Cultura

O HOMEM DA GUITARRA: AFINAL QUE CORDAS A VIDA DÁ?

Desânimo, cansaço, solidão. Três palavras que podem identificar o estado de espírito de uma pessoa abandonada, de um músico de rua ou, agregando estas duas condições, do homem da guitarra, de Jon Fosse. O dramaturgo norueguês explora a vida de um músico de rua, profundamente solitário, suscitando uma reflexão geral sobre o contexto social em que este se insere.

Nos primeiros momentos do espetáculo, em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, a atenção está focada num artesão e na sua oficina, onde dispõe de várias guitarras em processo de fabrico. Durante a sua labuta, vai produzindo sons variados, consoante os instrumentos com que vai trabalhando cada contorno do objeto que está a construir.

Ao som da madeira, que acompanha toda a peça, dispensando uma apresentação formal, pelo menos de nome, um indivíduo de meia idade entra lentamente em palco, carregando uma caixa de guitarra. No corpo, enverga um sobretudo velho e grande. Na alma, que ninguém vê mas toda a gente sente, carrega uma desilusão profunda. Queixa-se do frio, da rotina, da monotonia. Porque “é sempre a mesma coisa, dia após dia, lá estou eu na minha passagem subterrânea a tocar guitarra e a cantar as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas”.

Lamenta-se das pessoas que passam por ele, das que se aproximam e das que se afastam. Muitas são as mesmas todos os dias. Lamenta-se das que sentem vergonha dele ou delas próprias. Porque será que sentem vergonha? Porque será que baixam a cabeça? Essas pessoas que estão tão juntas umas das outras, pelas normas sociais que partilham, mas simultaneamente tão distantes, mergulhadas na sua própria rotina, nas suas preocupações.

Lamenta-se da sorte e do destino. Canta todos os dias, não porque goste de música como antigamente, mas porque precisa de ganhar dinheiro. Explica que podia ter sido diferente. “Nunca tinha imaginado que ia acabar aqui, nesta cidade tão ao norte do mundo, mas foi assim, mas foi assim… vim para cá por causa de uma mulher e fiquei cá por causa de um filho”. E enfatiza: “Foi assim e não há mais nada a dizer, porque foi assim mesmo, uma pessoa vem por causa de uma mulher, uma pessoa fica por causa de um filho.” Admite que também ficou por causa de um medo que não sabe explicar. Porque medo, sim, medo é uma palavra minimamente razoável para quem perdeu já tanto e para quem continua a perder-se todos os dias entre as amarguras da vida.

Conta as coroas que tem no bolso e conta a história de um homem. Um homem que naquele dia lhe tinha dado 30 coroas e que nunca lhe havia dado nada, mesmo passando por ele todos os dias, durante anos e anos. Mas naquele dia era diferente. Naquele dia queimou a mulher e depois teve que ir beber qualquer coisa, por isso estava bêbado. Como o ouvia a cantar há tantos anos, deu-lhe umas coroas e depois afastou-se, como tantas vezes o tinha feito, naquela passagem subterrânea. Sozinho ou com a mulher, agora reduzida a cinzas.

Dá um gole, acende um cigarro. Vagueia entre as ideias. Vagueia ao longo de toda a peça, como o fez ao longo de toda a vida. Solta uns breves acordes, canta o que vai contando. Tudo o que diz pode traduzir-se em música, mesmo sem rima ou sem métrica completamente ajustada àquela que é sempre a melodia de todas as cantigas que canta ao longo da peça: “while my guitar gently weeps.” Na verdade, que outra melodia poderia adotar? Que outra melodia poderia traduzir a sua sensibilidade, musicalidade e dor que sente? Dor que materializa ao soltar as cordas da sua guitarra, à medida que a ação se desenrola.

Desafina as cordas da guitarra, como houve alguém que lhe desafinou a vida. Enfatiza várias vezes a mesma ideia: “Vim para cá por causa de uma mulher, fiquei por causa de um filho”. Porque estas são as cordas que a vida dá. E entre repetições, silêncios, hesitações, ri-se da sua própria miséria. Risos resignados, exasperados, inesperados. Um monólogo sofrido, pautado pelo desânimo, pelo cansaço, pela solidão. Uma vida como tantas outras, vividas ali, numa passagem subterrânea.