Cultura

IBERANIME OPO: DESCOBRIR O JAPÃO

O mais conhecido evento de cultura pop japonesa em Portugal regressou ao Porto este fim de semana. O Multiusos de Gondomar foi palco para as centenas de fãs do mundo nipónico que deram cor ao evento através dos seus cosplays e criatividade. No IberAnime, não faltou animação, noodles, perucas e armaduras.

A fila em frente ao Multiusos de Gondomar às 11h de sábado (21) dava a conhecer uma pequena parte daquilo que se ia passar no interior do recinto. As últimas preparações nos fatos eram feitas para que nada falhasse durante todo o dia. De bilhetes na mão, iam lentamente entrando no recinto do evento, prontos para descobrir o Japão.

Separado do IberAnime (IA) decorria o evento 4Gamers. Ocupava outras salas do recinto e todos os fãs de jogos de computador (e de outras consolas) tiveram oportunidade de se reunir no seu próprio espaço. Foi a primeira vez que o 4Gamers esteve no Porto e também a primeira vez que o IA dividiu o espaço com outro evento.

Na entrada do IA a primeira coisa que se vê é a Feira, onde estão as mais variadas bancas a vender todos os artigos imagináveis: almofadas, peluches, perucas, figuras de ação. Uma lista incontável de produtos relacionados com a cultura pop japonesa (e não só).

O JUP recolheu o testemunho de uma das bancas do evento: Philippa Marquis é uma loja online de artesanato. Tudo o que estava à venda foi feito à mão e relacionado com cultura pop japonesa, mas também outras personagens muito conhecidas. As artesãs são de Lisboa e costumam estar presentes em todas as edições, na capital e na Invicta. O processo de seleção é igual todos os anos. Depois de se candidatarem para participar na Banca de Artistas, podem ou não ser selecionadas para marcar presença no evento. Contaram que nesse primeiro dia a adesão ainda estava a ser pouca.

Os corredores laterais levam a outras partes do evento, nomeadamente ao Palco Cultural. Durante todo o dia de sábado, estiveram sempre a decorrer atividades nesta secção, nomeadamente workshops de Shodô, que traduzido literalmente significa caligrafia. A escrita japonesa é, portanto, uma forma de arte. Outra atividade foi a demonstração de artes marciais, proporcionada pela Federação Nacional de Jiu Jitsu.

Próximo do Palco Cultural encontram-se as bancadas da Embaixada do Japão, do Clube de Origami, da Escola de Moda do Porto, entre muitas outras. Durante todos os dias do evento decorreram também workshops e demonstrações. Tudo o que era relacionado com a cultura japonesa podia ser encontrado aqui: dos workshops de origami às sessões grátis de reiki, passando pela arte do bonsai. 

Miguel Martins fez voluntariado no IberAnime durante 5 anos. Atualmente continua a participar no evento através da equipa da Radio Jeneration, fazendo a animação do Palco de Karaoke. Nesse palco, além da oportunidade de cantar alto e bom som algumas anisongs, também se podiam testar os conhecimentos sobre animação, através de quizzes e jogos de tabuleiro.

Miguel contou ao JUP como em 5 anos o IA evoluiu no que diz respeito às condições, programa e público, que cada vez é maior. Comparativamente com o evento de 2016 na Alfândega do Porto, considera que em Gondomar funciona melhor, pois as pessoas não precisam de se movimentar de um espaço para o outro. “São as pessoas que fazem o IberAnime” e o facto de estarem mais próximas num espaço como o Multiusos é melhor, na opinião de Miguel.

Miguel Martins, colaborador da Radio Jeneration.
Miguel Martins, colaborador da Radio Jeneration.

O concurso Anime Music Video teve início às 11h44, no Palco Moche. Os participantes presentes recebiam meio ponto extra pelo facto de se encontrarem na bancada a assistir à apresentação dos vídeos. O júri era composto por membros de alguns patrocinadores do IA (nomeadamente da Maggi), bem como do jornal de banda desenhada “Jankenpon” e do centro de línguas “Language  Craft”. Os vídeos foram apresentados e aplaudidos, mas o resultado só foi revelado às 19h.

Mais tarde, no Palco Maggi Fusion teve início uma apresentação de Leonor Grácias, cosplayer portuguesa e vice-presidente da Associação de Cosplay, e Mário Freitas. Falaram acerca da evolução do cosplay em Portugal, do facto de as pessoas terem cada vez mais vergonha de subir ao palco por causa da crescente exigência em apresentar o fato perfeito.

Leonor falou sobre o papel da Associação de Cosplay portuguesa, que faz palestras e workshops nas escolas para alunos do 5º ano 9º ano, onde as crianças têm oportunidade de realizar peças de cosplay, que acabam por levar para casa e apresentar à família. Defendem ainda que se desenvolva mais a criatividade dos jovens em disciplinas como Educação Visual e Tecnológica, algo que pode ser feito através do cosplay. Segundo Leonor “o cosplay é uma arte” muito completa e que envolve vários factores, desde a costura, à pintura e também a noção de que o dinheiro deve ser gerido com atenção.

Entretanto, chegou um dos momentos mais esperados: o workshop da cosplayer Yaya Han, pela primeira vez em Portugal. Através de uma apresentação de slides deu a conhecer o seu trabalho. Desde 1999 que começou a dedicar-se ao cosplay. No início não tinha muitos recursos e chegou mesmo a não usar perucas em alguns casos. Entretanto evoluiu, começou a participar em concursos até chegar ao ponto de ser convidada para jurada. Chegou inclusive a participar na série Heroes of Cosplay, no canal Syfy.

Durante a apresentação, mostrou o processo de criação do fato da personagem Shao Jun de Assassin’s Creed Chronicles China. No total, demorou uma semana a completar o fato sem ter uma imagem completa para usar como exemplo. Fotografou todo o processo, até ao momento em que vestiu o disfarce pela primeira vez.

Depois de partilhar esta parte do seu trabalho, Yaya Han preparou tudo para fazer o Meet&Greet. Para conhecer a cosplayer era necessário pagar 5 euros.

Durante a apresentação de Yaya, a cantora Mashiro Ayano fazia uma demo do seu concerto no Palco Moche.

Entretanto foi a vez de Neeko, que dá voz a algumas personagens de animação japonesa, (e é também cantora e modelo), de subir ao Palco Moche para o seu concerto, onde cantou temas dos seus animes favoritos, como Sailor Moon e da série Reborn da qual foi protagonista. Acompanhada por uma tradutora, falou em japonês com o público, que reagiu sempre de forma bem-disposta.

Ainda no Palco Moche, às 16h30 teve lugar o primeiro concurso de cosplay do fim de semana: Cosplay de Grupo. Os participantes apresentaram pequenos “skits” (demonstrações ao vivo) das suas personagens, totalmente caracterizados e com vídeo e som incluídos. Além do disfarce, é também importante que os concorrentes encarnem totalmente a personagem e assim se mantenham até ao final da apresentação. E então deram vida a personagens de séries como “Fullmetal Alchemist” e jogos como “League of Legends”. Todos foram aclamados pelo público e mais uma vez os vencedores só foram revelados no fim do dia.

O último grande evento do dia no Palco Moche foi a eliminatória do World Cosplay Summit. Neeko e Yaya Han fizeram parte do painel de jurados.

O concurso começou com um atraso de meia hora. Mas ninguém pareceu incomodado por ter que esperar. Para começar, foi apresentado um vídeo acerca do World Cosplay Summit, com alguns dos melhores momentos do evento, no Japão.

O primeiro grupo a subir ao palco foi “Susuwatari” composto por Sérgio Teixeira e Catarina Monteiro, que apresentaram um “skit” de League of Legends.

De seguida, as cosplayers Leonor Grácias e Madalena Ramiro. O nome do grupo é “Konpeito” e já representaram Portugal numa final do World Cosplay Summit, no Japão.

O grupo “Huminako” de Natércia Rodrigues e Beatriz Maria Queiroz optou por encarnar personagens de Legend of Zelda. Uma das espadas do disfarce quebrou-se, mas isso não foi um impedimento para a apresentação, que improvisou e terminou a apresentação sem nenhum percalço.

Entretanto, foi a vez de Catarina Magalhães e Cláudio Santos, os “Phantom Thieves” apresentarem a sua versão das personagens do vídeo-jogo “Avalon Code”.

Por último, “Kitsune”, o grupo de Sara Silva Redo e Bruna Oliveira marcou o fim da eliminatória do World Cosplay Summit.

Chegou então o aguardado momento em que os vencedores de todos os concursos do dia foram revelados.

O 3º lugar no concurso “Anime Music Video” foi para Pedro Prazeres. Lúcia Heitor foi a segunda selecionada. E o grande vencedor nesta categoria foi Paulo Ferreira, com o vídeo “The Age of Innocence” onde procurava transmitir o lado mais alegre dos animes.

Os grandes vencedores do Cosplay de Grupo foram “Também fazemos skits aos domingos”. O 3º e 2º lugar foram para os grupos “Lara e Dora” e “Elric Brothers” respetivamente.

 

Por fim, os jurados do World Cosplay Summit subiram ao palco, juntamente com todos os participantes. Neeko entregou o prémio aos segundos classificados, “Phantom Thieves” que vão participar no Clara Cow’s Cosplay Cup na Holanda. A cosplayer Yaya Han entregou o prémio aos grandes vencedores do dia: Team Konpeito, que deste modo, vão pela segunda vez ao Japão representar Portugal, no World Cosplay Summit.

 

O primeiro dia terminou com mais um Para Para Dance no palco Maggi Fusion. Com uma duração de 15 minutos cada, estes momentos realizam-se três vezes por dia: de manhã, ao início da tarde e ao final do dia. Todos seguiram a coreografia apresentada no palco e dançaram ao som de algumas músicas asiáticas, sem preocupações e sem medo de arriscar.

 

O dia de domingo (22) começou tal como o dia anterior acabou: com Para Para Dance. Às 11h, em frente ao Palco Maggi Fusion, dezenas de cosplayers e fãs juntaram-se para fazer uma espécie de aquecimento para o resto do dia. O coreógrafo e a mascote do IberAnime encheram o palco de energia e o público respondeu de igual forma.

Pouco depois, Neeko preparava-se para começar o seu Live Concert no Palco Cultural. Desta vez mais próxima dos fãs cantou algumas das suas anisongs favoritas e agradeceu ao público pela atenção e carinho. Logo de seguida, dirigiu-se para o Palco Maggi Fusion e começou a preparar o seu Talk Show.

Ao mesmo tempo, a banda portuense de rock japonês Kishi Kaisei atuava no Palco Moche. A banda é composta por 4 elementos que cantam temas em japonês. As bancadas estavam cheias e muitos foram os que cantaram juntamente com a vocalista.

No palco Maggi, juntavam-se Neeko e a sua tradutora, a fim de responder a questões dos fãs. Neeko faz vozes para animes, vídeo jogos e filmes e é cantora. O mais importante para ela é o facto de poder ser sempre ela própria apesar de fazer muitas coisas diferentes e dar vida a várias personagens.

A voz é uma das suas características principais. É impossível não reconhecer a Neeko à distância e a verdade é que a sua voz foi sempre assim. Também consegue fazer voz de adulta séria, no entanto diz que é mais feliz ao ser ela mesma.

Esta foi a segunda vez que Neeko esteve em Portugal. A primeira foi em maio, em Lisboa, no Iberanime Lx. Na sua opinião, os japoneses e os portugueses são muito parecidos. Além disso, considera também que são pessoas muito calorosas. Prometeu que da próxima vez que voltasse a Portugal ia falar um pouco de português com os fãs.

De seguida, falou sobre as personagens que já interpretou e pediu ao público que, tal como ela, perdesse a vergonha e imitasse algumas personagens. Foram poucas as pessoas a participar, mas quem o fez foi muito elogiado pela artista.

Entretanto, foi a vez de Nunumi regressar ao Palco Maggi para responder a algumas perguntas acerca da sua carreira.

Primeiramente, a canadiana foi questionada sobre o seu percurso até se tornar ilustradora. Nunumi, (Christine Dallaire-Dupont) sempre teve um interesse especial por ilustração. No entanto, acabou por estudar Ciências. Só aos 16 anos é que começou a estudar animação e nessa altura tinha a certeza de que ia reprovar, o que não acabou por acontecer. Quando se formou, foi novamente invadida pelo sentimento de que não iria arranjar emprego. Mais uma vez, estava errada e realizou o sonho de ser ilustradora.

Mas porquê o estilo japonês? Tal como muitos dos atuais fãs da cultura nipónica, quando era criança não diferenciava os desenhos animados japoneses dos americanos ou europeus. Quando se apercebeu de onde vinha realmente a animação de que gostava, a japonesa, acabou por aprofundar conhecimentos nessa área.

Algumas das suas inspirações são o roteirista japonês Miyazaki e o diretor de cinema de animes japonês Makoto Shinkai. Quando lhe perguntaram qual os seus animes e mangas favoritos demorou a decidir apenas alguns, mas acabou por eleger Fullmetal Alchemist e InuYasha como sendo dois dos prediletos.

Destacou o facto de algumas mulheres, como Hiromu Arakawa (criadora de Fullmetal Alchemist) utilizarem nomes masculinos para poderem escrever “shonen manga” ou seja, mangá direcionado a um público jovem masculino.

Falou ainda acerca do seu processo criativo. Considera-se mais uma contadora de histórias do que ilustradora, então para dar vida às suas personagens começa por escrever a sua história.

No que diz respeito à distinção entre o mundo da ilustração e o da animação, Nunumi considera que ambos têm coisas boas e coisas más. Por um lado, os ilustradores têm mais liberdade e podem personalizar mais o seu trabalho, pois fazem quase tudo sozinhos. Numa equipa de animação, por sua vez, surgem mais ideias, mas acaba por ser difícil definir a quem pertence o resultado final.

Por fim, explicou um pouco sobre o seu webcomic “Sky Rover” e falou também sobre o seu projeto futuro: Perfect Queen, onde pretende contar a história de 3 crianças que partem numa aventura para devolver a luz do sol ao Planeta Terra. Nesta história, os cientistas envolveram a Terra de nuvens para combater o aquecimento global.

Nunumi diz ter adorado estar em Portugal e ter pena de ficar por tão pouco tempo. Ficou impressionada com as qualidades dos cosplays e apreciou o facto de as pessoas serem simpáticas.

Durante a tarde repetiu-se o Para Para Dance. E logo de seguida começou o concurso Noodles Monters. O objetivo era descobrir qual dos participantes conseguia comer noodles mais rápido, sem deixar um único vestígio no copo. Em cada uma das séries de 3 pessoas apurou-se um vencedor, que passou à final. Dos 4 finalistas o vencedor foi Pedro Ferreira. Ao contrário do que esperava, os noodles não eram picantes, só muito quentes.

 

Simultaneamente, decorria no Palco Moche a eliminatória nacional do Cosplay World Masters. Este é o único concurso de cosplay que tem final em Portugal. Os países a concurso são os seguintes: Holanda, Bulgária, Letónia, Lituánia, Portugal, Dinamarca, Suíça, Bélgica, Turquia, Finlândia, Romênia, Inglaterra, França, Polónia, República Checa, Espanha, Brasil. Cada um destes países trará os seus representantes para a grande final em Lisboa, em maio de 2018.

 

Mais uma vez, Neeko era uma das juradas. Nesta eliminatória foram apurados dois finalistas: Iris Santos e Inês Fonseca. Além disso, a Escola de Moda do Porto atribuiu uma bolsa de estudos ao cosplayer Leonardo Ramos Lucas.

Depois deste concurso, o final do evento estava prestes a chegar. No palco Maggi Fusion, a cantora Mashiro Ayano estava pronta para receber os fãs no seu Meet&Greet. No entanto, ninguém apareceu. Por outro lado, às 18h as bancadas do Palco Moche estavam repletas de pessoas, de lanterna do telemóvel ligada, a assistir ao seu concerto. Falou um pouco em português, contou que visitou a Baixa do Porto, e avaliou o típico prato portuense, a francesinha, como sendo delicioso. O ponto alto do concerto foi o momento em que cantou o tema “Ideal White do anime Fate/Stay Night: Unlimited Blade Works.

No final do concerto, fechou-se o acesso ao Palco Moche. Na feira, as bancas de lojas começaram a recolher tudo. E apesar de serem as pessoas que fazem o IA, estas também tiveram de ir embora.

Depois de dois dias a dar vida às suas personagens favoritas, foi altura dos cosplayers se despedirem e voltarem ao mundo “real”. Agora, um pouco mais próximos do Japão, depois de um fim de semana de convívio e animação. O IberAnime regressa em 2018, em Lisboa e no Porto.