Cultura

ARRAIAL D’ENGENHARIA 2017: A VIDA É UM ARRAIAL

Foi esta semana que o Pavilhão Rosa Mota acolheu, nas noites de 31 de outubro a 3 de novembro, o Arraial d’Engenharia, a maior festa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

A noite inaugural do Arraial promovido pela Associação de Estudantes da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (AEFEUP) foi também a mais assustadora do ano. Muitos estudantes elegeram os Jardins do Palácio de Cristal como casa assombrada, visto que os bilhetes para esta noite esgotaram. António Pedro Mota, membro da AEFEUP, afirma que “devido ao marketing que foi feito para promover o Arraial, era uma esperança nossa esgotar, tanto hoje como nos outros dias”.

O recinto estava ainda vazio quando Tape se apoderou do palco, para a primeira atuação da noite. “Vou mudar completamente o estilo de música; vou passar algo mais agressivo, eletrónico, para continuar a puxar pelo pessoal”, disse ao JUP, referindo-se à sua segunda presença em palco, já depois de todas as outras atuações. A chegada dos The Fucking Bastards ficou marcada pelo êxito de Michael Jackson, Thriller, que chamou quem entretanto entrava no recinto para perto do palco. A tripla de DJs adaptou a música ao público, pois, como referiram ao JUP, “nós tocamos para as pessoas, tocamos o que elas querem ouvir”. Depois de fazerem o público vibrar com êxitos de discoteca, pediram para se apagarem as luzes, enquanto se ouvia a Fix You, dos Coldplay. O público cantou em uníssono, com mais telemóveis que isqueiros no ar. A música evoluiu para um drop energético e o público voltou a saltar e a dançar.

“Não venho por alguém em especial, vim só mesmo aproveitar a noite de Halloween”, disse, ao JUP, Cristiana Cardoso, aluna de Turismo no ISPGaya. “Eu vim mesmo por Club Banditz”, retorquiu Ricardo Santos, aluno de Engenharia Informática na FEUP. A este ponto, o recinto estava lotado. A passagem de testemunho dos The Fucking Bastards ao Club Banditz, dupla de DJs de Coimbra, constituiu dos momentos mais efusivos da noite. Seguiram-se os Clandestinos. “Passámos lá para ver [os Club Banditz] e pareceu-me bem, mas nós vamos entrar com a força toda”, disseram ao JUP. A noite de bruxas deu as boas-vindas à madrugada com Tape.

A segunda noite de Arraial abriu e fechou também com Tape, que viu um recinto quase vago durante a sua primeira atuação. O feriado de todos os santos no Pavilhão Rosa Mota contou com bastante menos gente que na noite anterior. As pessoas que chegaram pela meia-noite – hora em que os The Gypsies subiram ao palco – seriam o público fiel ao recinto pelo resto da noite. O indie energético do grupo de Leça da Palmeira chamou o público para perto do palco. “Divertimo-nos imenso. Já tínhamos tocado em vários eventos de faculdades, nunca num sítio tão grande, nunca num evento tão importante”, disse Luís Santos, vocalista e guitarrista da banda.

Seguiu-se B Fachada, com o seu sintetizador. Mostrou-se bastante comunicativo, satisfazendo ainda os apelos da frontline numa espécie de discos pedidos à capela: um trecho da Canção da Mimi, a bem conhecida Quem Quer Fumar com o B Fachada e ainda uma versão d’ As Sete Mulheres do Minho, de Zeca Afonso. O concerto procedeu com pequenos problemas de som, como o cantautor fez notar, mas que aparentemente se resolveram. Contudo, a sensivelmente 20 minutos do fim previsto para o concerto, B Fachada parou de tocar e deslocou-se à cabine dos engenheiros de som. Quando regressou, o público voltou a pedir música, mas sem sucesso, tendo B Fachada arrumado o sintetizador e abandonado o palco. Ricardo Carreiras, da Universidade de Coimbra, expressou o seu descontentamento pela brevidade do concerto. “Vim de propósito de Coimbra só para ver B Fachada”, disse o aluno de Estudos Artísticos ao JUP.

Já pelas 02h00 subiu ao palco a dupla fundadora da Discotexas, Moullinex e Xinobi, acompanhados da sua imagem de marca: o ananás. A eletrónica tropical dos dois amigos animou o público, que se juntava em pequenos grupos a dançar. Luís Clara Gomes, mais conhecido por Moullinex, relatou ao JUP: “Eu gosto muito de tocar para a malta mais nova porque, quando eu estudava em Aveiro, as poucas oportunidades que tínhamos para ver coisas de que gostávamos eram as queimas e as receções”. A fechar a noite, foi a vez de Miss Sheila, DJ portuguesa com dezassete anos de experiência, fazer o público dançar.

A quinta-feira académica de 2 de novembro arrancou com BIONEKT, que aqueceu o recinto com ritmos voltados para o funk. O recinto encheu minutos antes da atuação mais esperada da noite: Slow J. O músico abriu o concerto com Fome, a sua última canção, e tanto nesta como nas seguintes cantou acompanhado pelo público. Algures na frontline, ouvia-se: “Estou tão feliz”. Em Vida Boa, single do seu mais recente álbum The Art of Slowing Down, Slow J desceu do palco, descalço, e subiu as grades para abraçar e cantar com quem, efusivamente, se aproximava dele.

De seguida, Blaya não deu tempo ao público para acalmar os ânimos e fez todos dançar com êxitos dos reformados Buraka Som Sistema. “Ela consegue completamente dinamizar o público e levar ao rubro um pavilhão inteiro”, disse ao JUP Lara Lopes, aluna de Ciências da Comunicação na Universidade do Porto.

A dupla de DJs BIONEKT voltou de novo ao palco às 03h00, tendo apostado então em sons mais pesados, perante um público animado. “Nós temos a preocupação de selecionar a primeira música como a música que funciona como introdução, conforme o ambiente, e a partir daí, é o que vem no momento. Todas as vezes são únicas”, disse Tiago Maravilha ao JUP.

Chegou a vez de Thomas Gold subir ao palco, não desconhecido do mesmo. “[Os portugueses] estão abertos a qualquer coisa e são muito positivos. Sou sempre bem recebido e toda a gente com quem falo é muito simpática. Eu acho que as pessoas só se querem divertir quando saem e, para um DJ, não há nada melhor que este público”, disse o DJ alemão ao JUP.

A madrugada ainda ouviu TwoMess, que declararam o fim da penúltima noite de Arraial.

Na noite de despedida do Arraial d’Engenharia o hip hop português reinou. Tape abriu as festividades pela última vez e a ele seguiu-se Equilíbrio, que aproveitou para divulgar o seu primeiro álbum – Luz – lançado em setembro. O rapper de Amarante chamou ao palco os amigos João Pinheiro, Ana Luísa, Visão e David Ramos, com quem assina algumas das suas músicas. Gonçalo Costa, vulgo Equilíbrio, confessa ao JUP: “Foi mesmo mágico. Acho que este foi o maior palco que já pisei e poder abrir a noite para os Dealema, o Valete e o Ride, referências nacionais, é muito bom”.

Valete foi o seguinte a atuar e pôs o público a abanar a cabeça ao som das suas rimas e das do seu parceiro do Canal 115, o rapper Bónus. Tanto o clássico Roleta Russa como o seu mais recente trabalho Rap Consciente levaram o público ao êxtase. O rapper da Margem Sul explicou ao JUP que este “é um público que gosta do hip hop pelas razões certas. O hip hop é honesto, é cru, e aqui no Porto as pessoas sentem isso com muita efervescência e esperam dos artistas que eles sejam o que rimam. E acho que é a melhor maneira de viver e sentir o hip hop”.

Valete passou o testemunho aos eternos mestres do hip hop do Norte, os Dealema, de cujas letras do seu primeiro álbum – de há 21 anos – o público sabia de cor. “O público do Porto é um público mais efusivo, fulminante, alegre. Nós, do lado do palco, vemos pelo brilho dos olhos do público que é o nosso público, é a nossa cidade”, explicou Fuse. Para fechar a noite e a edição deste ano com chave de ouro, o Pavilhão Rosa Mota recebeu Dj Ride. As músicas mais conhecidas do momento, singles dos Beatbombers – dupla entre o DJ e Stereossauro – e até um remix de Verdes Anos, de Carlos Paredes, foram acompanhados por um espetáculo visual que fixou os olhos do público no palco.

Assim termina mais um Arraial d’Engenharia. À saída do recinto, pelas 06h00, Fábio Macedo, aluno de Mecânica Automóvel no ISEP, revela: “Adorei; das quatro noites, esta foi a melhor. Volto para o ano, sem dúvida”.