Cultura

10 ANOS A CELEBRAR MILHÕES DE FESTA

A 10ª edição do Milhões de Festa chegou ao fim. Junto ao rio Cávado ou a dar um mergulho, a música foi o que uniu os portugueses e alguns estrangeiros em Barcelos. O JUP foi à descoberta do encanto que tem o festival.

Dia 20

São 9h30 e já se vêem os primeiros grupos a chegar ao campismo. As tendas são montadas com entusiasmo e com alguma ansiedade pelos próximos 4 dias. No primeiro dia não há piscina. Em alternativa, alguns optam por ficar perto das tendas a conviver e a jogar cartas. Outros aproveitam a feira a acontecer perto para dar um passeio e até comprar algo.

Chega a hora de jantar e muitos são os que optam por uma refeição bem recheada, mas rápida para perderem o mínimo de concertos. As primeiras pessoas chegam ao recinto e sentem que há ainda muito espaço por completar. Optam por se aproximar do palco e apreciar o próximo concerto. Outros preferem a relva e o conforto de estar sentado, a beber uma cerveja e ver o concerto ao longe.

Entre concertos atuavam os Favela Impromptu. Encostados à parede, o grupo atua no escuro, quase que sem querem dar muito nas vistas. Mas a música instrumental e experimental toca a alguns que viram as costas ao palco principal e ficam a pouca distância da banda, cegos pela inteligência musical dos Favela.

Os Cigarra & BirdzZie são um duo com influências multiculturais que trouxe ao primeiro dia do Milhões de Festa um ambiente de dança. Claramente num estilo eletrónico, o público é testado a perceber até onde os nossos “horizontes” musicais vão.

Foram os portugueses Stone Dead que chamaram mais pessoas para junto do palco. Talvez por já serem uma banda conhecida do público português, mas também pelo rock e a explosão que criam em palco. O mosh arranca: será finalmente o acordar do Milhões para o 10º aniversário? Seja o Milhões de Festa ou outro festival, são raras as vezes onde há música portuguesa, mas não há energia. Já no fim um homem sobe ao palco, aleatoriamente ou convidado, e aceita o convite para tocar com os Stone Dead. O seu instrumento foi a pandeireta e mostrou, de facto, ser um sabedor deste instrumento. Para trás, ficou um concerto memorável que conseguiu agarrar o primeiro do Milhões de Festa.

Da Síria ao palco Milhões vai uma longa distância, mas isso não impediu Rizan Said de dar um dos concertos mais festivo e dançável. À volta, o público questionava-se quem era Rizan Said e o que era o seu estilo ao mesmo tempo que, em grupo, dançava sem saber bem porquê e como. A verdade é que foram poucos os que estiveram parados. Um homem e dois teclados pôs o Milhões de Festa literalmente em festa.

E para fechar a noite, no palco Milhões atuaram os Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs com uma atitude provocativa e guitarras pesadas e distorcidas. Last but not least, Djs da Casa encerram o primeiro dia do Milhões de Festa.

Dia 21

No segundo dia não falta, claro, a música, este ano até de baixo de água na piscina. A famosa piscina do Milhões está oficialmente aberta. Por aqui, encontram-se os looks mais alternativos e distintos. Há muito movimento dentro e fora da piscina. São vários os fotógrafos que tentam captar de segundo a segundo cada momento. As tardes na piscina do Milhões são passadas de muitas maneiras, desde a conversar, jogar cartas, à amiga que pega no seu caderno e tenta desenhar a outra amiga. Lavoisier + Barrio Lindo, GPU Panic + Shake it Maschine, Orchestra Of Spheres e Mehmet Aslan foram os artistas que animaram a primeira tarde na piscina.

Banho tomado, jantar feito e louça lavada, partem do campismo em direção ao recinto onde já se ouve ao longe o Conjunto Cuca Monga. Cada um com o seu outfit, de chapéu na cabeça e óculos postos, trazem a noite ao segundo dia do festival. O público sabe identificar quem são os Ganso, os Modernos, os Bispo e o El Salvador, mas em concerto de Cuca Monga, o que vale é o que fazem juntos e aí se esquece as divisões. “Quem é que já está maluco?”, perguntam. Era o mote para o que vinha a seguir: a tocar, no palco Milhões, “Lá Maluco” dos Ganso. Não deixou de haver “Casa a Arder” e “Derradeira”. Com Bispo, dança é garantida. Francisco Ferreira agarra-se ao microfone e lança-se num monólogo louco e inesperado que levou à muita famosa frase “la piña colada c’est la maldicion”.

As betoneiras de faUSt & GNOD chamam à atenção. Regressamos ao experimental e os nossos ouvidos são novamente postos à prova. O espaço junto ao palco está praticamente cheio. Fora as pessoas que esperavam por este concerto, o resto do público vai entrando lentamente na onda. A curiosidade era muita para ver como as duas bandas funcionariam juntas em palco. Ora, as batoneiras para alguma coisa serviriam. Se não era para fazer música, então não faria sentido. Neste concerto percebemos que o mínimo objeto e movimento simula um som. Exemplo disso, aleatório ou programado, uma senhora entra pelo palco e durante vários minutos limpa o chão com uma vassoura ao mesmo tempo que se ouve um som simulado. “We are profets”, “We are the ghosts” seguiu-se de uma entrada, novamente, inesperada de um manequim desmembrado. Atrás de si, eram transportadas as pernas e os braços. E assim se faz e se fez um concerto no Milhões de Festa.

O americano The Gaslamp Killer fechou o palco Milhões.

Ainda neste dia atuaram, no palco Taina, TAU, Blown Out, Systemik Viølence e VAI-TE FODER. No palco Lovers atuaram Ifriqiyya Électrique, Sacred Paws, Cocaine Piss e Switchdance.

Dia 22

Na piscina, a rotina repete-se. Em palco, MQNQ (MMMOOONNNOOO & Quim Albergaria), O Bom, o Mau e o Azevedo, MVRIA + Supa e Sly & The Family Drone.

No palco taina, atuavam Mweslee, BFlecha, Brutal Blues e RATERE.

Pelas 21 horas, Yussef Dayes presents Black Focus sobem ao palco Milhões para criar um momento de satisfação musical. Uma guitarra, uma bateria e um teclado foi suficiente. A bateria era a mãe do projeto, mas os restantes instrumentos tiveram a sua oportunidade de brilhar a solo. Adoram Portugal e adoraram estar em Portugal. O público sentiu esse afeto e retribuiu com aplausos e inteira dedicação ao concerto. A humildade do baterista encantava qualquer um quando engana-se e, humildemente, ria-se e voltava ao início. De propósito ou não, enganavam as pessoas com fins rápidos e outros que davam ideia do fim. Trouxeram ao terceiro dia do festival uma amostra de vários ritmos e sonoridades.

Uns passos ao lado e no palco Lovers atuam Duquesa, Ra-fa-el e Cave Story. Fora os problemas técnicos, vemos três bandas/artistas com estilos minimamente diferentes e de públicos diferentes. Ainda assim, curioso ouvir tantas guitarras numa música onde é normal uma ou duas.

O grande momento da noite e, provavelmente, do Milhões de Festa chegou quando os Graveyard pisaram o palco. Sentia-se a ansiedade no público e a espera pelo concerto. As letras são cantadas por todas e ecoam por todo o espaço. Olha-se para trás e deixamos de reconhecer um palco que nunca esteve tão cheio. A certa altura o vocalista, Joakim Nilsson, pergunta se está tudo bem. Ouvem-se suspiros, assobios, aplausos. Pela reação do público, melhor não poderiam estar. A voz de Joakim era viciante e prendia os ouvidos e os olhos de cada um.

A banda anuncia, agora, uma música mais antiga e esperavam eles não ser tão conhecida. Aí enganaram-se e foram surpreendidos por um público claramente fã. Será que finalmente sentimos a energia de um público que ouve e vê apaixonadamente um concerto?

De repente, a banda é informada que passaram o tempo. Os Graveyard abandonam o palco. O público começa a fazer contas e não aceita. Chama pela banda, aplaude e assobia ainda com mais força. O público acredita que eles vão voltar e acertaram. Com uma luz amarela e branca apontada diretamente para o vocalista, a banda despede-se num tom mais intimista e pessoal, ao início, mas com a força e grandeza habitual no fim.

No palco Lovers, Sex Swing trazem um instrumental mais ritmado num palco cheio, quase a transbordar para um espaço igualmente cheio de pessoas. A seguir, Moor Mother, Yves Tumor e DJ Katapila.

Janka Nabay & The Bubu Gang no palco principal trazem a cultura Bubu. Uma sonoridade com mais de 5 séculos que traz novamente a dança, agora com ritmos africanos.

Dia 23

Ao terceiro dia de piscina, já andamos em zig zag até encontrarmos a toalha. Ghost Wavvves + Mike El Nite, Sarathy Korwar + Hieroglyphic Being, Sarathy Korwar, Shame e Hieroglyphic Being foram os últimos nomes do palco Piscina.

No palco Taina, depois de BALA e Iguana Garcia, sobem ao palco os Galgo. Num ambiente descontraído, tocam para pessoas sentadas na relva e para os que ao longe ficam sentados no muro. O concerto começa com alguns problemas técnicos, mas nada que tire o entusiasmo habitual da banda. Para remediar a situação, a baterista solta um forte “Olá, boa tarde!”. O público ri-se e responde. É esta proximidade que se cria no palco Taina. Torre de Babel, do EP, foi uma das músicas escolhidas, neste dia numa versão diferente. O público aderiu à brincadeira. Deixam o Milhões de Festa com “Skela” e um concerto pequeno. O público estranha e grita que foi muito pouco. Com uma energia tão contagiante, um concerto pequeno não mata a fome e sede de boa música. Mas, assim foi, e mesmo em pouco tempo, os Galgo foram os Galgo que já estamos à espera. diola fecha o palco Taina.

Chegados ao recinto, recuamos ao primeiro dia com um espaço mais vazio. No palco Lovers, atuam os Meatbodies enquanto os franceses  e colombianos Pixvae preparam-se para subir ao palco principal. Com quatro homens e duas mulheres há muita energia em palco. Entre si, saltam do saxofone para o teclado, batuque, bateria,  guitarra, shakers, maracas e podíamos continuar. Em palco, temos França e Colômbia que aos ritmos colombianos juntam um toque do rock europeu.

As duas vocalistas de Pixvae sorriem de uma ponta a outra durante todo o concerto. Para não falar das suas vozes, tão distintas e harmoniosas, que encaixam na perfeição. O guitarrista aproxima-se várias vezes do público, pelo meio das vocalistas. O público está divertido e o olhar das pessoas perdem-se no palco a tentar seguir todos os movimentos e instrumentos. São trajetória e ritmos que variam de segundo a segundo. Se o público esperava agora ficar a conhecer a cultura colombiana, não se sabe, mas é certo que foi bem recebida.

A energia em palco aumentava com a energia do público e vice-versa. Num concerto de uma hora, conseguíamos ver e viver, nas músicas de Pixvae, a sua alegria. Até nos temas mais místicos e misteriosos, a alegria não ficou escondida.

A última música é anunciada e o público reage com tristeza. No entanto, a banda promete terminar em grande e pede a todos que dancem “cada um com o seu estilo”. Afinal, a última música não foi a última, mas sim a penúltima. Os Pixvae regressam ao palco e levam para casa um concerto não só divertido, mas que prendeu o público. Todo o carinho que o público sentiu ficou para sempre marcado na fotografia que um dos membros da banda tirou e que todos, voluntariamente, se juntaram. Pixvae despedem-se, assim, com o público a cantar por eles, com eles e para eles.

Ainda no palco Milhões atuaram os Pop Dell’Arte e os Bad Breeding. O palco Lovers fechou com Chúpame El Dedo, Jamal Moss enquanto Hieroglyphic Being que substituiu Powell, e, por último, DJ Fitz.