Cultura

A POÉTICA NOTURNA DO PINGUIM

O JUP saiu em reportagem no Dia Mundial da Poesia e foi descobrir o estranho encanto das noites do Pinguim Café.
Fotografia por Sérgio Miguel Silva

Vinte e um de março. 23 horas. As ruas das Taipas, das Virtudes e do Dr. Barbosa de Castro estão isentas de lugares, algo francamente incomum para uma noite de segunda. Resolvido o problema e descendo até ao nº 67 da terna Rua de Belmonte, dá-se o clique: a cave, onde se desenrola este famoso ritual poético, está à pinha. Fintam-se as mesas para se roubar um pouco de espaço, sentam-se pessoas ao longo do chão. Na área traseira, perto da porta, as mais baixas só conseguem ouvir os declamadores. É dia Mundial da Poesia, e as noites de poesia do Pinguim continuam a ser a opção mais óbvia para consumar este apetite.

O Pinguim Café pertence ao imaginário da cidade. A grande maioria dos portuenses já ouviu (pelo menos) falar dele, muitos através de gerações anteriores. A sua noite de poesia rola há 27 anos, criação do poeta Joaquim Castro Caldas. Ao seu encargo, elas tornaram-se um evento concorrido e contornaram o charme que ainda hoje detém.

Com a saída do poeta em 2000, entraram em convalescência. A situação só foi resolvida quando o ator Rui Spranger assumiu a sua moderação em 2002. Ele conta-nos que esta resolução foi prolongada. “As noites só voltaram realmente a crescer a partir de 2008. Até lá foi uma espécie de travessia no deserto. Hoje têm picos de afluência semelhantes aos dos inícios dos anos 90″, disse o ator.

Rui, acompanhado pelos interlúdios musicais do guitarrista Rui David, lança poemas para o fumo que aflora a cave, incitando os ouvintes a fazer o mesmo. A moderação desvanece no auditório – poesia comunitária é a essência destas noites. Esta é eminentemente local, mesmo tendo em conta o boom turístico que vivemos. “Há sempre estrangeiros, mas que de um modo geral vivem cá ou estão em Erasmus. Os turistas são absolutamente residuais”, refere Rui. O Pinguim ancora no Porto-Cidade, não no Porto-Postal. Estava cá quando a baixa não era sinónimo de vida nocturna, integrando antigos roteiros de bares, hoje em desusuo mas relevantes na altura (era uma referência, por exemplo, para algumas associações de estudantes da Academia). Sedimentou-se no subsolo da urbe, sempre congeminando o seu liricismo, sempre nutrindo as raízes da sua vida artística. Valter Hugo Mãe, Filipa Leal, João Habitualmente são alguns dos poetas que aqui germinaram. São frutos viçosos de uma vasta colheita.

Mudou muita coisa desde 1989. “(As noites) adquiriam características de quem as dinamizava”, acrescenta o moderador. Entre Castro Caldas e Rui Spranger, a saber: Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Amílcar Mendes,  Pedro Lamares, Isaque Ferreira e Cristina Bacelar. O espaço manteve-se intacto no tempo, perpetuando a história.

Aqui, vimos sempre caras novas, outras familiares. Há um núcelo duro de pessoas que maquina as sessões. Partilham referências e poemas, amparam-se e entreajudam-se numa construção comum. O Pinguim é o ninho de uma comunidade obreira em poesia. Para os mais afastados desta arte, é um momento de contacto autêntico.

As suas paredes de granito moldam-se perante as declamações e as cargas emocionais. A cave ajusta-se perfeitamente perante a intensidade da acção. São as pessoas que a fazem, que testam as paredes, sem qualquer distinção. A causa manteve-se intacta no tempo. As noites de poesia do Pinguim são um espaço onde qualquer um se pode manifestar. Antes de serem feitas pelas comunidade, pertencem à comunidade. E 27 anos e uma mão cheia poetas depois, perturbam o património do Porto.

No dia 21 de Março, à pinha, ouviu-se o Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis de Filipa Leal, um dos favoritos, detentor recorrente de lágrimas; o Poema em Linha Recta de Álvaro de Campos; um extracto de um poema publicado no grupo de facebook “Horto do Incêndio”, mais concretamente de João Chambel, entre tantos outros poemas de autor e de tradição.

Todas as noites fecham com uma canção, rito que nasceu com Joaquim Castro Caldas, na génese disto tudo. Canta-se em roda, de mãos dadas, “Ao fogo de jesus brando”.

A roda esteve sempre lá, a queimar poesia.