Crónica Cultura

CRÓNICA CINEMATOGRÁFICA: A GOLPADA DO MARKETING

O Romanceiro do último quartel do século passado está repleto de histórias mirabolantes. Relatos de decadência, de pequenos mafiosos que sobem a pulso, de trapaceiros que atingem o topo e, inevitavelmente, o fundo. Nestas últimas categorias encontramos os protagonistas de “American Hustle”.

Não imagino sequer se foi este o grande vencedor dos Óscares 2014 (escrevo antes da cerimónia) ou apenas mais um dos candidatos que tinha buzz muito à custa da máquina publicitária que detinha. Muito se escreveu sobre o caráter “Scorseseano” da obra. Teria sido mais seguro assumi-lo deliberadamente como uma hommage. Prefiro, porém, fixar-me na história em si e em O’Russell que, depois de “The Fighter”, pensa ter descoberto a fórmula para garantir nomeações ou ganhar prémios.

Este é um filme onde as prestações (competentes, mas não impagáveis) do elenco não conseguem fazer esquecer uma realização previsível e carregada de déjà vu. Incluir De Niro não é sinónimo de Ter De Niro num filme.

É um rodízio de vigarices e jogos de enganos, perpetrados por vilões onde acabamos por apoiar o único que tem um bom coração (irónico no mínimo, tendo em conta os problemas cardíacos da personagem de Bale). O’Russell vai conduzindo este filme como se estivesse num circuito. Vemos a meta a aproximar-se facilmente e o realizador leva-nos pela mão até essa meta tentando, inutilmente, causar alguma vertigem.

Em suma, mais um filme que tenta criar a crença de que o futuro do cinema passa pelo passado do mundo. E Hollywood, cada vez mais vergada ao poder e encanto do cinema independente, atribui nomeações a todos aqueles que respirem, ainda que de longe, da matriz indie (olhemos para as nomeações recentes). “American Hustle” parece que basta colocar o Bradley Cooper com permanente, mascarar Bale, vesti-los com calças boca-de-sino e colarinhos enormes para ter um blockbuster.

É moda ser retro.