Cultura

“ACTORES”: EXPLORAÇÃO DAS FRAGILIDADES

“Actores” chegou ao Teatro Nacional São João na quarta-feira. O JUP foi assistir à peça encenada por Marco Martins que explora as experiências biográficas do elenco.

Na fachada do Teatro Nacional São João, situado na praça da Batalha, é visível o cartaz da peça desta noite: “Actores”. Várias pessoas vão entrando no imponente edifício, detalhadamente adornado.

Ouve-se o som que indica a abertura das portas da sala de espetáculos. O público, num misto de timidez e entusiasmo, pede ajuda aos assistentes para encontrar o seu lugar numa sala preenchida por cadeirões vermelhos e com paredes e teto adornados. Do palco já surgem estímulos sensoriais: imagens a passar num ecrã e luzes brancas e frias captam a atenção. Neste ergue-se o que parece ser uma sala de audições com paredes brancas, composta por cadeiras pretas e microfones dispersos pelo palco e uma cabine com uma câmara de filmar e um microfone. Na parede estão afixados papéis, organizados em colunas, de longe lê-se “I”, “II”, “III”, “IV”, “V”, “VI” e “VII”, seguido do conteúdo de cada cena.

Às 21h em ponto, o som inicial volta a ouvir-se: a peça vai começar. A intensidade das luzes diminui e os diferentes elementos do elenco, constituído por Miguel Guilherme, Bruno Nogueira, Nuno Lopes, Carolina Amaral e Rita Cabaço entram em cena. Trazem uma folha de papel com o seu nome, idade e altura escritos a marcador e iniciam um diálogo com o encenador, Marco Martins, que assume este papel. O público assiste ao processo de audição dos atores: as indicações do encenador, a interpretação do texto e a relação entre o que o ator sente que deve fazer e o que o encenador quer que seja feito. Todos saem insatisfeitos e desiludidos da audição.

Durante as três horas que se seguem o clima é caracterizado por tensão e incerteza. O público não sabe muito bem como reagir face aos diferentes testemunhos dos atores e às realidades que lhe são apresentadas. Esta peça assenta nas memórias dos diferentes elementos do elenco que interpretam a sua perspetiva face a personagens anteriores e simulam essas situações, dando a conhecer o que molda cada elemento da peça. É uma dramatização da sua experiência, dos seus medos e das suas inseguranças. A única a atuar sobre as memórias de outros é Carolina Amaral, que encarna a pele de Luísa Cruz. A prestação de cada ator vai sendo comentada por Marco Martins, que pede por repetições, mais intensidade de determinada emoção ou dá sugestões.

A repetição exaustiva é um dos temas explorados na peça. As personagens entram numa espécie de transe de repetições de falas, acompanhadas pelos elementos cénicos que traduzem tensão e violência, como as luzes e o som. Também simulam as diferentes repetições de diálogos até atingir o ponto em que o encenador da peça sente que a mensagem e a emoção transmitidas são suficientes. Tornam-se quase como marionetas, a quem são dadas indicações para realizarem exatamente o que é pedido.

A realidade do ator português relaciona-se com a necessidade de ter mais do que um emprego ou aceitar mais do que um papel. A exaustão é um ponto muito forte desta peça. Rita Cabaço, ao narrar que durante um período de tempo esteve envolvida em três projetos diferentes ao mesmo tempo, acaba por encarnar seis personagens distintas em simultâneo. Estas cenas caracterizam-se pela tensão e desconforto, assim como a forma como o ator é explorado, questionando os limites da condição humana.

De uma forma harmoniosa e crua, surgem as cenas em que são exploradas as fragilidades e os traumas dos atores, a partir da sua experiência biográfica. São apresentados os momentos em que sentiram humilhados, substituídos ou frustrados. Desde a fase da vida de Bruno Nogueira em que andava com um cordeiro de plástico com rodas pelo El Corte Inglés a contar histórias a crianças, os primeiros empregos de Nuno Lopes, até ao sentimento de revolta e frustração de Luísa Cruz por não ter tido a oportunidade de ir ao palco cantar e substituir Isabelle Huppert. O público é envolvido num ambiente de tragédia e drama. Apenas em algumas intervenções de Bruno Nogueira aproveita para rir e alivar a tensão da cena.

Fotografia de Estelle Valente
Fotografia de Estelle Valente

As diferentes fases da vida dos atores são exploradas no palco. É dado destaque a determinados momentos de dor, perda e mágoa, sempre acompanhados de uma legenda que situa o público no tempo: um ecrã na parte superior do palco vai dando indicações relativas ao detentor da memória representada, assim como da sua data e local.

Surge a palavra “Intervalo” no ecrã, mas Rita Cabaço não sai de cena. As portas do teatro abrem-se e a luz indica que é o momento de intervalo, mas a atriz continua em palco. O público fica confuso, não consegue compreender se aqueles movimentos de dança e expressão significam que a peça continua ou que é, de facto, intervalo. Os mais corajosos levantam-se e dirigem-se para a saída. O momento de exaustão e desgaste físico vivido pela atriz prolonga-se por 10 minutos. Apesar das luzes e do movimento do público, a sala está em silêncio, intrigada com o que vê e ouve.

De repente, ouve-se o toque do teatro a anunciar o fecho das portas para a continuação da peça. A intensidade das luzes volta a baixar e o foco regressa ao palco. Rita Cabaço continua a dançar exaustivamente. Ouve-se Marco Martins: “Está quase, Rita, só mais um bocadinho.”. Não há resposta do interlocutor. Pergunta “O que estás a sentir neste momento?” mas a atriz continua a dançar compenetrada. A palavra “Intervalo” permanece exibida no ecrã. Nuno Lopes e Miguel Guilherme surgem na cabine com o microfone e, alternadamente, leem textos publicitários enquanto a atriz dança ao som de uma música com um ritmo cada vez mais intenso. A cena prolonga-se mais uns minutos até que Marco Martins intervém – “O que estás a sentir agora? Estás cansada?”. A atriz acena que sim. “Podes parar e voltar ao teu sítio.”.

Segue-se a exploração do tema da morte e de sonhos dos atores. Vão contando os pesadelos que tiveram e que os marcaram, encenando-os com as restantes personagens. A peça termina com o pesadelo de Miguel Guilherme. Conta que um dia sonhou ter sugerido aos restantes elementos do elenco que faria mais sentido e traria mais emoção ao fim da peça se matassem todo o público. No fim desse massacre, reunida toda a equipa com o sentimento de “dever cumprido”, um dos seus companheiros diz-lhe “Esqueci-me de te avisar, mas toda a tua família estava na plateia.”. Dito isto, o ator reúne cinco tripés de microfones, os quais atribui a cada um dos seus companheiros. Olham todos em silêncio para a plateia, ao som de uma música tensa. A fila da frente começa a tossir, nervosamente. Numa combinação de luzes, vídeo e som, os atores simulam o sonho de Miguel Guilherme, em câmara lenta. E assim, num clima de tensão e violência, termina a peça.

Imediatamente, todo o público se levanta e bate palmas, assobiando. O momento de agradecimento dura uns largos minutos e as expressões de deslumbramento são visíveis, tanto no elenco como na plateia.

“Actores” caracteriza-se por um ambiente pessoal, de confiança e intimidade, num misto de tensão, violência e dureza. O facto de se basear em vivências biográficas permite estabelecer uma relação de proximidade com o público. Saímos dali a conhecer a realidade e o interior de cada personagem.