Cultura

GUSTAVO CARONA: “É MUITO IMPORTANTE PREMIARMOS A BONDADE”

O JUP conversou com Gustavo Carona, membro dos Médicos Sem Fronteiras, na exibição de Human Flow, na Universidade Católica. O documentário recorda-nos de que não devia haver uma distinção entre nós e os outros e que aquilo que nos separa é muito ténue. Afinal, e citando Carona, “de que serve tudo o que nós temos se perdermos a humanidade?”. Por Francisca Costa.
Gustavo Carona.
Gustavo Carona.

Gustavo Carona, 38 anos. Natural do Porto (nasceu no Canadá, mas sente-se portuense), licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), médico anestesista e intensivista de profissão, humanitário por paixão, e, desde 2009, membro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) – organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por graves crises humanitárias.

Já esteve em várias missões, no Congo, Afeganistão, Paquistão e Síria, ou ainda, mais recentemente, Iraque, na linha da frente. Tem milhares de experiências e ainda mais histórias para contar. No dia 21 de novembro, Carona foi convidado para apresentar o documentário Human Flow, de Ai Weiwei, no campus da Foz da Universidade Católica do Porto.

Durante duas horas e vinte minutos, a audiência que assistia ao documentário de 2017, realizado e co-produzido pelo artista e ativista chinês, seguiu com muita atenção as imagens reais e marcantes do que vivem os refugiados, nos 23 países visitados por Weiwei. Quando, atualmente, se vive o maior fluxo migratório mundial desde a Segunda Grande Guerra, com cerca de 65 milhões de migrantes, Ai Weiwei – que já viveu pessoalmente a experiência – procurou aproximar o público desta realidade.

O objetivo era quebrar a frieza dos números, transformando-os em pessoas, de carne e osso, com vidas e sonhos, por detrás deles. Através de entrevistas a refugiados, oriundos de sítios tão diferentes – como a Síria ou o Quénia -, investigadores e até representantes de Estado, como a Princesa Dana Firas, da Jordânia, Weiwei procura mostrar a verdadeira definição do que é ser um refugiado.

Como nos lembra uma das passagens mais emblemáticas do filme, muito mais do que um estatuto político, ser um refugiado é ser roubado de todos os aspetos que fazem a vida não apenas tolerável, mas valer a pena.

E é isso que sentimos, como um murro no estômago, após ver Human Flow, que nos recorda que não devia haver uma distinção entre “nós” e os “outros”, e que aquilo que nos separa é, afinal, muito ténue. Citando Gustavo Carona, “de que serve tudo o que nós temos se perdermos a humanidade?”. O JUP conversou com o médico antes da exibição.

Como teve conhecimento do Human Flow? Sei que houve um visionamento [deste documentário] organizado pelo Toronto International Film Festival (TIFF), com a participação dos MSF.

Isso é uma excelente pergunta, cuja resposta vai desiludir muitas pessoas, porque eu só tive conhecimento quando me convidaram para participar neste evento, o que diz muito sobre o assunto e a não visibilidade [deste]. Eu também passo muito tempo fora, o que me desculpa de alguma forma – isto não é para me desculpar, porque eu acho que é importante que alguém que está ligado a causas humanitárias desconheça, em Portugal, a existência deste documentário. Explica muita coisa, não é? A nossa inação perante estes temas.

Como uma pessoa que esteve na linha da frente da ajuda humanitária, que emoções lhe suscitou este documentário?

Olha, já não é fácil impressionar-me, mas faço questão de não perder os sentimentos mais genuínos que me motivaram, desde o primeiro dia, a querer fazer alguma coisa por outros seres humanos. É muito forte ver tantas imagens, de uma realidade tão dura, em tantas zonas do planeta, onde isto está a acontecer ao mesmo tempo. Acho que este filme é muito documental, é muito realista e remexe connosco, com o sentimento de impunidade perante os culpados de algumas destas situações que nos entristecem e que nós não podemos pôr fora desse julgamento.

Eu falo com alguma frequência em eventos sobre refugiados e, normalmente, a primeira coisa que digo – que é, provavelmente, a primeira coisa que vou dizer hoje – é que eu não sei muito sobre refugiados, mas sei de onde é que eles vêm e por que é que eles fogem. Conheço bem a guerra da Síria, a guerra do Iraque, a guerra do Afeganistão e outras, e, por isso, acho que as pessoas se esquecem do que é o estatuto de refugiado e por que é que eles estão a arriscar a vida.

Para completar ainda a resposta à tua pergunta, estou em contacto com muitas pessoas dos MSF, pessoas com muita experiência, que já estiveram também na Síria, em Mossul, no Afeganistão, e que me disseram que, realmente, do ponto de vista psicológico, das missões mais duras que já fizeram foi em contexto de refugiados, em alguns destes locais que vemos neste filme.

Com este documentário, vemos uma perspetiva nova e diferente dos refugiados. Das suas experiências, qual acha que é a perspetiva que estas pessoas têm de nós? Têm alguma opinião formada sobre como se vive nos países em paz? Acha que pensam que deveríamos fazer mais?

Como já estive em tantos países diferentes, teria que, de alguma forma, adaptar esta pergunta e esta resposta a cada um deles, porque, às vezes, no coração de África há um desconhecimento profundo de tudo, o que é bom e mau. Em países como o Iraque e a Síria, que talvez tenham sido os dois contextos mais difíceis onde eu já estive, há no ar uma pergunta que é: “Por que é que o mundo se esqueceu de nós?”. E eu acho que isso se sente: “por que é que a comunidade internacional se esqueceu de nós?”, “porque é que ninguém está a parar esta guerra?”. Agora, eu também acho que eles não se despem de culpas muito próprias.

Os conflitos têm sempre responsabilidades também locais. Não sei se eles não partilharão todas as reflexões que têm connosco, mas de uma forma geral, nunca sinto desdenho, revolta, ódio, sentimentos negativos para connosco. Mas acho que sim, que há um sentimento de “por que é que se esqueceram de nós?”.

Se me permite fazer o paralelismo, no seu livro “O Mundo Precisa de Saber”, encerra um texto intitulado “O Oposto” com a seguinte frase: “de que serve tudo o que nós temos se perdermos a humanidade?”. O que acha que ganhamos ao ver um documentário desta dimensão humana e o que perdemos ao “fechar os olhos”?

Acho que todos nós construímos a nossa vida, o nosso património de valores e o nosso conjunto de opções em dicotomias: mais ou menos, bem ou mal, certo ou errado, prémio ou punição. Acho que é importante que nós percamos tempo para saber o que é realmente importante para nós e o que queremos: um apartamento de luxo, o último BMW, ou viver em paz e numa felicidade mais duradoura, preocupados com o próximo, construir coisas mais em cooperação e não tanto em competição? Fazermos um zoom out das nossas vidas, questionarmo-nos sobre o que é que estamos a fazer, que tipo de pessoas é que nós queremos ser. Gosto muito de fazer um exercício. Nós, em cada decisão que tomarmos, principalmente nas mais importantes ou difíceis, se pensarmos: “se eu estivesse a escrever o livro da minha vida, o que é que eu gostaria que lá estivesse escrito?”.

Volto para trás e: será assim tão importante ter o telemóvel de última geração ou gostava de escrever que ajudei alguém que estava ao meu lado, que dei de comer a alguém que tinha fome, que pus miúdos na escola e que fui relevante numa série de ações que fizeram outras pessoas felizes? E sim, eu repito essa frase com alguma frequência, porque é uma forma de eu também não me esquecer.

E é uma frase muito bonita. Ainda relacionado com este tema, o que acha que a cultura, neste caso, livros ou documentários, pode fazer para sensibilizar acerca da questão?

Acho que é uma ótima pergunta. A reflexão imediata que me vem à cabeça é que nós, geralmente, procuramos assuntos que nos são queridos. O que eu quero dizer com isto é: se eu gosto muito de carros, vou ver documentários de carros; se eu estou preocupado com a humanidade, vou ver documentários humanistas. Por isso, nós, normalmente, só limamos características, que, de alguma forma, já temos. O difícil é, quem não está minimamente dentro do assunto, ser puxado para o lado de cá, digamos assim. Eu acho que é importantíssimo que eles existam, são extremamente informativos. A partir de certo momento, mesmo pessoas que não sejam muito sensíveis ao tema, podem ter vergonha de não conhecer certo documentário, certo livro, certa história, e eu acho que isso é que é muito importante, nós premiarmos a bondade.

Eu insisto muito neste ponto, porque falamos muitas vezes na orientação de valores pela impunidade, do “porque é que a pessoa x, y ou z não está presa e o mau exemplo que isso dá à sociedade”, mas penso que o contrário – a falta de prémio – também é verdade, ou seja, é importante nós mostrarmos que são esses documentários que enchem auditórios. São estes que trazem gente nova, velha, de todas as idades, e que quantos mais formos atrás disto, mais seremos a vê-los e mostraremos aos políticos, aos media, a quem toma as decisões importantes, que achamos que é este o caminho. Por isso, acho importantíssimo que este tipo de ações exista, porque estamos a pôr nas luzes da ribalta os temas que consideramos mais importantes.