Cultura

30 ANOS DA TUNA FEMININA DO ORFEÃO UNIVERSITÁRIO DO PORTO: UM MARCO NA TRADIÇÃO ACADÉMICA PORTUGUESA

Foi no passado dia 21 que a primeira tuna feminina do País celebrou as suas bodas de prata. De malmequer no cabelo, boa disposição e repletas de espirito académico, a TunaF organizou o seu primeiro festival, o BemMeQuer'18 e encheram o Conservatório de Música do Porto para provar, mais uma vez, que a Tuna não é só para meninos. Por Carolina Lisboa.

Com um desafio que data o ano de 1988, surge a Tuna feminina do Orfeão do Porto, e com esta um novo pilar da tradição Universitária Portuguesa: o das tunas femininas.

Foi a 1 de maio do mesmo ano que no Sarau Cultural da Queima das Fitas do Porto, como resultado de um gesto de flerte por parte dos rapazes da centenária Tuna Universitária do Porto às namoradas, que as meninas sobem ao palco pela primeira vez, afirmando até hoje a sua presença e participação no mundo tunante.

Trinta anos depois da sua fundação, o JUP falou com a Diana Vasconcelos, atual Magister da TunaF, que no meio de toda a agitação, nervosismo e últimos afazeres característicos do ambiente de backstage, nos contou um pouco sobre o festival BemMeQuer’18, sobre a parceria da TunaF com a Corações com Coroa e sobre as maiores diferenças entre as várias gerações tunantes.

O culminar de três décadas de tradição

Com a celebração de um marco tão importante na história académica e com tudo o que esta significa, são grandes as expectativas que a TunaF carrega nos ombros para organizar um espetáculo que esteja à altura do acontecimento.

Quais as expectativas ao preparar o festival? “Quisemos preparar uma noite com muitas surpresas, um festival com uma qualidade artística incrível como é de esperar com a participação de algumas das melhores Tunas Femininas do país, com reencontros entre várias gerações e repleta de animação e espírito académico.”

Para abrir o espetáculo contaram com a presença da TUP, a tuna mais antiga de Portugal, que encheu o palco com o seu eclético reportório, dedicando canções como “Timor” e “Madalena” à tuna aniversariante, que no final da atuação foi presenteada com simbólicas lembranças para celebrar as três décadas de parceria sempre disfarçada com um tanto da tradicional rivalidade académica.

Começando com incontestáveis atuações por parte das quatro tunas em competição, a Gatuna, a Legislatuna, a TFIST e a TFUP, que contaram com a participação da plateia que acompanhou o ritmo da música com palmas e bateres de pé enquanto trauteavam aqui e ali as melodias que são para tantos de nós familiares. Passando por participações das tunas afilhadas TFFLUP e Javardémica e contando ainda com os Jograis da OUP, cuja cómica presença em palco manteve o público a rir com historias de amores e desamores, músicas originais e até uma adaptação de um dos hits mais populares do músico Seu Jorge representado com um toque especial que não poupou no jogo de palavras.

Um presente especial

Apesar de muita brincadeira, animação e celebração, os valores de solidariedade, companheirismo, igualdade social e inclusão que perduram na tuna marcaram a noite. Em colaboração com a Corações com Coroa, uma instituição sem fins lucrativos, a TunaF dedicou uma música original acompanhada de um videoclipe, com intuito de passar uma mensagem de responsabilidade social. E, não ficando por aqui, como forma de celebração, a tuna aniversariante doou uma percentagem da receita dos bilhetes do BemMeQuer’18 para a instituição, gesto este que mereceu uma mensagem da presidente, a apresentadora Catarina Furtado, que se mostrou sentida pelo ato altruísta.

Mas como surgiu esta parceria?

“Visto que também somos uma associação sem fins lucrativos, a Corações com Coroa interessou-nos imenso por primarem em divulgar uma cultura de solidariedade e igualdade de oportunidades e direitos para pessoas em risco ou numa situação de vulnerabilidade ou pobreza”.

Qual a contribuição da TunaF para a Corações com Coroa? “Fizemos uma música para a associação, que agora integra no nosso reportório. Para além disso, um euro dos nossos bilhetes reverte para a Corações Com Coroa, organizamos várias atividades como convívios, jantares e ainda uma Maratuna que consiste numa corrida amigável para angariar fundos. Mas posso dizer que não vamos ficar por aqui!”

No meu tempo é que era

A Tuna desempenha um papel principal na representação do espírito académico e caracteriza-se pela forma como está enraizada na Cultura Tradicional Portuguesa, desde o reportório musical até ao traje académico. Quão importante é para os elementos da TunaF passar esta tradição para as gerações futuras que vão representar o nosso país?

“Nada descorando os estudos como é obvio, acho que estar numa tuna ou em qualquer outro grupo académico é muito importante para os estudantes! Quer para a constituição da pessoa em si quer na preparação para o mundo de trabalho porque treina uma pessoa a trabalhar em equipa, a conviver, a saber dialogar da melhor forma mas também a enfrentar imensos desafios e a ultrapassar imensas barreiras, e por isso acho que de certa forma pertencer a uma Tuna nos ajuda a preparar para a vida”.

Mas com a idade vêm as mudanças. Portugal mudou muito ao longo dos últimos trinta anos, e como tal mudaram também a cultura e os costumes dos portugueses. De que forma é que a tuna mudou desde a sua constituição no ano de 1988 até os dias de hoje?

“Acho que mudou muito a postura e a confiança das mulheres a cantar e a afirmarem-se em palco e também no facto de puderem participar no mundo tunante.” E o que se mantém? “Mantém-se um espirito incontornável de garra, determinação e de um amor incrível por aquilo que fazemos. Todas nós o fazemos com muito amor e dedicação e foi exatamente com esse amor e essa dedicação que as nossas fundadoras criaram e ajudaram a criar aquilo que agora existe, a Tuna Feminina do Orfeão.”

Este artigo é da autoria de Carolina Lisboa.