Cultura

HÁ MAIS DO QUE BONS SONS EM CEM SOLDOS

A música portuguesa regressa a Cem Soldos, em Tomar. O primeiro dia de Bons Sons, que se diferencia na forma como acolhe os visitantes, trouxe à aldeia nomes como Capitão Fausto, Virgem Suta e Glockenwise.

Apesar de ser o primeiro dia do festival, alguns campistas já tinham chegado no dia anterior a Cem Soldos, em Tomar, e assistiram ao DJ set de Inês Lamim, na “Receção ao Campista”. Quem chega sexta-feira, 11 de agosto, carrega as mochilas de campismo, troca os bilhetes pela pulseira que permite o acesso ao festival, monta as tendas e descobre a aldeia.

O recinto, delimitado pelo perímetro de Cem Soldos, integra os oito palcos que constituem o festival. Os palcos Lopes Graça, Eira, Tarde ao Sol, Giacometti e Aguardela receberam alguns dos artistas do primeiro dia e nem as temperaturas elevadas impediram a satisfação do público.

No entanto, o Bons Sons é mais do que música. Sem qualquer fim lucrativo, são os habitantes da aldeia e outros voluntários que produzem e permitem a existência do festival. As receitas geradas estão destinadas ao aumento da qualidade de vida dos cem-soldenses, e são aplicadas a projetos culturais e sociais da localidade. A interação entre quem visita e quem recebe é o principal ponto atrativo e diferenciador do festival. Durante o dia e ao fim da noite, os visitantes espalham-se pela aldeia, entre cafés, tascas, atividades, jogos, ou feiras de artesanato e trocam ideias com os aldeãos.

A aldeia trabalha também na promoção da sustentabilidade. Com o objetivo de tornar Cem Soldos uma Aldeia Ecológica e de reduzir o impacto da presença dos festivaleiros, o Bons Sons oferece soluções amigas do ambiente. Cinzeiros cilíndricos são oferecidos aos festivaleiros que os requisitarem, pontos de reciclagem estão espalhados pelo recinto e a zona de campismo tem casas de banho secas, utilizando-se os resíduos nos campos de Cem Soldos.

As novidades deste ano são o financiamento por parte do projeto “Sê-lo Verde”, um fundo ambiental que incentiva a valorização do ambiente em festivais de música, e a total erradicação dos copos descartáveis do recinto. Os participantes são convidados a comprar um copo de plástico duro, que pode ser devolvido em troca do dinheiro investido.

Os visitantes ainda chegavam ao recinto quando os Whales pisaram o palco Giacometti, um coreto no Largo de S. Pedro, pelas 16h45. De pé, ao sol, ou sentado, à sombra, o público compõe-se à medida que o concerto avança, e a frente do palco está repleta de festivaleiros que se agitam ao ritmo da música.

Alguns problemas técnicos não impedem o concerto e o contentamento do público. “Para a próxima vimos com guitarras acústicas”, brinca o baterista, Vasco Silva, despertando risos na audiência. A banda de Leiria mistura o rock com a eletrónica, e apresenta o novo single, How Long, que é bem recebido pelo público.

Os visitantes deslocam-se para o concerto seguinte e, no pequeno palco Tarde ao Sol, há uma enchente que espera por Manuel Fúria e Os Náufragos. A banda navegou pelos dois álbuns, Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo e Viva Fúria, com temas como Que Haja Festa Não Sei Onde, 20.000 Naves, Cavalos Brancos e, o tão pedido pelo plateia, Cala-te e Dança.

O público entrou no barco e acompanhou-os, cantando as letras, o que a repetição dos refrões facilita. “Público desonesto!”, exclama Manuel Fúria, e explica: “O palco Tarde ao Sol está à sombra”, para felicidade dos que assistem, na quente aldeia de Cem Soldos. O concerto fecha da mesma forma como fecha o Viva Fúria, com Canção Infinita, um mix de música com palavras ditas por Fúria. Terminada a declamação, Manuel Fúria abandona o palco. Um a um, os Náufragos seguem-lhe o caminho e o som vai-se decompondo, terminando com a bateria.

No palco Giacometti, está prestes a entrar Surma. É aplaudida ferozmente no momento em que pisa o palco. Os sons eletrónicos misturam-se com uma voz delicada, num one-woman-show a que o público não fica indiferente. Surma toca e canta descalça, com meias. As várias interações com o público tornam o concerto com a maior enchente da tarde num espaço intimista, com uma audiência que já está à vontade com Surma, até de quando ela era apenas Débora Umbelino.

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O sol começa a descer e o céu adquire tons de rosa, conferindo ao concerto uma tonalidade que acresce à envolvência e energia sentidas. Surma não perde a oportunidade e lança-se ao público, num crowdsurfing aplaudido com diversão. “Já há muito tempo que queria fazer isto”, de regresso ao palco, Surma garante que “este era o festival e o momento para o fazer”. O concerto chega ao fim, mas o público contradiz. Pede a Surma que toque outra, que repita uma das que tocou, e ela cede.

Terminada Hemma, a audiência continua insatisfeita, com sede de mais. Pedem mais uma – “só mais uma” – e Surma, com uma expressão humilde e de gratificação, faz a vontade ao público. A saída do palco é potenciada pelos Whales, que regressam ao palco que anteriormente pisaram, e carregam a amiga conterrânea. Os comentários entre os visitantes depois do concerto fazem adivinhar que foi esta a surpresa do dia.

Falta meia hora para o concerto dos Holy Nothing. Os festivaleiros aproveitam para jantar, e formam-se filas nos pontos de restauração, ocupam-se as mesas do largo principal, enchem-se as tascas, multiplicam-se os copos cheios e desvenda-se a aldeia entre ruas e vielas.

Faltam quinze minutos para as nove, e a banda portuense é recebida por alguns festivaleiros, que aumentam de número à medida que acabam de jantar. Os Holy Nothing estreiam o palco Lopes Graça, e com eles trazem um jogo de luzes, que reflete a intensidade e ritmo a que nos habituaram. A Speed of Sound, do álbum em que estão trabalhar depois de Hypertext, é a mais reconhecida pelo público, que se diverte com a energia da banda. Depois de algumas palavras trocadas com os colegas, Nelson Silva, que manuseia os teclados e o drum pad, dirige-se ao público e pede que se aproxime. Assistimos ao segundo crowdsurf do dia. “Aproveitem o festival”, recomenda Pedro Rodrigues. “É um dos mais bonitos em Portugal”.

O Palco Eira é a próxima paragem. O quarteto de Barcelos inicia o concerto às 22h. “Somos os Glockenwise, vamo-nos divertir um bocadinho?” O público reconhece as músicas com um som aproximado ao rock de garagem, e canta-as. Entre a Scumbag, Heat e Leeches, a audiência está enérgica, alimentada pelo vigor e vivacidade das músicas, apesar das letras desanimadoras. A Eira está cheia. Nuno Rodrigues, o vocalista, garante que “tocar para um público tão grande é um sonho de infância concretizado”. A banda, que lançou o último álbum, denominado Heat, em 2015, termina com a Time to Go, seguida de um breve solo de guitarra proporcionado por Nuno e um forte aplauso pelo público.

Os Virgem Suta dão e recebem uma receção calorosa. “Boa noite, família!” são as primeiras palavras de Jorge Benvinda. Faltavam ainda vinte minutos para o concerto, e os festivaleiros já esperavam à frente do palco Lopes Graça, sentados. Abrem com Mula da Agonia antes de partir para a Vidinha. Antes de Ressaca, Benvinda dá uma recomendação à plateia “Se amanhã estiverem ressacados, comecem logo a beber ao início do dia”. O público ri e aplaude. Sabem as letras de cor, e ninguém fica indiferente à personalidade divertida de Jorge Benvinda.

João Couto, vencedor da sexta edição do programa Ídolos, junta-se à banda em palco para cantar Ela queria. Em Linhas Cruzadas, o público acompanha a música acenando, com os braços no ar, como a música pede. “Um brinde ao Bons Sons, a Cem Soldos, ao amor, aos que já partiram”. A plateia celebra enquanto se ouve Dança de Balcão. Seguem-se Regra Geral e Maria Alice. Todo o reportório de Virgem Suta apresentado surge como hits, conhecido pelo público e recebido efusivamente. A banda apresenta também o habitual Playback, de Carlos Paião, levando o público ao êxtase.

Virgem Suta perde audiência à medida que se aproxima do fim, com os festivaleiros desejosos de ficarem próximos do palco do concerto seguinte.

Os Capitão Fausto apresentam-se no palco da Eira, meia hora depois da meia-noite. Tomás Wallenstein, Domingos Coimbra, Francisco Ferreira, Manuel Palha e Salvador Seabra formam a banda que Nuno Rodrigues, dos Glockenwise, designou como “os cinco globos de ouro mais bêbados que conhecemos”. Pouco antes de chegarem, começa a tocar o instrumental da Teresa, abrindo o apetite ao público. Os festivaleiros que seguram um cartaz onde se lê “Toquem a Teresa” ficam esperançosos. No entanto, foi apenas provocação.

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Iniciam o concerto com Corazón. Com “Semana em Semana”, “Amanhã Tou Melhor”, “Alvalade Chama Por Mim”, “Tem de Ser”, “Mil e Quinze”, “Os Dias Contados” e “Morro na Praia”, os Capitão Fausto trazem, à repleta Eira, a totalidade do seu último álbum Capitão Fausto Têm Os Dias Contados. Não ficam a faltar também Maneiras Más, Célebre Batalha de Formariz e A Febre, dos outros dois álbuns: Gazela (2011) e Pesar o Sol (2014).

Os Capitão Fausto têm o público na mão. Quem assiste sabe as músicas de cor e salteado, e, durante a hora de duração do concerto, não existiu qualquer quebra de energia, como resultado da qualidade da sequência musical. A audiência divide-se em cantores, bailarinos, crowdsurfers e quem faça um pouco de tudo. No fim do concerto, alguns membros da banda encontram-se com elementos do público, que os aguardaram.

Os restantes visitantes agrupam-se no palco Aguardela para ouvir os lisboetas Thunder & Co.

A noite termina com um DJ Set de Groove Salvation, no mesmo local. Domingo, dia 12, Cem Soldos recebe mais artistas e bandas, entre eles Mão Morta, Throes + The Shine, Né Ladeiras e Les Saint Armand.