CAETANO REÚNE OS FILHOS PARA OFERTÓRIO NO COLISEU – Jornal Universitário do Porto
Cultura

CAETANO REÚNE OS FILHOS PARA OFERTÓRIO NO COLISEU

Caetano Veloso reuniu os filhos para uma série de concertos que replicam o seu mais recente lançamento. "Ofertório" visitou na segunda-feira o Porto antes da digressão europeia terminar em Lisboa.

“Filho de peixe sabe nadar”, resumiu Edite Riba Tâmega à saída do Coliseu do Porto, numa rua Passos Manuel ainda mais movimentada do que quando, há duas horas, entrou para ver Caetano, Moreno, Tom e Zeca Veloso.

Edite e um Coliseu cheio ouviram “Ofertório”, palavra que dá o nome ao ciclo inédito de concerto com pai e filhos que arrancou em junho e que deu origem a um álbum gravado ao vivo, no concerto em São Paulo.

“Ofertório” é também o nome de uma canção que Caetano escreveu para a cerimónia dos 90 anos da mãe. E esta história é uma entre muitas por detrás de cada canção, contadas neste concerto que quase mais parece uma reunião familiar, tão informal quanto uma tarde de domingo na casa Veloso.

Há uma história em “Todo Homem”: Caetano escreveu-a quando Zeca nasceu e este canta-a agora, estreando a sua voz de cunho Veloso, mas com falsetes ímpares. “Um Canto de Afoxé Para o Bloco do Ilê”: Moreno escreveu-a quando tinha apenas 9 anos, e o pai compôs a música.

O público vai conhecendo estes contextos por Caetano, entre afinações de guitarra ou trocas dos filhos pelas cadeiras com piano, guitarras, tamborim e pratos.
Mas há uma que é Moreno quem conta desta vez, antes de interpretar um clássico do pai:

“Pensam que a gente sabe tocar as músicas de meu pai? A gente sabe não. Avô Zequinha era telegrafista; perguntem se meu pai sabe o código morse. Mas se o avô tivesse pedido ele aprendia, porque não tem nada melhor que fazer nosso pai feliz.”

O filho mais velho arranca com “Leãozinho” enquanto o público aplaude e Caetano se mostra orgulhoso.

Entre clássicos do músico baiano, escolhidos pelos filhos, há canções – já elas também clássicos – do filho mais velho Moreno, bem como as novidades das vozes de Tom e Zeca. As canções são, no fundo, de todos – “coisas que cresceram em nós, de nós”, como descreveu Caetano a falar da digressão – e são interpretadas por todos. As luzes que rodeiam cada Veloso vão-nos mostrando ou ocultando, à medida que um irmão se junta ao pai ou se limita a acompanhar a melodia com cordas ou batidas.

O público não resiste a acompanhar os ritmos tropicais com batidas de pé ou balanços de ombro e, a dada altura, nem os músicos: Tom e Zeca – o único carioca entre os baianos – abandonam as cadeiras para uns passos de samba entre o pai e o irmão e a plateia, e, quando chega a vez de Moreno, na contagiante “How Beautiful Could a Being Be”, junta-se o pai, para delícia do público, que acompanha os passos com palmas.

Depois de contar, tocar, cantar e dançar, a família Veloso abandona o palco apenas para regressar, e volta a repetir a rotina para mais uma canção, o que deixa adivinhar que custou tanto para Caetano, Moreno, Zeca e Tom abandonar o palco como para o público que foi para casa com samba no pé.