Cultura

INDEVIDA COMÉDIA É STAND UP TODAS AS SEMANAS NO SÁ DA BANDEIRA

Rui Xará, conhecido humorista do Norte do país, diz ter sido abordado, em momentos diferentes, pelos quatro rapazes que hoje podemos ver no palco do Estúdio Latino do Teatro Sá da Bandeira, que juntou para o projeto Indevida Comédia. Luís, Ricardo, Pedro e João já fazem stand up há alguns anos, em estilos bem diferentes uns dos outros, e decidiram abrir o ano de 2017 com um projeto que, mais do que um teste aos seus talentos humorísticos e de storytelling, é uma prova de que funcionam bem em conjunto e de que sabem o que estão a fazer.

E parece que sabem mesmo. Todas as quintas feiras de janeiro sobem ao palco, à vez, com cerca de “20 minutos de material” e um convidado conhecido do circuito do humor nacional. A primeira sessão do mês, dizem, “correu muitíssimo bem”. A estreia foi no passado dia 5, com o humorista Paulo Almeida a fazer as honras dos convidados. Na semana seguinte, Hugo Sousa acompanhou o grupo. A próxima sessão é já hoje, dia 19, com a Indevida Comédia a trazer a palco Pedro M. Ribeiro, às 22h.

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Foto: Ana Marta Ferreira

Na sala principal do Sá da Bandeira está montado o cenário de uma revista e por isso conversamos nas icónicas cadeiras vermelhas da antiga sala de espetáculos do Porto, que carrega uma forte tradição de espetáculos de humor.
João Freitas chegaria mais tarde, mas a entrevista vai correndo com Luís Gomes, Ricardo Leite, Pedro Pedrosa e ainda Rui Xará, que deixa claro não fazer parte do projeto, porque não atua com os restantes, mas “apadrinha e apoia” o conjunto desde o início.

A ideia que juntou os quatro humoristas portuenses num espetáculo de stand up surge da certeza de Rui Xará de que Luís, Ricardo, João e Pedro estão mais do que prontos para o trabalho e surge da sua vontade de “ajudar a malta mais nova”.

Luís explica que não é, claro, a primeira vez que fazem stand up. A diferença é que “iam fazendo, quando o Rui arranjava alguma coisa” e que, agora, houve a necessidade de “juntar os quatro menos maus em palco e, na impossibilidade de isso acontecer, estamos aqui nós”.

Pedro diz que é importante trazer a palco um projeto destes, com quatro comediantes em palco, à vez mas em conjunto. Fazem “uns minutos” individualmente, mas um projeto em conjunto tem, obviamente, mais visibilidade. “Fazer barulho os quatro é totalmente diferente de o fazermos sozinhos”.

Rui Xará desvenda que entram em palco por ordem aleatória, tirada à sorte antes de cada sessão. “O resultado é francamente bom. Somos todos terra a terra e estamos a fazer as coisas como deve ser. E ainda damos um bónus, que é um convidado profissional. O público sai claramente satisfeito”, diz-nos Ricardo.

Sobre as diferenças entre os quatro, para quem não os conhece, Xará descreve: “o (Pedro) Pedrosa é o gajo mais das one-liners, das piadas de observação, o Gomes é o filho que todas as mães querem ter, mas capaz de dizer as maiores barbaridades. O Ricardo está fortíssimo, e decidiu fazer uma coisa deliciosa, como que uma purga da sua própria realidade e que funciona muito bem, e o Freitas é absolutamente irrepreensível”.
Rui Xará avança ainda que “estes miúdos andaram a passar ao lado dos meios de comunicação” e compara a realidade da comédia portuense com a da capital, onde “às vezes os conteúdos não são tão bons, mas conseguem ser muito melhor vendidos”.

Luís relembra que chegarem 4 humoristas a uma sala traz mais público e ajuda-os a crescer individualmente. Todos têm a vontade de atuar, “num futuro próximo de 5 anos”, em grandes salas. Não põem até de parte deixarem tudo o resto de lado para, um dia, se dedicarem exclusivamente à comédia.

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Foto: Ana Marta Ferreira

João e Ricardo explicam o processo do espetáculo que podemos ver no Estúdio Latino do Sá da Bandeira. João Freitas diz-me que “é mais cada um no seu sítio, a trabalhar os seus textos”, e Ricardo acrescenta que “é verdade que não ensaiamos, mas assistimos muitas vezes ao trabalho uns dos outros, e se calhar isso pode ser considerado uma espécie de ensaio”.

Em conjunto não ensaiam, mas e individualmente, como constroem os seus textos? Luís diz que o seu método é muito simples: o seu humor é substancialmente mais negro do que o dos restantes, e a sua namorada “detesta humor negro”. “Por isso digo-lhe os meus textos, e o que ela não gosta eu sei que está como eu quero”. E avança que, para si, 5 minutos correspondem mais ou menos a 30 piadas e que não consegue contabilizar o tempo que demora a escrever um texto para apresentar. Ricardo diz que demorou 4 meses a preparar 20 minutos de material, desde escrevê-lo, a prepará-lo, passando, claro, por memorizá-lo.

Quanto às influências, João Freitas refere o “mentor” Rui Xará e diz que consome muitos espetáculos de stand up por ano. “Bruno Nogueira, Raminhos, Daniel Leitão, …” e diz que o espetáculo de comédia que mais gostou foi o Portátil, da Porta dos Fundos com o César Mourão, que esteve em cena na Casa da Música.

Ricardo fala de Raul Solnado, Ricardo Araújo Pereira, Rui Xará e Bruno Nogueira e admite que não tem muito juízo crítico, porque consome tudo e só mais tarde aplica um filtro. Das influências internacionais falam de Lenny Bruce, Jim Jefferies ou Ricky Gervais.

Para terminar, pergunto-lhes o que é que podemos ver na Sala Estúdio Latino, se não conhecermos nenhum dos quatro. “Vêm ver quatro rapazes que vão certamente dar cartas no futuro, responde Rui Xará. E garante ainda que é stand up puro: “e o stand up não é mais do que um gajo, um microfone, e uma forma muito particular de ver o mundo”.

Ainda há bilhetes para as restantes sessões, avisam, que podem ser comprados online ou no teatro. A Indevida Comédia terá mais duas sessões de stand up, sempre com um convidado diferente. A próxima é já hoje, dia 19, com Pedro M. Ribeiro e João Seabra fecha esta estreia do projeto no dia 26 de janeiro.

O conjunto avança que escolheram o Sá da Bandeira para dar o mote à iniciativa, por ser um espaço com tradição no humor e um ícone da cidade do Porto, mas a Indevida Comédia deverá continuar, noutras salas, cafés ou bares e, quem sabe, com “um conjunto de sessões em Lisboa”.