Cultura

ACROBACIA LITERÁRIA DE ALMADA ENCHEU DE ARTE E DE GENTE O TNSJ

Al mada nada esteve de regresso, entre seis e nove de abril, ao Teatro Nacional de São João (TNSJ), juntando, uma vez mais, de forma natural e fluida, gestos, formas e expressões artísticas para apresentar perante o público a visão modernista de Almada Negreiros.

Arte numa pluralidade de formas e aceções. É esta a promessa de al mada nada, uma criação de Ricardo Pais que traz para o palco a profusão e diversidade de espírito de Almada Negreiros. Numa altura em que o escritor celebraria o seu 124º aniversário, o espetáculo regressa ao Teatro Nacional de São João, conquistando uma sala cheia de espectadores que quiseram assistir à celebração da sensualidade e da cor presentes na obra representada.

Um palco em rampa, um intérprete, um percussionista e um grupo de dança. São estes os elementos que figuram num espetáculo que põe à prova a articulação da voz, som e movimento para representar a obra de Almada. Em movimentos circulares, Pedro Almendra, a quem cabe a responsabilidade de interpretar a escrita do artista do modernismo português, começa por expor a natureza inversa, mas não inconciliável ou hostil, de Pessoa e Almada, já que o primeiro é um auditivo e o segundo um visual.

Este texto de abertura é apenas um dos momentos em que se evidenciam realidades contrastantes, não partisse o espetáculo de Saltimbancos – um texto que desafia toda a literatura, publicado no único número da revista Portugal Futurista, em 1917, e que tem como subtítulo “Contrastes Simultâneos”. Nas palavras de Pedro Sobrado, dramaturgo da peça, estes contrastes são explorados, por exemplo, através da “geometria tórrida do quartel versus a fluidez refrescante do campo”, “do corpo desapossado dos soldados versus o corpo livre das raparigas”, da “candura e inocência de Zora versus a bestialidade da ‘copulação assistida’ dos cavalos” ou da “opressiva ordem militar versus o desregramento circense”.

A narrativa que interliga um quartel, um circo, homens-cavalo, arraiais de verão, dramas de namorados, um sol a pique e um luar de acetileno, além de ser profundamente físico e sexual, exibe um copioso cromatismo com o amarelo do sol e do quartel, o cinzento do brim e da sombra, o vermelho do maillot de Zora e o verde da luz de acetilene e do tapete do circo. Todo este caráter sensorial recolhido do texto desperta a imaginação e promove a visualização da ação, permitindo que o espectador viaje entre o tempo e os espaços descritos por Pedro Almendra.

Apesar de Saltimbancos ser o eixo central da peça, outros escritos de Almada são trazidos para cena, entre os quais o célebre excerto de “A Invenção do Dia Claro”, no qual o poeta confessa à mãe que ainda não fez viagens e a sua cabeça não se lembra senão de viagens, pedindo-lhe, por fim, que lhe passe a mão na cabeça, porque quando o faz, “é tudo tão verdade”.

Todo o espetáculo, que exibe a frenética violência futurista de Almada, serve-se da bateria de Rui Silva e da performance de Momentum Crew, que dão corpo e ritmo às palavras de Almada. O espectro de movimentos de dança urbana – que diferem dos movimentos tradicionais – vão, assim, ao encontro da visão modernista do autor e da forma como ilustrava o rompimento das regras.

Durante os quatro dias que esteve em cena, al mada nada abriu, assim e uma vez mais, as portas ao complexo universo de Almada Negreiros, exibindo a agitação de um jogo que se faz de contrastes, menos na entrega dos participantes que deixaram em palco a alma para dar a conhecer um pouco mais da alma do poeta através de diferentes formas de arte.