Cultura

PONTOCULTURA: NÃO HÁ MAR QUE SEPARE O SAMBA E A SAUDADE

Foi no dia 21 de outubro que António Zambujo tornou pública a sua homenagem sonora a Chico Buarque: “Até pensei que fosse minha”. O disco-tributo rompe um intervalo de dois anos na produção musical do alentejano e nasce de uma aproximação dos dois artistas de língua lusa.

Se a influência da MPB (música popular brasileira) já era antiga na sonoridade do fadista contemporâneo, materializa-se plenamente nesta compilação sui-generis de temas de Buarque. A seleção “foi o mais difícil”, diz Zambujo, e não é de admirar, não fosse Chico autor de umas boas centenas de melodias. O repertório final “só” incluiu 16 faixas, mas com idades bem diferentes entre elas: desde “Morena dos olhos d’água”, lançada em 1967, a “Nina”, de 2011.

A aventura portuguesa por entre as terras do samba inicia-se em “Futuros Amantes”, onde as teclas do original oferecem o papel principal à guitarra e aos sopros. Um arranjo mais intimista, que dispensa a orquestra de cordas ao rubro da original, e se deixa à sombra da voz inconfundível de Zambujo. Por entre a língua do jazz e os vestígios de melancolia, o que se ouve tem sotaque português, mas o “você” e o arrastado gerúndio mantêm-se constantes ao longo do álbum.

O ânimo torna-se mais leve e o compasso veloz em “Injuriado”, mas logo abranda com a chegada à aconchegante “Cecília”. A canção de 1998 foi incluída na compilação por indicação de Chico, mas António tornou-a tão sua, que qualquer ouvido português não duvidaria tratar-se de um original do cantor alentejano. E não é fenómeno solitário. A delicada modinha “Até pensei”, homónima do álbum, surte o mesmo efeito.

“Sem Fantasia” denuncia a primeira participação do álbum logo nos segundos iniciais, quando a voz aveludada de Roberta Sá surge acompanhada somente pelas cordas do contrabaixo. Zambujo aparece a meio da canção e traz consigo uma guitarra que chora. Daí, desenrola-se um contraponto arrebatador, em que são as vozes a estar debaixo do holofote. O instrumental mais simples, mas trabalhado com mestria, resulta nuns comoventes 3 minutos, que deixam qualquer um com água na boca. Mas as participações não ficam por aqui. Carminho também se junta ao artista, numa magnífica simbiose da bossa-nova e fado, em “O meu amor”.

E como não poderia deixar de ser, a voz (tão) familiar do homenageado é ouvida em dueto com António, na doce “Joana Francesa”, que conjuga a melódica e a guitarra, o romântico francês e a saudosa língua lusa.

É quase a meio do álbum que “Cálice”, composta com Gilberto Gil, emerge do silêncio, com Zambujo a cappella. A canção escrita sob e sobre a ditadura militar brasileira foi censurada na época – mas “mesmo calada a boca, resta o peito”. Nesta interpretação, as palavras ganham outra amplitude, influenciadas pelo crescendo do silêncio até à desconcertante guitarra elétrica, dando à luz um dos momentos mais intensos do álbum.

Noutra categoria estão as ternas valsinhas “João e Maria” e “Valsinha”, que aquecem o peito e nos segredam de onde veio boa parte da inspiração de António para a composição de alguns dos seus temas.

Só perto do fim da compilação surgiria a impriscindível “Tanto Mar”, uma saudação agridoce dirigida aos portugueses, em que Chico lamenta não estar presente no 25 de Abril. A primeira versão, de 1975, foi imediatamente censurada. Só no ano de 1978 é que uma segunda seria gravada e lançada, já com o sentimento de pós-revolução atualizado, mas com a esperança intocada. É esta que Zambujo canta, sob um sublime instrumental acústico.

“Geni e o Zepelim” é outra obrigatória. Pertencente à “Ópera do Malandro” (1978), da autoria de Buarque, é um dos seus supremos hinos. A poesia conta-nos a história de Geni, heroína hostilizada, Maria Madalena de Chico. Mas mais do que isso, a canção é uma forte crítica à hipocrisia, ao preconceito e ao poder, materializados na ditadura militar. É aqui que Zambujo escorrega. A sua voz meiga não tem a garra da revolta, ou a entoação da ironia, e adormece por entre o extraordinário arranjo.

O “disco parêntesis”, como António lhe chama, não estava nos seus planos. E custa acreditar. Porque ele pega nas obras como se fossem suas, como se nelas tivesse pensado durante anos até chegar ao ponto de modelá-las com tal arte e naturalidade. O tremolo da voz está lá, a entoação no final de cada verso, também, por entre um instrumental riquíssimo e arranjos meticulosamente elaborados. E sim, a composição pertence a “um dos maiores compositores da história da música”, mas basta mergulhamos dentro do álbum durante quatro faixas até pensarmos que é dele a alma por trás da criação.