Cultura

MUNDO SEGUNDO NÃO TEM MEDO DE DIZER O QUE LHE VAI NA ALMA

Um colosso do hip hop nacional, um mestre de "ritmo e poesia". Pouco antes da sua subida ao palco do Indie Music Fest, estivemos com Mundo Segundo - para conhecer o homem por detrás do rapper.

Mundo Segundo é uma das mais antigas figuras do hip hop em Portugal. Nascido em 1981, é (orgulhosamente) de Vila Nova de Gaia. O seu nome de nascimento é pouco conhecido – Edmundo Silva – mas a sua entidade de MC fala por si. “Mundo” era um nome que a mãe lhe chamava, “Segundo” o piso onde era o seu estúdio. Coisas simples, mas que criaram um alter ego incontornável no mundo dos ritmos e das batidas.

Com mais de duas décadas de carreira, é MC, produtor e ex b-boy. Em nome próprio tem publicados seis discos – Sempre Grato é o mais recente. É conhecido por estar permanentemente envolvido em diversos projetos (dentro e fora da dimensão musical), e as letras assinadas com MS espalham-se pelo espectro.

Os Dealema são um dos mais antigos coletivos de hip hop do país. Fundados na década de 90, resultaram da fusão entre dois grupos. Ao lado de Mundo estão Maze, DJ Guze, Fuse e Expeão. As músicas conjuntas misturam-se e complementam-se com as individuais – como é natural. Não há Mundo Segundo sem Dealema, assim como não há Dealema sem Mundo Segundo.

Uma história de vida com ainda muito para dar, mas já cheia de peripécias e inúmeras conquistas. Tudo isto faz de Mundo um músico grandemente bem-sucedido. No camarim nos bastidores do Palco Indie Music Fest, estivemos à conversa com o MC.

 

É um “dinossauro” do hip hop nacional – tal como é apresentado pelo festival. Como é lidar com essa posição, essa importância que lhe atribuem?

Sinceramente, não sinto muito o peso dessa responsabilidade. Sempre fiz isto de uma forma espontânea e genuína, e acho que isso foi uma coisa que veio com os anos. Fico muito contente por as pessoas me darem esse feedback, de se identificarem ou de ter sido uma referência para muitos jovens de hoje em dia. Isso, para mim, como é óbvio, é um privilégio e uma honra. Abraço isso de bom grado – mas eu sinto-me um eterno aluno. Estou sempre a aprender; sou um dinossauro, mas sou um dinossauro pequenino ainda. Até morrer, vou sempre aprender coisas novas, e essa é a minha forma de estar.

Como vê a explosão do mundo do hip hop em Portugal e a emergência de tantos novos talentos – sendo, até, conhecido por ser um grande embaixador do género?

Fico muito contente. É uma felicidade enorme, depois destes anos todos, ver surgirem grupos em todos os cantos do país, com diferentes linguagens, com diferentes texturas sonoras. Para nós, que fazemos e praticamos a arte há muitos anos, sempre foi a nossa ambição inspirar outros jovens a fazerem o mesmo. E, hoje em dia, com muito mais público, com os festivais a abrirem as portas aos grupos de hip hop – temos grupos em quase todos os festivais – eu acho que é uma grande conquista. Só tenho isso a ver com bons olhos, agradecer e continuar a dar – sempre com o mesmo ímpeto do início.

Sempre existiram divergências na realidade do hip hop. Existem as músicas que são autênticas obras de arte e existem aquelas mais fáceis, mais comerciais, sem grande conteúdo ou sentimento. Receia que o público, em geral, comece a confundi-los e a “pôr tudo no mesmo saco”?

Isso já acontece há muitos anos. Cá, se calhar, não tanto, porque o hip hop ainda estava a desenvolver-se em Portugal, mas isso já acontece há muitos anos nos Estados Unidos, na França, na Alemanha, nas maiores potências do hip hop. Sempre houve o chamado rap mais fácil, com menos palavras, ou com coisas mais fáceis, mais acessíveis, mais pop – a gente chama-lhe o hip pop, que é uma coisa diferente. Sempre existiu. No fundo, o que é importante é continuar a haver este contrabalanço, de perceberes ‘isto é uma coisa mais densa, mais composta, mais difícil de fazer’, e ‘isto é uma coisa mais fácil, se calhar, direcionada a outra faixa etária, mais nova’. Acho que vai haver sempre – porque isso existe em todos os estilos musicais. Há quem faça um rock mais profundo, e há quem faça um rock mais fácil, mais “pop chiclete”, e o hip hop não foge à regra. Não vejo isso como uma coisa má, vejo-o como o universo a contrabalançar as coisas.

O que diria a jovens que tencionem ou já se estejam a iniciar no mundo do hip hop?

O importante – se tu sentes necessidade de te expressares, de escrever poesia, de partilhar algo com o resto do mundo – é, essencialmente, seres genuíno, não seguires uma tendência e seres tu próprio. Essa chave, em tudo, é a chave do sucesso – e a de seres bem-sucedido contigo mesmo. É tu seguires a tua própria pessoa, o teu próprio caráter, as tuas ideias, e não ires atrás de algo, só porque está in ou na moda. Isto de querer fazer hip hop tem um bocado que se lhe diga; escrever e partilhar coisas do íntimo da tua pessoa é algo que é, de certa forma, corajoso. Se calhar, ao ver com esta distância, depois destes anos todos, percebo que há muitas coisas que, às vezes, partilhamos que exigem uma certa coragem para o podermos partilhar. Porque há muitas pessoas que te podem criticar, mas não têm a coragem de partilhar o que tu partilhaste. Mas o principal ponto a apontar é seres genuíno, seres tu e não teres medo de dizer o que te vai na alma – e seguires o teu rumo, por muito que seja diferente do dos outros.

Sente dificuldade em conciliar todos os projetos em que está envolvido?

Não, de certa forma, não. É mais complicado, se calhar, pelos concertos, mas dá-me muito gozo estar a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Já faço isso desde que comecei a fazer rap e continuarei a fazê-lo porque gosto de me manter ocupado – sempre a explorar novas coisas e a partilhar com mais pessoas. Vejo isso mais como uma vantagem, e não como uma coisa que me vem complicar.

O que prevê para o futuro do hip hop – dentro e fora do país?

Prevejo boas coisas. Estamos a crescer, há muito talento, há muitos palcos para explorar, há muitos quilómetros para fazer, há muito mercado de língua portuguesa para descobrir. Ainda há muito para desbravar nesse campo. Acho que é por aí. É continuar a alimentar esta juventude que está sedenta por hip hop, mas também é sairmos daqui e irmos às comunidades de língua portuguesa lá fora. Para irmos e para colhermos um pouco da inspiração de lá, para voltar para cá e produzir.

O que espera da atuação aqui no Indie?

Da nossa parte, prometemos sempre dar o máximo. Até cair para o lado – isso é sempre o que a gente promete do espetáculo. O ambiente é incrível, este bosque fala por si – já percebi, quando passei ali no meio, que as pessoas estão todas numa boa onda – e prevê-se um espetáculo do outro mundo.

 

O espetáculo foi, de facto, do outro mundo. Em paralelo aos concertos, Mundo Segundo está a produzir um disco com Sam the Kid. O trabalho pode ser esperado para breve.