Cultura

OUPA! DO BAIRRO PARA O ESTÚDIO, DO ESTÚDIO PARA O PALCO

Depois de três edições centradas em bairros específicos, 2018 foi o ano de consolidação do OUPA! através de um disco, o Cidade Líquida. O JUP esteve à conversa com os coordenadores e artistas que vivem este projeto.

“O OUPA! é um estímulo, uma alavanca”. Para Capicua, orientadora do projeto desde o início, o disco Cidade Líquida consiste no culminar sério e ambicioso das edições passadas.

A iniciativa cultural, social e artística do pelouro da cultura da Câmara Municipal do Porto arrancou em 2015. Depois de três edições no Cerco, Ramalde e Lordelo à procura do melhor que esses bairros tinham para oferecer, a proposta deste ano – reunir os trunfos de cada uma das edições passadas num projeto coeso e focado – foi aceite de mãos abertas.

Mónica Sol, Bonaparte, Garcez, LS, Doc, Drunk Nigga, Joca e Ricardinho são agora a cara – e a voz – dos OUPA! e um exemplo da diversidade e crescimento do hip-hop na cidade.

Entrevista aos OUPA! Vídeo: Raquel Batista

“A proposta nos anos anteriores foi de fazer seis meses de residência artística que culminassem num espetáculo; este ano a proposta foi fazer um processo criativo que culminasse num álbum a sério – aqui o objetivo era o disco”, comentou Capicua. Com a sua ajuda, a de André Tentúgal, de Vasco Mendes e do produtor D-One foi realmente isso que aconteceu. Cidade Líquida, lançado no passado dia 30 de novembro, cruza as identidades dos vários artistas, das suas aptidões e das suas origens em dez temas originais e inéditos.

“Há músicas mais sobre amor; mais sobre festa; outras de rap mais competitivo, outras mais sociais” e para Capicua essa diversidade demarca uma das particularidades mais importantes do projeto: “sempre misturamos pessoas diferentes, com vivências diferentes – uns com mais experiência, outros menos, o que acaba por ser positivo porque existe um certo estímulo e motivação para estar à altura – não ficar para trás. Há competição saudável.”

Mas a variedade e evolução não passam apenas pelo OUPA! e pelos artistas em si. Para o produtor D-One, a cultura e o movimento hip-hop encontram-se em metamorfose desde o momento em que surgiram. “A principal diferença de há dez ou quinze anos atrás é a diversidade, que antes não existia. Agora tens rap indie, rap mais pesado, mais soft ou mais cantado. O hip-hop aliou-se a outros géneros e há público para tudo”, afirmou. O abraço do público em geral ao hip-hop e do enquadramento do rap na cultura popular do século XXI e principalmente desta década é, para o produtor, bastante positivo.

“Há muita gente diferente a fazer rap em Portugal e mesmo no panorama do Porto e isto permite a quem faz música pensar ‘eu posso conseguir porque tenho estes exemplos todos que conseguiram e se chegaram lá, eu também chego’”

Também para Capicua, este crescimento da cultura, tanto a nível nacional, como mundial é positivo. “Antigamente, quem era do hip-hop era mesmo do hip-hop e distinguia-se na rua até pela roupa. Hoje em dia um puto pode ter na playlist kizomba, rap hardcore, metal e a seguir Rihanna e está tudo bem. Este é o tempo do shuffle.”

Apesar disso, a rapper assegura que é igualmente importante não largarmos mão das raízes e das origens do género e de toda a cultura. “Como no punk e no metal, no hip-hop também é importante que existam estas pessoas que asseguram a raíz e ensinam à nova geração como tudo começou”, mas mais fundamental que isso é “misturarmo-nos e termos abertura para que possamos crescer, senão a coisa também não evolui”.

O Plano B vibrou com os OUPA! Foto: Adriana Pinto
O Plano B vibrou com os OUPA! Foto: Adriana Pinto

Quanto a futuras edições do OUPA!, tudo se encontra em aberto, mas para Capicua o crucial é que “o estímulo está dado” e que já foram transmitidas aos artistas as ferramentas que, enquanto coordenadores do projeto, tinham para transmitir. “O método de trabalho; a importância da disciplina; o espírito de sacrifício; sermos exigentes do ponto de vista técnico; de trabalharmos em coletivo; de representarmos o bairro e a cidade de uma forma positiva”. E para ela, o objetivo deste trabalho finda nisso – “ fazer com que o hip-hop continue a acontecer e a passar de geração em geração nesse contágio”.

Apesar de, ao contrário dos anos anteriores, a meta final do projeto não ser o espetáculo – mas sim o disco em si – seguiu-se o concerto de apresentação do mesmo no Plano B.

Foi ao som do DJ set que a sala foi enchendo a partir das nove. Às dez, estava tudo a postos para a exibição do Cidade Líquida pela primeira vez, ao vivo.

Mónica Sol Foto: Adriana Pinto
Mónica Sol Foto: Adriana Pinto

Tocaram-se, cantaram-se e sentiram-se todas as dez músicas do álbum, com direito a repetição do single “Nosso Fado“, que muito fez o público vibrar. Pelos interludes das músicas ficaram feitas as apresentações e os agradecimentos à equipa, ao Plano B e, principalmente, à cidade do Porto.

Desde love songs como “Tempestade num Copo de Whiskey” ao rap mais agressivo de “Oupadose“, ficou naquela sala assente a consistência do projeto – a transversalidade, a diversidade e continuidade do hip-hop, não só na cidade, como também a nível nacional.