Cultura

CAVE 45: OS ÚLTIMOS CARTUCHOS NÃO SÃO PÓLVORA SECA

Esta sexta-feira, a Cave 45 deu vida ao primeiro volume de “Uns brincam, outros fazem barulho”, mais um evento incorporado na reta final deste espaço que marcou os últimos três anos do rock e metal no Porto. Redigido por Francisco Cardoso.

Apesar da Cave ter os dias contados, a música não para. A promotora Noise Dealer prometeu uma noite pesada, com cinco bandas a subir a palco e a mostrar que o nome dado ao evento não seria apenas um trocadilho ou uma piada.

As hostilidades foram abertas pouco depois das 22h com o concerto dos Shâh-Mât. A esta hora ainda pouca gente ia descendo ao piso de baixo do número 45 da Rua das Oliveiras, mas a banda de Barcelos não se importou com o público tímido, nem com alguns problemas de som, e demonstraram o death metal com toda a serenidade desejada.

A banda, composta por cinco elementos, tinha na vocalista o seu tom mais suave e melódico, que contrastava com os riffs agressivos e secos. O grupo fez um bom aquecimento para o que estava para vir.

De seguida subiu a palco o trio Back Alley Lobotomy para abrir o que seria a norma do resto da noite, o grindcore rápido, seco e sem escrúpulos. As pessoas foram aparecendo em maior número com o desenrolar do concerto e a banda portuense ripostou soando cada vez melhor até ao final. Mostraram-se destemidos, com os grunhidos caraterísticos do estilo musical, sempre acompanhados por uma feroz bateria.

As músicas, embora curtas, poucos intervalos tinham entre elas e não impediram que o público iniciasse os primeiros moshes da noite. A própria banda introduziu-se dizendo que tocam “isto”, descrição suficiente para quem assistiu ao concerto. Revelaram ainda que no próximo ano vão lançar um novo álbum.

A noite prosseguiu e os próximos a mostrar que não vinham brincar foram os britânicos CxBxFxIxHxFxLxFxRxE. O nome pode ser confuso, mas é bastante coerente para o que a banda apresentou. Entraram em palco usando uma balaclava ao estilo de carrasco, com uma corda a menos no baixo, tocaram um grind/noise veloz e algo que se pode definir como “pouco melódico”. Nesta altura a sala já estava bem composta, mas o público desistiu um pouco da ideia da dupla composta por um baixo e uma bateria e aos poucos foram abandonado o concerto.

O grindcore mais “tradicional” voltou a entrar em palco na forma dos vimaraneses Gorgásmico Pornoblastoma, um trio que foi afetado ao início por problemas técnicos, mas que rapidamente recompôs a energia da Cave e “obrigou” o público a ceder aos moshes e crowdsurf. Energéticos e comunicativos, a banda de Guimarães apresentou uma setlist extensa mas com músicas curtas, aproveitando ainda para ceder aos uns pedidos irónicos do público.

O guitarrista mostrou as suas habilidades ao tocar umas músicas mais corriqueiras, de bandas como Metallica e Deep Purple. No geral, não vacilaram e deram ao público o que este pediu, música rápida e agressiva, encerrando o grind daquela noite e abrindo alas para o concerto final.

Já seriam perto das 2h da manhã quando a última banda se apresentou, os Mr. Mojo, um quarteto que se afastava musicalmente das bandas anteriores, mas com o mesmo espírito, tocando um stoner rock a puxar para o punk.

Inicialmente, o público também se intimidou perante a mudança de género, mas a qualidade dos bracarenses puxou toda a gente para o que seria o concerto da noite.

A banda trazia na bagagem um ano repleto de concertos, desde paragens pelo Festival WoodRock e pelo SonicBlast Moledo, a concertos nesse mesmo palco. Começaram pelo seu único trabalho de estúdio, o EP homónimo e apresentaram ainda uma música nova. O concerto foi energético, duro e seco, e a forma ideal de terminar uma noite pesada. O público sentiu o mesmo, não deixando a banda sair de palco sem tocar mais duas músicas.

Terminou assim mais uma noite de concertos na Cave 45, sem olhares desiludidos porque quem lá vai sabe ao que vai, e que vai gostar. A casa que nos últimos anos albergou os mais variados estilos de rock e metal tem os dias contados, estando o seu fecho marcado para o final do ano, mas mostrou que mesmo estando a dar os últimos cartuchos, estes não são de pólvora seca.

 

Este artigo é da autoria de Francisco Cardoso.