Cultura

SAMUEL URIA SEM FALTAS NA CASA DA MUSICA

Se Uria tinha realmente “a corda na garganta”, ela estava pelo menos afinada. "Dou-me Corda", a primeira música do novo álbum, foi também a escolhida para abrir o concerto de ontem (5), na sala 2 da Casa da Musica. Samuel Uria estava lançado, e o público deu-lhe corda.

Na corda bamba entre uns blues disfarçados e um gospel mais violento, o primeiro single do Carga de Ombro, introduziu um artista que não pisou o palco só para mostrar o álbum novo que lançou há uma semana. Prova disso é a segunda música, Espalha Brasas, que faz o público lembrar-se que passaram três anos desde O Grande Medo do Pequeno Mundo. O tempo não parece ter diminuído a chama, uns acordes para sintonizar e o coro de “silhuetas cantantes” foi suficiente para que o publico trouxesse a música ainda bem quente na memória.

Numa noite em que “os efeitos especiais são de carne e osso”, Samuel Uria dedica a Aeromoço a Bruno Morgado, um grande amigo que é também da FlorCaveira. E que dedicatória, já que a caneta “do aperaltado alternativo a aspirar o pop” neste novo álbum está a deixar tinta em todas as letras certas.

Sozinho com a guitarra, decide “ao fim de muitos anos” e outros tantos concertos tocar a Nem Lhe Tocava, canção de há dois discos que deu nome ao álbum de 2009. O refrão de Repressão é cantado por um percussionista a saltar de microfone em microfone, sem precisar de Carga De Ombro para deixar o público a abanar os deles. Vem Por Mim introduz um momento mais intimo. No palco está “um coro fantasmagórico”, o protagonista e uma guitarra e Miguel Ferreira e um xilofone. O teclista dos Clã, que ajudou a produzir o álbum, provavelmente foi por Úria antes deste cair em Graça Comum.

“A próxima música foi estreada no Hard Club. O Manel Cruz, anda por aí?”. Assim, sem qualquer preparação. As cabeças tornaram-se antenas. Olham para a direita. Alguns “Manel?” tímidos. Olham para a esquerda. Ansiosos. Olham para cima, nunca se sabe, remexem-se nas cadeiras. Mas há pessoas que não precisam de se fazer esperar, e de repente Manel Cruz sai de entre o público e está em cima do palco, de microfone na mão. “Não preciso da letra, obrigada”, Lenço Enxuto ainda está na ponta da língua do vocalista dos Ornatos Violeta. De cabeça agora parada, ligeiramente caída ora para a esquerda ora para a direita, foi só o tempo de se aperceberem que a reunião estava a acontecer para ela acabar tao rápido quanto começou. Bola na baliza, sem faltas, estádio em êxtase.

Palavra-Impasse e É Preciso Que Eu Diminua do novo álbum e as antigas Não Arrastes O Meu Caixão e Barbarella e Barba Rala mostram que há mais em Úria que o rockeiro desgrenhado com movimentos de dança à anos 60. Há letras que dizem muito e escondem outro tanto e arranjos que tornam o álbum uma viagem com altos e baixos, não um passeio pela marginal.

Ei-lo bem que podia passar a “ei-la” quando, musica introduzida, surge Ana Bacalhau, dos Deolinda, num dueto que deixou o publico a conter a respiração até à ultima nota. “Quem é que estava à espera que isto acontecesse, hum?”, pergunta um Uria que não está ainda pronto para voltar a ficar sozinho em palco. Segue-se Não Ouviste Nada, do álbum Mundo Pequenino, dos Deolinda que atuam hoje na Casa da Musica. Ana Bacalhau e Samuel Uria despedem-se com uma vénia de um para o outro e se ambos acham que o mundo é pequeno, pelo menos naquele palco não foi demonstrado nenhum grande medo. Nem quando O Diabo pousou os pés no chão e serviu de primeira despedida “para irmos embora todos bem-dispostos”.

Depois de sair do palco, do público só se ouviu baixinho um “oh diabo…”, alguém a olhar para todos os lados a ver se já tinha realmente acabado e muitas cabeças com os olhos presos no palco. Estavam todos à espera do regresso d’Essa Voz que surge com energia redobrada, microfone fora do suporte e vamos lá para a frente que isto ainda não acabou.

Num encore alargado há tempo para uma homenagem a Prince, com a famosa Kiss a servir de ligação a Teimoso. O músico que “nunca foi do prog-rock”, está depois deste álbum mais perto de um Império, mas são as músicas mais antigas que ainda fazem a metade da sala que esteve até aqui sentada levantar-se e romper em aplausos. Se Forasteiro é “aquele que não pertence à terra ou ao lugar onde se encontra”, Samuel Uria parecia ter encontrado a sua casa na que também é da música, e admite que “gostava de ter as chaves”.

Se a sala começou meia sentada, meia em pé, um quarto céptica, três quartos convencida, acabou num ambiente mais homogéneo.  Todos de pé, entre sorrisos e palmas, o concerto acaba (s)em Lamentação.

“Mas que boa onda…” deixa alguém lá atrás escapar quando Samuel Uria desce do palco pelo meio do público, com todos os outros músicos e convidados a cantarem Carga de Ombro. Com os artistas no fundo da sala, o público serviu de coro e de costas para o palco não precisou de cargas de ombro para se reorganizar. Embora se saiba que, segundo este maestro, “carga de ombro é legal”.

O álbum Carga de Ombro, lançado no dia 29 de abril, pode ser ouvido na íntegra aqui: