Ciência e Saúde

Prémio Nobel da Física 2021: A compreensão de sistemas complexos

Na última terça-feira, o Prémio Nobel da Física foi atribuído a Syukuro Manabe, a Klaus Hasselmann e a Giorgio Parisi pela assembleia Nobel do Instituto Karolinska. Os três cientistas desenvolveram trabalhos que contribuíram para a compreensão de sistemas complexos.

No passado dia 4, Syukuro Manabe, Klaus Hasselmann e Giorgio Parisi venceram o Prémio Nobel da Física, que consiste numa medalha e em 10 milhões de coroas suecas (aproximadamente 983 mil euros). O valor foi distribuído da seguinte forma: metade foi dividida entre o japonês Syukuro Manabe e o alemão Klaus Hasselmann, que pela modelação física do clima do nosso planeta, através da quantificação da variabilidade, previram com segurança o aquecimento global. A outra metade foi para o cientista italiano Giorgio Parisi, cujo estudo se baseou na descoberta da interação entre a desordem e as flutuações existentes nos sistemas físicos de escala atómica a planetária.

Os três cientistas trabalham com o que é conhecido como sistemas complexos, o clima é apenas um exemplo. A semelhança das suas investigações baseia-se na meta de trazer sentido e previsibilidade àquilo que parece aleatório e caótico.

Manabe iniciou as suas pesquisas nos anos 60, quando criou os primeiros modelos de previsão relativos à influência do crescimento de dióxido de carbono na atmosfera. O que diferencia o seu trabalho do dos outros cientistas é a demonstração de como o clima pode piorar e o quão rápido isso pode acontecer, dependendo da quantidade de poluição causada pelo dióxido de carbono que é libertado.

Uma década mais tarde, Hasselmann criou um modelo que relaciona a temperatura e o clima, o que ajudou a explicar como os modelos climáticos podem ser confiáveis, apesar da aparente natureza caótica do tempo. O alemão também desenvolveu métodos de identificação de sinais específicos, identificando as impressões digitais das atividades que o ser humano pratica no clima.

Por outro lado, os estudos de Parisi consistiram na construção de modelos físicos e matemáticos que tornaram possível a compreensão de sistemas complexos em diversas áreas, como a matemática, biologia, neurociência e machine learning. O cientista recorreu ao uso de data e algoritmos que replicam o modo como o ser humano aprende e interage com o mundo.

Segundo a Royal Swedish Academy of Sciences, “Syukuro Manabe e Klaus Hasselmann construíram a base do nosso conhecimento relativamente ao clima da Terra e como a humanidade o influencia. Giorgio Parisi é premiado pelas suas contribuições revolucionárias para a teoria de materiais desordenados e processos aleatórios”.

ENTREVISTA TELEFÓNICA AOS LAUREADOS

Apesar dos três laureados trabalharem em áreas diferentes, todos foram questionados sobre como abordar as alterações climáticas atuais e as pessoas que são céticas em relação às mesmas.

Na entrevista telefónica à página do Prémio Nobel, Manabe afirmou que nunca pensou que iria receber este prémio e realçou que nenhum dos ex laureados recebeu o Prémio Nobel de Física pelo tipo de trabalho que o cientista desenvolveu, para além disso, disse que apreciava o facto da Academia ter escolhido o tema do clima. Relativamente às alterações climáticas, Manabe afirmou que uma das coisas mais importantes é compreendê-las e explicou que através do uso do modelo climático que desenvolveu se pergunta o porquê de certo fenómeno estar a acontecer. Em último lugar, constatou que “a previsão das alterações climáticas sem a compreensão das mesmas não é melhor do que a previsão de um vidente”.

Já Parisi mostrou-se muito feliz pelo reconhecimento da importância da área em que trabalha, já que foi um dos fundadores do estudo de sistemas complexos em Física. No que toca às alterações climáticas, afirmou que a ciência fundamental é crucial para a compreensão de tudo e que deve ser tida em conta em conjunto com a ciência aplicada.

Hasselman, por sua vez, disse-se surpreendido com a atribuição do Prémio Nobel da Física. Afirmou que o mais urgente é agir contra as alterações climáticas e que há muito que se pode fazer para as prevenir. Para além disso, disse que há mais ou menos 50 anos que alertam para as alterações climáticas mas as pessoas não estão dispostas a aceitar o facto de que têm que reagir agora para algo que vai acontecer daqui a alguns anos, e que têm lutado contra isso durante muitos anos como cientistas do clima. Por fim, mostrou-se feliz pelo facto de o problema climático ser posto no centro das atenções.

A atribuição do prémio ocorreu quatro semanas antes das negociações climáticas que ocorrerão em Glasgow, Escócia, onde os líderes mundiais irão debater o aumento dos seus compromissos perante a temática do aquecimento global.

Texto por Domitilla Mariotti Rosa. Revisto por Maria Teresa Martins.