Cultura

SOMALI YACHT CLUB + STONED JESUS: HOUVE DE TUDO NO HALLOWEEN DE LESTE

Na noite de 31 de outubro viveu-se, um pouco por todo o país, uma das tradições norte-americanas mais enraizadas na cultura portuguesa. Na Sala 2 do Hard Club, a experiência proporcionada era também de influências norte-americanas, mas foi o stoner rock das duas bandas da Ucrânia que chamou o público ao antigo mercado Ferreira Borges. Por Francisco Cardoso.

A noite de Halloween no Porto foi como uma fria noite de Sonic Blast. A Garboyl Lives – promotora do festival de stoner rock das quentes tardes de agosto em Moledo – reservou a data para organizar dois concertos, um com um dos principais nomes em ascensão dentro do género e outro com velhos conhecidos dos palcos portugueses.

Se a Noite das Bruxas é cada vez mais festejada em Portugal, outro movimento cultural norte-americano foi festejado ontem, na Sala 2 do Hard Club. Este não veio dos subúrbios brancos das cidades americanas, mas sim do deserto do Mojave. Cheia de riffs pesados e lentos, vozes cavernosas, breaks constantes e um baixo de tremer os ossos, é assim a música nascida nos anos 90 na Califórnia que chegou um pouco a todo o mundo. Ontem, duas bandas ucranianas trouxeram-na à Invicta.

O relógio já passava das 22h00 quando subiu ao palco o primeiro trio da noite. Os Somali Yacht Club – banda formada em 2010 que conta com dois álbuns e um EP na sua discografia – entraram descontraídos, trocando palavras com uma plateia já bem composta. Mas quando soaram os primeiros power chords, fez-se silêncio na sala.

Tocando temas do seu mais recente álbum, The Sea, bem como do seu trabalho de 2014, The Sun, os Somali Yacht Club proporcionaram um concerto eletrizante e arrasador. Conjugando o aclamado stoner com influências psicadélicas e de post metal, a banda de Lviv surpreendeu os membros da plateia que apenas estavam ali pelo concerto pelos Stoned Jesus.

O momento alto da noite viria ainda com a banda de abertura em palco, mas com a ajuda do frontman do grupo seguinte. Prometida uma surpresa desde o início do concerto, ela surgiu no final, com o “Igor dos Stoned Jesus”, como é conhecido pelo público português, a agarrar o microfone para cantar “Testify”, dos Rage Against the Machine. Foi um momento inesperado, principalmente pelo salto musical que os membros das bandas fizeram, mas o público, apesar de surpreendido, não se revelou tímido, e cantou com Igor os trechos mais icónicos da música, sem nunca manter os pés parados no chão.

Depois do momento alto, vinha o concerto mais esperado; a presença dos Stoned Jesus em Portugal já é regular, mas a boa disposição e presença em palco da banda de Kiev são sempre bem apreciadas pelo público. Com novo álbum na bagageira, Pilgrims – lançado em setembro deste ano –, havia um motivo forte para os rever e matar as saudades.

Com uma setlist focada no novo trabalho, houve pouco espaço para os temas mais conhecidos do trio. No entanto, dificilmente os novos temas fazem jus a clássicos como “Black Woods”, “I’m the Mountain” ou “Here Come the Robots”. As músicas de Pilgrims são dotadas de uma nova sonoridade, tendo mais staccatos e riffs menos “poderosos”, e houve um geral sentimento de dúvida relativamente às mesmas. A disposição e alegria transmitida pela banda mantêm-se, mas a qualidade musical parece ter regredido.

É verdade que o estilo musical da banda não permite dar grandes asas à imaginação, mas o grupo, com toda a razão, não se confina ao seu safe space. No entanto, a sonoridade deste novo trabalho parece ter ficado bastante aquém do esperado. O público, no geral, não se mostrou particularmente desagradado, mas facilmente se distinguiram os três temas mais antigos das novas músicas na disposição da plateia.

No rescaldo, fica a sensação que os Somali Yacht Club deram o melhor concerto, mas, apesar da fraco atuação dos Stoned Jesus, há também muito mérito para o trabalho dos compatriotas. A nota final fica para o romper de uma infeliz tradição que Igor tinha por costume cumprir em Portugal: partir uma corda da guitarra a meio da música. Afinal nem tudo precisa de correr menos bem.