Cultura

COLECIONISMO DE ARTE? O QUE É ISSO?

Na quinta-feira, dia 8 de março, entre as 18h30 e as 19h30, a Fundação de Serralves teve o privilégio de receber Susan Davidson, curadora do museu Guggenheim de Nova Iorque, para partilhar os seus conhecimentos na conferência “Coleções e Colecionismo: Domínios da Luz- Duas Coleções Visionárias”.
Fotografia por Fundação de Serralves

As luzes do auditório apagaram-se. Um foco dirigiu-se ao púlpito: Susan Davidson estava pronta para partilhar a história que tinha para contar. A sala encontrava-se meio-cheia e o silêncio falava por si – todos queriam fazer parte da sua narrativa.

Começa por dizer a todos os que estão ali para a ouvir que “todos nós somos colecionadores de alguma coisa”; uns colecionam selos, outros postais, alguns lápis ou máscaras de Veneza, e há quem colecione arte. Apresenta Peggy Guggenheim, uma das protagonistas da tarde, contando curiosidades biográficas, como a trágica morte do seu pai no Titanic, que lhe permitiu mudar-se para Paris, graças à herança que este lhe deixara, e começar a conhecer os artistas da sua época – Marcel Duchamp foi um deles. A arte da altura era incompreendida e Peggy queria a todo o custo abrir um museu, para que a conseguisse expôr e valorizar; o seu objetivo era fazê-lo na Europa, mas seguindo os conselhos de Duchamp volta para Nova Iorque em 1931. Abre a sua galeria à qual deu o nome de “Art of This Century” e primou pela originalidade, suspendendo as telas em cordas.

Regressada à Europa, Susan Davidson dá a conhecer John e Dominique de Menil, um casal francês de colecionadores que travou conhecimento com Marx Ernst e a partir daí nunca mais largou a mão da arte. A curadora mostra à plateia uma imagem da casa dos de Menil para que possam entender o estilo de vida destes, uma vez que viviam com a arte e a respiravam todos os dias.

As apresentações estavam feitas. Começava então uma comparação entre o trabalho dos colecionadores – a sua relação com os artistas, as suas escolhas, os seus museus. Se Peggy apenas recebia os artistas ocasionalmente, já os de Menil conviviam com eles e faziam parte do seu círculo de amigos. Ambos acompanhavam a arte e os artistas ao longo dos tempos. Em 1971, John de Menil morre, o que serve de marco cronológico para Davidson se centrar em Peggy e Dominique. Entre os artistas cujas obras ambas colecionaram estão Picasso, Francis Picabia, Marx Ernst, Marcel Duchamp, Renée Magritte, Barnett Newman e muitos mais que se inserem nos movimentos Abstracionista, Dada e Surrealista, Expressionista Abtstrato e Pop Art. A emoção no olhar da oradora era visível. Entre suspiros, sorrisos e algumas pausas para recuperar o que dissera anteriormente, contou o que sabia da história de amor entre Guggenheim e Ernst, acompanhada por uma imagem de “Atirement of the Bride”, a pintura que o artista ofereceu à colecionadora a propósito do casamento dos dois.

Contou que também os colecionadores podem ser mecenas, exemplificando o caso de Peggy que financiou a primeira exposição de Pollock e lhe encomendou “Mural” para expôr em sua casa, o que é possível ver no filme “Pollock” de Ed Harris (2000). Há ainda um papel filantrópico tanto em Peggy como nos de Menil, que deram pinturas compradas por si a museus. O objetivo? Partilhar a arte com todos aqueles que estivessem dispostos a isso.

A narrativa de Susan Davidson acaba com as duas fotografias que a iniciaram – duas pinturas de Magritte, que mostram uma casa iluminada por um candeeiro de rua, cada uma delas adquirida pelos colecionadores que apresentou aos presentes no auditório. É esta a imagem que Davidson quer deixar de Peggy Guggenheim e do casal de Menil: tinham uma sensibilidade poética, iam atrás das oportunidades e distinguiam-se de grande parte dos colecionadores por querer partilhar o seu património com o Mundo.