Cultura

PONTOCULTURA: “LES SAUTEURS” É MAIS QUE UM SALTO PARA A EUROPA

Les Sauteurs mostra o dia-a-dia de centenas de migrantes africanos no Monte Gourougo, em Marrocos, enquanto esperam saltar a fronteira para a Europa. Poucos saltam, alguns morrem, muitos continuam à espera que a próxima seja de vez. Mas este não é mais um filme sobre migrantes. Este documentário é gravado por um dos que tenta saltar.

Abou Bakar Sidibé, do Mali, estava há 14 meses a tentar chegar a Espanha. Já tinha feito várias tentativas para saltar as vedações, mas ficou sempre do lado de lá. Do lado da floresta de tendas e lixo, do lado dos homens (são todos homens) cercados por soldados marroquinos.

Dois realizadores, Moritz Siebert e Estephan Wagner dão-lhe uma câmara e algum dinheiro para a mão (motivação para ele não vender o equipamento) e afastam-se. A partir daí Abou transforma-se no realizador e protagonista da sua própria fuga.

Escolha inteligente para tornar o documentário real e mostrar uma visão mais imersiva e humana da crise de migrações. Faz com que se torne impossível desviar o olhar, porque não é uma imagem que estamos a ignorar, é uma pessoa.

Além de um retrato das dúvidas e medos de quem não sabe o que vai encontrar do outro lado, é também um ensaio sobre o acordar sensorial para a arte. No início do filme o co-realizador não sabe bem como enquadrar as imagens e contar a história, mas pouco tempo depois aprende a usar a câmara como prova do seu ponto de vista. “Sinto que existo quando filmo”, diz a certo ponto. A fotografia do filme pode não ser artística, mas a sinceridade e objetividade com que é gravado transmite exatamente aquilo que quem vive naquele monte vê. Há muitos planos do horizonte de Melila, a cidade espanhola ligada a Marrocos e dos aviões que lá aterram.

A vida no campo é uma rotina. Encontrar comida, esperar em fila por água e preparar a próxima tentativa de passar as vedações. Às vezes organizam jogos de futebol, mas isto faz com que a polícia marroquina se torne mais hostil. Muitas vezes queimam todos os pertences de quem já quase nada tem.

As redes, fortemente vigiadas e cobertas de arame farpado são só a primeira dificuldade de quem tenta chegar à Europa. A incerteza e o medo faz com que muitos desistam à primeira tentativa e voltem para África. É por isso que o Monte é retratado como um purgatório.

No meio de perseguições, noites passadas ao relento, tentativas falhadas, amigos perdidos entre o monte e o paraíso, Abou começa a ter pesadelos sobre voltar para Mali. Mas depois de muito tentar, é um dos que consegue dar o salto. As imagens do momento a seguir ao salto mostram finalmente homens felizes.

Já depois de chegar à Europa grava alguns dos pensamentos que tinha no campo, fazendo com que quem vê o filme perceba que aqueles homens não são pontinhos pretos na mira das câmaras de filmar das vedações. Têm sentimentos, profundidade, dúvidas, medos. E podem mesmo fazer filmes sobre isso.

Nota: O documentário esteve em competição no festival Porto/Post/Doc e ganhou o Prémio Biberstein Gusmão (para autores emergentes) e uma Menção Honrosa do Grande Prémio Porto/Post/Doc.