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JUP RADAR: CLARA NÃO, “EU TENHO DE FALAR”

Clara Não tem várias ocupações, mas é pelo seu trabalho como ilustradora que se tem vindo a destacar. Em conversa com o JUP, a artista falou sobre as suas criações e a sua vida. Por Carolina Lisboa e Sofia Silva.

Clara Silva tem 24 anos e nasceu em Cedofeita, na Ordem do Carmo. Estudou na Escola Secundária Manuel Laranjeira, em Espinho, e fez a Licenciatura de Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Atualmente, continua na FBAUP, a concluir o Mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão.

Clara Silva, provavelmente, não lembra nada em específico. Mas não é por esse nome que o público a conhece. Clara Não é o seu nome artístico, a sua criação, o seu alter ego. As suas ilustrações e textos estão espalhados por muros e pelas ruas da cidade do Porto. Clara Não é ilustradora, designer, escritora, artista de rua e DJ.

Enquanto estava a fazer a licenciatura, Clara fez Erasmus em Roterdão. Especializou-se em ilustração e escrita criativa, na Willem de Kooning Academy, “porque era o que me estava a interessar mais”, e foi aí que percebeu que “podia ser parva com lógica e piada”. “Eu era a mais nova de lá, então eu fazia o que me apetecia porque sabia que não ia ser julgada.” Quando regressou para Portugal, sentia que estava diferente, começou a sentir-se “mais à vontade com a escrita”. Quando se licenciou, trabalhou um ano em Design, “porque achava que ser ilustradora era um part-time. Fui muito infeliz durante esse ano, despedi-me muitas vezes.” Então, decidiu ingressar no Mestrado. Em paralelo, trabalha como freelancer.

A sua relação com a escrita foi evoluindo. “Todos os adolescentes têm problemas. Eu sentia coisas, mas não sabia dizer o que era. Sabia que estava a sentir sentimentos, mas não sabia identificar o que aquilo era em específico”. Como “tinha muito medo de mostrar às pessoas o que era”, passou a escrever as palavras que não conseguia dizer. Primeiro em diários e cadernos, depois pelas ruas: “se é para me libertar do que sinto, mais vale passar do oito ao oitenta”.

Fotografia: Sofia Silva
Fotografia: Sofia Silva

Quando começaste a sentir que a ilustração era algo ao qual poderias dedicar a tua vida, tirar do quarto e passar para o mundo exterior?

Quando saí da faculdade. Nessa altura, estava num relacionamento, que depois me magoou. Então, comecei a escrever naqueles caderninhos que vocês veem e comecei a desenhar coisas, porque sabia que não era culpa dele, nem era minha. Eram outras coisas de fora. E eu tinha de arranjar forma de conseguir libertar-me daquilo. Então comecei a ilustrar coisas, a ofendê-lo imenso (na verdade não tinha grande razão para isso), só para deitar cá para fora. E pronto, a última página sou eu a dizer ‘pronto, estás desculpado, está tudo bem’.

Isto foi no final do ano. A 14 de fevereiro lancei um zine com alguns desses desenhos e correu bem. Foi a partir daí que comecei a fazer mais dessas coisas e a pensar ‘ah, se calhar…’.

Em que consistem os teus trabalhos, tanto a nível profissional como em relação ao que partilhas?

A nível profissional e o Instagram vai dar ao mesmo. O que me acontecia, quando eu trabalhava em design, era que as pessoas pediam a minha criatividade para fazer a ideia deles. Eu que trocasse a minha maneira de fazer as coisas para conseguir concretizar a maneira que eles viam as coisas e como queriam feitas. O que agora me acontece é que, mesmo a nível profissional, de trabalho de freelance sério, as pessoas vêm-me pedir para eu dar a minha visão própria sobre um assunto. Não me impõem uma estética, porque já me procuram pela estética que tenho. Portanto, é perfeito. E consigo fazer coisas sérias, mas sem deixar de ser eu, então não me sinto infeliz.

Mas, normalmente, as coisas que se veem mais por aí são totalmente biográficas. A maior parte são autobiográficas, algumas são de coisas que ouço por aí, ou amigos que me contam, ou notícias de jornal. Por exemplo, muitas vezes vou às compras e preciso de umas calças e ‘ah, estas calças ficam mesmo bem’. Só que depois vou a ver o bolso, ‘é falso’ e fico muito chateada com esse tipo de coisas. Às vezes também falo sozinha… No outro dia, tinha-me chateado com não sei o quê, e estava a sair do carro e era assim, ‘ele acha que eu não percebo um caralho, mas eu percebo, dois, três, quatro’. Fiquei ‘hummm’ e escrevi. Por isso, é mesmo assim, expõe-me um bocadinho, porque é a minha vida que está ali. Mas também já deixei de ter medo.

O que te motivou e motiva para fazeres o que fazes – e a maneira como fazes atualmente?

Isso está relacionado com o que eu disse sobre sentir as coisas e escrevê-las logo. Eu faço isso de propósito, para fazer com que as ilustrações sejam honestas. É a diferença entre eu estar a falar contigo ou estar a mandar-te mensagens. Quando mando uma mensagem, tenho um tempo para pensar e posso mudar o meu pensamento. Não dá para voltar atrás, mas consegui pensar bem naquilo. Enquanto que quando falo, acabou. Eu tento escrever como falo, como penso, de imediato. E às vezes acontece-me que publico e depois começo ‘olha, se calhar, devia ter dito isto de maneira diferente’, mas já está. Uma parte do meu trabalho – que as pessoas não conhecem muito – é a relacionada com eu me interessar muito pela parte da escrita. Eu fiz uma pesquisa sobre o ato de escrever, então também existe uma parte do projeto que sou eu a ensinar a minha mão esquerda a escrever. Tento conciliar essas duas coisas, embora muitas vezes não se veja. Por exemplo, o Manifesto, que escrevi há uns tempos, é feito com a mão esquerda. Só mesmo para picar ali, só mais um bocadinho, a normalização das coisas.

Além da gratificação pessoal, o que procuras atingir com os teus trabalhos?

As pessoas. Não atingir ‘pum pum’ (alguns bem que mereciam), mas é fazer com que as pessoas saibam que não estão sozinhas. Porque, às vezes, são coisas que toda a gente pensa, mas ninguém diz. É aquela sensação de ‘ah, era isto, obrigada’; é isso que eu procuro. Porque também já senti isso eu própria e, lá está, é uma sensação gratificante, saber que não estás sozinha. Não importa que não conheças as pessoas, importa que saibas que não és a única pessoa que sente aquilo, que não és totó. Por exemplo, aquela cena de sonhar acordado, as pessoas não falam muito disso; sabes quando tens uma situação complicada e depois vais para casa e começas a pensar ‘eu devia ter feito isto e aquilo e aquilo’, e depois começas a ver quais eram as possibilidades e as opções. As pessoas não falam muito desse tipo de coisas, mas toda a gente faz isso. As minhas ilustrações são mais para as outras pessoas, mas, num segundo aspeto, também são uma espécie de terapia, uma maneira de deitar cá para fora, porque eu sei que não sou só eu.

Como foi o teu processo de desenvolvimento até agora, a nível criativo? Como foste chegando aos teus desenhos – que têm uma identidade tão específica?

Eu, no princípio, não gostava de desenhar caras. Agora, só desenho caras. Eu, no princípio, era muito mais conceptual, do género ‘este círculo significa não sei quê’. Só que as necessidades mudaram; precisava de mostrar outras coisas e outras formas. Houve uma primeira fase em que usava muito coisas mais complexas, muitos tecidos, muito costurado; depois comecei a simplificar, comecei a dar mais valor à mensagem do que ao desenho. Agora o que ando a fazer é um compromisso entre as duas coisas: os desenhos são simples em termos de material, mas o bordado torna-os em algo mais complexo e que demora o seu tempo. É a cena de trabalhar a questão do tempo: é fazer rápido uma coisa, porque essa diferença de tempo faz com que seja honesta, mas, por outro lado, numa outra atmosfera, é gastar muito tempo a fazer uma coisa, para estares ali a pensar naquilo e a resolver aquele conflito; enquanto bordo, resolvo o conflito que está naquele bordado. Foi isso, foi mais uma questão de, conforme fui mudando a mensagem que queria passar, tive que começar a mudar também o aspeto gráfico. Claro que também tem a ver com influências externas, coisas que fui vendo e fui pensando ‘isto aqui é capaz de funcionar melhor para passar a mensagem, vou experimentar’.

Sobre os tópicos que os teus trabalhos abordam, como chegas aos assuntos: planeias ou aparecem-te?

Aparecem-me. Eu não planeio nada. Há alturas em que faço dez desenhos todos seguidos, há alturas em que não faço nenhum, então uso os dez desenhos todos seguidos que fiz da última vez. Por exemplo, hoje fiz uns cinco, todos seguidinhos… quando estou chateadinha com alguma coisa é assim. Ultimamente, abordo muito o tema do feminismo e da igualdade de género – e não só da questão da igualdade de género, mas da questão do preconceito. Por exemplo, a questão dos bolsos é mais preconceito, porque as mulheres têm que manter a silhueta e não sei quê. Mas isso, historicamente, tem muito mais coisas por trás, questões económicas e questões socias. Tenho abordado mais assuntos e, também, coisas que as pessoas dizem, do género, ‘ai não sejas coninhas’ – isso é mesmo preconceituoso, porque ser conas é bom – e aquela cena do ‘tens que ter tomates’, ‘homem tem que ser homem’ – mulher também tem que ser mulher.

Há algum dos teus trabalhos que tenhas sentido que se destacou mais ou que teve mais impacto no público?

Depende. Quando foi o Manifesto, era suposto ser uma coisa pessoal e no dia a seguir acordei com telefonemas, haters na internet, pessoas a mandar mensagens. Já sei que também não podemos medir as coisas por likes, mas eu senti que esse teve um impacto muito grande, quando eu não queria isso. Não que eu me tenha importado, porque faz parte – se eu ponho uma coisa fora, é porque quero que as pessoas vejam – mas nunca pensei que fosse assim tão forte. Quando eu digo ‘caralho’ tem muitos likes, mas não é de propósito. Uma coisa que deu muito que falar foi a cena do tampão, ‘mal posso esperar por enfiar um pedaço de algodão por mim acima’. De repente, tive montes de raparigas a explicarem-me como funciona o organic cup.

Sentes que há pessoas que têm opiniões fortes contra o que partilhas?

Há, há. Tenho um poema na avenida (da FBAUP) e houve alguém que fez uma seta enorme e diz ‘cala-te vaca’; por isso eu tenho a certeza que há haters. Também já tive pessoas a mandarem-me mensagens a dizer ‘eu não te admito que tenhas feito isto sobre mim’. Depois, também há pessoas que ficam chateadinhas com coisas que eu digo, mais ligadas ao feminismo. Quando foi aquilo dos bolsos, houve alguém que me disse ‘mas se não gostam de bolsos pequenos, não comprem calças com bolsos pequenos’, e eu ‘pois, tá bem amiga, como se houvesse mais opções’. É curioso que, depois, até me pediram para fazer uma crónica sobre os cometários e as respostas aos comentários, e eu não fiz. Mas pronto, quando se toca em assuntos desse calibre, há sempre pessoas a mandar vir. Se eu falo de coisas polémicas, claro que vai dar polémica. Mas eu tenho de falar. Mesmo na esfera familiar, na quebra das gerações, há sempre coisas que vão chocar.

Relativamente à forma como partilhas os teus trabalhos, que benefícios e inconvenientes vês no Instagram? Qual é a tua opinião em relação às redes sociais?

É bom e mau. Lá está, as redes sociais servem para as pessoas te conhecerem. A parte má, ou boa, é que depois também conheces outras pessoas, e há pessoas que não queres conhecer. O que acontece é que, assim como as pessoas têm mais acesso ao que dizes, também têm mais acesso a mandarem vir contigo. E estão no direito delas… Não estão no direito delas de serem estúpidas, mas estão no direito delas de mandarem uns bitaites. Se não fosse o Instagram, eu não tinha a exposição que tenho. Há pessoas que eu sei que me ligam diretamente de lá para me proporem trabalhos. Também é uma maneira de eu mostrar ao mundo ‘hey, eu estou aqui, eu faço isto, então e vocês, o que é que fazem?’. É mau porque nem sempre as pessoas que têm muita fama ganham muito dinheiro. E a fama, às vezes, nem é pelo trabalho, é por uma questão de aparência. E muitas vezes o Instagram é um bocadinho um alter ego.

Mas, no meu caso, eu acho que, as caralhadas que eu digo no Instagram, eu digo a qualquer hora. A minha mãe diz que eu sou uma desbocada, mas eu sou verdadeira, por isso não tenho que ter medo. Ah, é verdade, por causa disso das aparências: embora eu trabalhe como freelancer em ilustração – por causa de estar a estudar ao mesmo tempo, eu tenho que arranjar dinheiro nalgum sítio, né. No Instagram pode não parecer, mas eu também sou DJ à parte. Está ligado à ilustração, porque aquilo começou com a faculdade; eu e a Carolina começamos, na brincadeira, a passar música na AE [Associação de Estudantes]. Depois precisávamos de fazer um cartaz e de um nome. Eu, na altura, já estava a fazer os cartazes; escolhemos o nome e isso acabou por ser uma base de subsistência fixe, que me permite viver sozinha e me divertir nas festas. E acabo por fazer sempre os cartazes, para sentir que a ilustração ainda está lá, e é giro, organizamos o evento todo. Mas eu também partilho isso no Instagram sem problema.

Em relação à remuneração dos artistas, sentes que é um desafio?

É. Agora está melhor. Há muitas galerias que são criadas já com esse propósito. Por exemplo, eu trabalhei para uma empresa, a Bairro dos Livros, já várias vezes, e eles preocupam-se muito com isso, com serem corretos, porque também já passaram por isso. E, hoje em dia, as galerias também estão muito melhores com essa situação. O que acontece muito, e que é comum aos ilustradores, é, de vez em quando, recebermos uns emails muito esquisitos, ‘gostamos muito do teu trabalho e queremos expô-lo aqui, aqui e aqui, mas tens que nos dar não sei quanto dinheiro’, que é por causa dos seguros e das despesas administrativas, e é sempre balúrdios, é uma estupidez. Há pessoas que, por causa dos seguidores, perguntam ‘não queres ser sponsor da nossa brand’, mas nem a peça da brand eles dão. É um bocado chato. Mas ya, uma pessoa safa-se. As pessoas andam mais recetivas à arte e à ilustração.

Com a evolução da tecnologia, como vês a ilustração a mudar no futuro?

A diferença entre desenho e ilustração é muito polémica, mas a ilustração normalmente ilustra qualquer coisa, e com o passar dos anos a ilustração tem conseguido ser independente. Tu consegues comprar uma ilustração que não está associada a algo externo, não foi pedida por um cliente, mas sim autoproposta. Só por isso, já dá mais liberdade. E as pessoas estão recetivas a comprar a ilustração por si só, e não comprar os jornais porque tem a notícia e depois a notícia tem uma ilustração. Abrange muitas mais coisas. As pessoas já não põem só pinturas nas casas, põem prints, põem desenhos, põem ilustrações.

Algum projeto para o futuro de que queiras falar?

O meu trabalho de Mestrado. Eu fiz voluntariado no Hospital de S. João com as crianças e contei-lhes histórias que escrevi, e elas ilustraram todas juntas na parede, em papeis enormes, de 1 metro por 3. Já acabei o livro e agora vou esperançosamente lançá-lo, para reverter para o Hospital. Como se viu nas notícias, aquilo está uma desgraça, e se vires de dentro aquilo não tem grandes condições. O pessoal que lá trabalha é espetacular e fazem atividades boas para as crianças. Mas se tivessem mais, não lhes caía nada. Só que, lá está, aquilo funciona com base nos voluntários, e para seres voluntário tens que ter aptidões, fazer imensos testes, e mesmo para fazer lá os projetos tem que se responder a imensos anexos e burocracias e reuniões. O que quero mostrar é que é possível, é só querer mesmo. Isso vai ser lançado este ano, é o projeto mais próximo.

Depois tenho exposições: uma em outubro e uma em janeiro. Também quero lançar um livro com os desenhos todos que fiz nos tais cadernos que falei – nunca tiveram vida, ficaram sempre fechados. Os primeiros são em inglês. O que eu escrevo é em português, porque penso em português, mas, naqueles livrinhos, eu estava a pensar em inglês, e então vou lança-los em inglês. Calha bem, porque, se fossem em português, eu nunca iria traduzir e, assim, sei que estou a ser honesta, porque foram pensados em inglês e posso chegar a outro público.

 

Em jeito de brincadeira e com o seu tom carateristicamente irónico, Clara apercebe-se “agora é a minha oportunidade de dizer coisas ao mundo”. Assim, lança um chorrilho de frases e expressões típicas de… bem, de Clara Não:

“Às vezes esqueço-me de fazer xixi” | “Assoo sempre o nariz com a mão esquerda, com a direita é esquisito” | “Estou a começar a ficar com abdominais, o que é fixe” | “Tenho uma perna mais curta do que a outra meio centímetro” | “Se tiverem dúvidas se querem franjas ou não, façam, mas é possível que se arrependam meio ano depois e demoram muito tempo a crescer” | “Serralves é fixe, mesmo sendo longe” | “Faculdade é fixe, Belas Artes é fixe, pena chover lá dentro. Atenção, UP; atenção Sr. Reitor.” | “Quem faz design e não experimenta nada de artes plásticas é totó” | “Cerâmica é fixe” | “Deem nomes às vossas plantas, elas gostam, festinhas também ajudam” | “Há música específica para plantas, para cães e gatos também” | “Se tiverem buracos nas paredes tapem com ilustrações” | “Comprem livros, mais vale um livro do que uma peça de roupa” | “Apoiem os artistas “.

Este artigo é da autoria de Carolina Lisboa e Sofia Silva.

JUP Radar é a rubrica mensal do Jornal Universitário do Porto, incluída na editoria de Cultura, que explora os artistas emergentes, nas mais diversas áreas, que chegam ao nosso radar. Os artigos saem no último domingo de cada mês.