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JUP RADAR: DA PINTURA À ANIMAÇÃO DE JOANA NOGUEIRA

O JUP esteve à conversa com Joana Nogueira. A artista emergente do mês de março é uma das realizadoras da curta-metragem "Pronto, era assim". Por Ana Luísa Sousa e Carolina Nogueira.

Na rua de Santo Isidro, quase a chegar à rua de Santos Pousada, situa-se o atelier de Joana Nogueira. O espaço é cheio de luz, adornado de prateleiras com pequenas esculturas em cerâmica. O atelier que partilha com outros artistas chama-se BRAMICA e o espaço de Joana é no andar de baixo.

A sua primeira paixão foi a pintura. Começou em pequena, influenciada pela mãe, que também pintava. Tirou o curso de artes plásticas na ESAD das Caldas da Rainha. “Em casa comecei a desenvolver personagens e foi depois do curso de artes plásticas que comecei com a escultura”, conta-nos.

Assume-se como uma criadora de monstros que não obedecem à regra. São figuras coloridas, fugindo de paletas monocromáticas, que invés de inspirarem o medo, transportam-nos para um universo feliz – “Não decidi nada, eles surgiram. A pintura já era com muita cor e eles acabaram por surgir.”.

Apesar de dominar a escultura, pintura e ilustração, foi no mestrado em Ilustração e Animação, no IPCA de Barcelos, que descobriu uma nova vocação. Foi aqui que percebeu que poderia conciliar o melhor dos dois mundos: a escultura e a animação. “Fui para o mestrado mais pela ilustração, nem foi pela animação”, confessa.

As primeiras personagens que esculpiu foram em pasta de papel. Ao perceber que, apesar de serem estáticas, estas esculturas tinham personalidade, surgiu a vontade de “as pôr em movimento e de perceber de como elas poderiam funcionar.”.

Primeiras personagens de Joana Nogueira | Fotografia de Carolina Nogueira
Primeiras personagens de Joana Nogueira | Fotografia de Carolina Nogueira

Para além da loja online, Joana partilha um ponto de venda com colegas de mestrado “que funciona mais como montra, com ilustração e escultura”, no Centro Comercial de Cedofeita.

Ponto de venda no Centro Comercial de Cedofeita | Fotografia de Carolina Nogueira
Ponto de venda no Centro Comercial de Cedofeita | Fotografia de Carolina Nogueira

“Estou mais ligada à animação e acho que me descobri aí”.

Revela ao JUP que o maior desafio da sua carreira até ao momento foi a animação, uma vez que “envolve muita coisa: ilustração, escultura, escrita, multimédia.”.

Como projeto de mestrado, Joana juntou-se a Patrícia Rodrigues na realização de uma curta-metragem animada, de nome “Pronto, era assim”. Este documentário animado em stop motion dá a conhecer a história de seis idosos do centro de dia do Bonfim que, sob a forma de entrevista, dão vida a objetos: uma balança, uma caixa de música, uma cafeteira, uma jarra e um microfone.

A história desenrola-se num sótão, que é palco de relatos sobre as diferentes fases das vidas das personagens: crescimento, casamento, namoro, trabalho e emigração.

Foi esta a rampa de lançamento que lhe valeu mais visibilidade. “Tinha sempre de vender mil coisas enquanto fazia o meu trabalho pessoal porque não é propriamente sustentável. O filme deu mais exposição e mais espaço para poder trabalhar e para me poder dedicar ao que mais gosto de fazer.”.

O filme está neste momento em exposição em Vila do Conde no festival ANIMAR, acompanhado dos filmes portugueses Água Mole, de Alexandra Ramires e Laura Gonçalves, Surpresa, de Paulo Patrício e A Praia, de Pedro Neves.

Revela que um segundo filme está já projetado e a caminho.

“A arte em Portugal é valorizada num nicho.”

A artista considera que a arte não é levada a todos, isto porque o público dos festivais de cinema é composto por pessoas do meio, sendo que o público generalizado continua a optar pelo cinema comercial. Hoje em dia, “os adultos veem a animação como algo para crianças, que envolve bonecos”.

Destaca que o meio envolvente do cinema comercial e o cinema de autor têm de encontrar uma forma de coexistir. “As coisas têm de estar ligadas, não podemos criar barreiras entre uma coisa e outra”.

Joana explica ao JUP que começam a surgir novas iniciativas, nomeadamente workshops de animação, e que isso acaba por contribuir para que esta arte encontre o seu caminho até ao público em geral.

A par com a divulgação do filme nos mais variados festivais de cinema do país e internacionais, vieram também mais propostas para explorar a vertente de ensino, área em que já era versada. “Faço workshops de escultura, animação, ilustração, mas mais animação neste momento com as escolas. Até àquela altura não trabalhava com animação. A partir do filme, aumentaram os convites para mostrar o processo do filme, a construção das personagens e começamos em Abrantes a fazer filmes com crianças durante uma semana inteira.”.

A maioria destas iniciativas parte das escolas e tem como público-alvo as crianças que as frequentam. Os workshops consistem em desenvolver animações stop-motion e, por isso, costumam exigir a disponibilidade para trabalhar no filme durante uma semana. Assim se explica que os adultos não sejam público assíduo deste tipo de atividades.

Contudo, trabalhar com crianças é desafiante: “é preciso fazê-los perceber que é algo que demora muito tempo. No início é mais difícil, mas quando veem 5 frames e identificam movimento têm vontade de continuar.”.

“Foca naquilo que queres e investe nisso”

A artista deu alguns conselhos direcionados para quem se está a formar e pretende entrar no meio.

Persistência e foco são as palavras de ordem. “Ser persistente porque é algo que exige muito trabalho todos os dias. É necessário focar num caminho. Até fazer animação e chegar a escultura, experimentei muita coisa e não sabia muito bem para onde ia. A partir do momento em que encontras algo que gostas de fazer é explorar e investir nisso a sério.”. Confidencia: “quase não é trabalho porque estás a fazer algo que gostas”.

Destaca que o maior desafio da área é conseguir sustentabilidade: “Nem todos podem investir a sério. É preciso estar a fazer mil coisas para financiar aquilo que gostas. Acaba por ficar para segundo plano. Tens de te sustentar ao mesmo tempo.”.

Dá como exemplo a sua experiência pessoal: “Quando comecei a fazer o filme estava num call center ao mesmo tempo, quase full time. As coisas demoram muito tempo a acontecer e às vezes não tens esse tempo de espera e vais ter de ir investindo noutras coisas. O que tu gostas torna-se quase um hobby.”.

 

Este artigo é da autoria de Ana Luísa Sousa e Carolina Nogueira.

JUP Radar é a rubrica mensal do Jornal Universitário do Porto, incluída na editoria de Cultura, que explora os artistas emergentes, nas mais diversas áreas, que chegam ao nosso radar. Os artigos saem no último domingo de cada mês.