Ciência e Saúde

Vida Selvagem volta a crescer na Europa

Populações de lobos, ursos pardos, castores euroasiáticos e águias de cauda branca, entre outros, voltam a crescer no continente europeu graças às atividades humanas de reabilitação das espécies.

Lobos, ursos pardos, castores euroasiáticos e águias de cauda branca são algumas das espécies de animais selvagens cujas populações foram reabilitadas do risco de extinção pela Europa, de acordo com o European Wildlife Comeback Report.

O artigo, desenvolvido pela Sociedade Zoológica de Londres, pela BirdLife International e pelo European Bird Census analisou os dados de 24 espécies de mamíferos, 25 aves e 1 réptil. O relatório adiciona informações às já adquiridas em 2013 e analisa as espécies que passam pelo processo de reabilitação nos últimos 50 anos.

Segundo Louise McRae, uma das autoras do estudo, a recuperação dessas espécies dependeu, maioritariamente, do esforço humano. As atividades humanas em nomeadamente proteção e a recuperação das espécies anteriormente referidas, tal como de outros pássaros (como o ganso-de-faces-brancas e o grifo-eurasiático), envolvem legislação contra a caça, alterações ao uso da terra e conexão de áreas protegidas e processos de reintrodução de espécies.

A reintrodução de espécies pode ocorrer naturalmente com as condições corretas, como o retorno da águia-pescadora a Inglaterra. No entanto, muitas reintroduções envolvem planeamento prévio. Por exemplo, muitos estudos são necessários para que os cientistas entendam a causa do desaparecimento dos animais e se essas causas ainda teriam impacto.

Antes de uma reintrodução, também é importante consultar as comunidades locais e os proprietários de terra, para saber se o retorno das espécies prejudicaria a economia local ou o bem-estar da população. Por exemplo, nos países escandinavos, fazendeiros e pastores de rena têm permissão para matar lobos com o objetivo de proteger o seu rebanho.

Segundo Deli Saavedra, um dos coordenadores da Rewilding Europe, a atividade humana é necessária quando as espécies-alvo estão distantes demais para retornar num período razoável, ou se há obstáculos como estradas e represas que tornam o regresso impossível. Às vezes, a espécie já se encontra na área, mas em quantidades muito pequenas, de maneira que é necessário aumentar a densidade populacional e aprimorar a composição genética – o que consiste num processo conhecido como reabastecimento, ao invés de reintrodução.

Essa prática tem como prioridade as espécies mais importantes para a restauração do ecossistema, como herbívoros grandes, já que agem na prevenção do crescimento excessivo de vegetação. Conforme Saavedra, “grandes herbívoros mantêm áreas abertas que beneficiam de uma ampla gama de outras espécies através de seu pasto, atos de catação, para além de agirem como a ´equipa de limpeza´ da natureza”.

Após a reintrodução da espécie, é essencial monitorizar o comportamento dos grupos de animais nos seus habitats, caso se reproduzam ou morram.

Apesar de todos esses esforços, a vida selvagem ainda está a ser perdida a uma velocidade record no mundo. De acordo com um relatório de 2020 da Agência Europeia do Ambiente, a maioria das áreas protegidas pelo continente europeu estão em más condições e espécies vitais, juntamente com os seus habitats, continuam a desaparecer. Um exemplo disto é a diminuição de 10% do número de aves comuns desde 2000 na Europa.

Para mitigar esta situação, a União Europeia investe na criação de legislação que aborde a perda de vida selvagem no continente. Durante o verão, a Comissão Europeia propôs objetivos que incluem reverter o declínio de populações polinizadoras, restaurar 20% da terra e mar e cortar o uso de pesticidas químicos para metade até 2030.

Legislação prévia inclui a Diretiva das Aves (1979), que designa áreas especiais de proteção
das espécies e bane a captura e o assassinato destas, além de proibir destruição dos seus ninhos; e a Diretiva dos Habitats (1992), que consiste na administração eficaz das áreas importantes para as comunidades selvagens.

Apesar de ainda haver um longo caminho à frente para a proteção da vida selvagem no continente europeu, a União Europeia defende o bem-estar dos animais há mais de 40 anos e é amplamente reconhecida como líder mundial nesta área.

Texto por Domitilla Mariotti Rosa. Revisto por Maria Teresa Martins.