Cultura

SPRING ON! – A PRIMAVERA NA CASA DA MÚSICA

A Casa da Música prometeu “frescura criativa” para o serão Domingo. Cumpriu a metade esta proeza.

Sem Título

O Spring On! é um projecto que permite dar a conhecer jovens músicos europeus de Jazz que abandonaram o monoglotismo do género, deixando-se embeber por variadas sonoridades mais contemporâneas.

Depois do groove corrosivo dos portuenses Bouncelab, do circo de sons (e animais) dos Papanosh, do colóquio “swingado” entre acordeão, vibrafone e secção rítmica dos Eduardo Cardinho & João Barradas Quarteto e do trompete transfigurado incorporado num melodismo cativante dos Hayden Powell Trio, foi a vez do quarteto de Marco Santos e do quinteto de Marly Marques pisarem o palco da Sala 2 da Casa da Música. Este, antes dos concertos, estava recheado de fumo e ouvia-se na música de fundo o penetrante timbre da guitarra portuguesa num sublime fado instrumental: as intenções de suspense eram claras.

Marco Santos, baterista, sobe ao palco em formato trio (a guitarra seria adicionada posteriormente) e logo na primeira música, “Silent Mirror”, deixa as suas intenções claras: o piano começa a lançar uma harmonia corrida “à balada”, o contra-baixo fixa-a, a bateria foca-se nos pratos. Soam a um trio de jazz contemporâneo (o de Brad Mehldau surge-me como um bom exemplo), logo soam automaticamente bem. Mas eis que do nada todos os instrumentos calam-se e, quando a música retoma, o baterista manipula com um computador o piano dando-lhe eco, o contrabaixista percorre fugazmente o instrumento com o arco, só tocando contudo quando a atmosfera pede, e a bateria completa com coesão. O “Avant-Garde” evolui naturalmente para um solo de piano. A música é atmosférica e cinematográfica, é uma viagem de comboio por diversas paisagens com muitas cores predominantemente frias (no bom sentido cromático).

O líder do quarteto, que também é o compositor de todas as faixas apresentadas, repete a receita inventiva ao longo de todo o concerto: abusa de compassos compostos, cruza as melodias com todos os instrumentos, rende-se a efeitos electrónicos – na guitarra, em todos os seus tambores e pratos. Aliás, nesta ancestral meia-música chamada “Relepse”, é nos presenteada na intro uma bateria completamente processada, onde Santos tocava com as mais variadas baquetas, com o microfone, com as unhas nos pratos, fazendo o seu instrumento soar a todos os instrumentos tradicionais do mundo. Posteriormente juntou-se a esta festa sonora som ambiente de uma conversa, uma melódica com delay que se assemelhava sonicamente a um acordeão e uma guitarra com deliciosas capacidades de diálogo. A música de Marco Santos é sofisticada e experimental mas também de um requinte imenso, tal como as cores primárias que, coincidência ou não, frequentemente iluminavam o palco. É música estimulante e desafiadora, e como é bom ser desafiado assim.

Seguiu-se o quinteto de Marly Marques no palco e, também logo de início, as diferenças de estilo em relação ao artista anterior revelam-se, no mínimo, claras. A linguagem deste grupo é muito mais próxima da do Jazz clássico: o piano dispara acordes à boa maneira da música de Big Band da década de 20, o baixo, apesar de eléctrico, entrelaçava o velho walking, a bateria mantia o swing. Os solistas eram dois: um saxofonista, que alternando com um clarinete improvisava quando acaba a melodia e uma cantora, Marly Marques. A sua voz corpulenta, quente, grave mas feminina, lembrava-me em algumas instâncias a de divas do Jazz como a Ella Fitzgerald.

Houve tentativas interessantes de refrescar a sonoridade, como alguns pormenores instrumentais ou covers mais aventureiros. Neste ponto, destaque para uma versão ultra smooth do Toxic de Britney Spears e – supresa da noite- um Seven Nation Army onde o Jack White se dividia em dois músicos: o saxofone tenor projectava o celebérrimo riff no refrão e a voz de Marly conferia à música um “soul” particular. Contudo, apesar destas expressões originais, onde também se somam os dotes de anfitriã da vocalista e líder da banda, que de forma simpática e genuína confessou ao público as saudades que estava a matar da terra natal e os problemas de bebida dos seus músicos (consta que as únicas palavras que estes conseguiam dizer em português eram “Aguardente” e “Vinho Tinto”), a música deste quinteto não conseguiu surpreender particularmente. É bem tocada e sabe bem, mas tardes de Domingo também o sabem.

O mote deste evento, segundo a Casa da Música, era dar a conhecer “Novas Tendências do Jazz”. Entre os dois, confesso-me tendencioso para as pretensões de Marco Santos.

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