonstrando a versatilidade de Kanye, que, passado 14 anos do seu primeiro álbum, continua a ser uma das mentes mais inovadoras e influentes do panorama musical internacional.

Outro exemplo perfeito de inovação é Veteran, álbum que JPEGMAFIA lançou em janeiro. Um nome relativamente obscuro dentro do panorama internacional, “Peggy” construiu um projeto coeso conciliando na perfeição sonoridades industriais e abrasivas com letras niilistas e confrontativas que ridicularizam personalidades desde Lena Dunham a Donald Trump. Basta olhar para a tracklist do álbum e ler os nomes das faixas para perceber o género de humor obscuro e extremamente acareante que o produtor e rapper de Baltimore usa, sendo o título de uma das músicas “I Cannot Fucking Wait Until Morrissey Dies”.

Não poderia deixar de mencionar os projetos portugueses de hip-hop que mais se destacaram pela sua inovação. Logo no início do ano fomos presenteados com O Último Tango em Mafamude, uma viagem quase exclusivamente instrumental pelas ruas de Vila Nova de Gaia, que guia o leitor desde Canidelo até ao “Monte da Virgem platónico”, cujo destino final é Rio Tinto. David Bruno,  combina Boom Bap com Rock de uma maneira única e, com poucas palavras ao longo do projeto, cria uma história de amor suburbano marcadamente mais cómica que trágica.

É impossível falar de rap português em 2018 sem mencionar o coletivo do ano, Colónia Calúnia. Tendo sido concebido por VULTO. em 2016, foram publicados 4 coleções de instrumentais, dois EPs e um LP sob o nome Colónia Calúnia. Este não deve ser pensado como um grupo convencional em que há uma estrutura rígida de artistas. No lugar disso, existe um número vasto e crescente de artistas que contribuem para um só imaginário, uma nuvem de sonoridades em que os instrumentais distorcidos e carregados de graves trabalham em sinergia com rimas intrincadas e abstratas para criar obras que compelem a audiência a desembrulhar as camadas de lírica críptica e batidas ruidosas que, inevitavelmente, se prendem aos ouvidos.

Assim, Lista de Reprodução é um EP em que VULTO. e L-Ali comprovam que são das melhores duplas da música nacional nos últimos anos, enquanto Metamorfiko e Secta funcionam como um na criação de uma paisagem assombrante e horripilante em [caixa], um LP que promete deixar o seu impacto em qualquer ouvinte. Será expectável que nos próximos anos se fale ainda mais sobre Colónia Calúnia, pois um projeto que alberga mentes tão engenhosas como L-Ali, VULTO. e Tilt é um projeto que nunca desiludirá na sua criatividade e invenção.

Concluindo, o hip-hop é, mais do que nunca, mainstream. Todavia, isso não é propriamente mau sinal. Embora o trap e pop rap reinem as ondas de rádio – o que, inevitavelmente, cobre o género sob um véu de futilidade e repetitividade – há cada vez mais artistas prontos para quebrar o molde e levar o hip-hop para novos caminhos, tanto a nível nacional como no panorama internacional.