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Fórum do Ambiente: 10 anos com o Ambiente como protagonista

O Fórum do Ambiente celebra 10 anos de palestras e debates com o Ambiente no centro das atenções. Numa viagem pelo tempo, recuamos até às edições anteriores para perceber a evolução deste evento. Por Mariana Miranda.

A história que proponho contar começou em 2011 e desculpe-me o leitor se me desviar por vezes da narração objetiva dos factos, pois esta é uma história que se funde com o meu percurso académico. Cruzava eu o corredor B da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) como feupinha acabada de entrar no Mestrado Integrado em Engenharia do Ambiente (MIEA), quando ouvi pela primeira vez falar do evento Fórum do Ambiente. Viajamos no tempo até 2011, ano em que os estudantes de Engenharia do Ambiente, impulsionados pela direção do curso à data, deram início a esta história.

Os primeiros capítulos

Cartaz I Fórum do Ambiente (2011).

A primeira edição do Fórum do Ambiente decorreu a 24 de outubro de 2011 e trouxe ao grande auditório da FEUP vários especialistas da área do Ambiente para discutir os novos desafios do engenheiro do Ambiente e os tópicos associados às suas principais áreas de intervenção: gestão e tratamento de resíduos, qualidade do ar, tratamento de água, reabilitação de solos, e sustentabilidade. Esta foi a edição que contou com mais oradores “da casa”, com a presença de inúmeros professores e investigadores dos vários departamentos da FEUP que participam no MIEA, mas também desde logo vários ex-estudantes do curso com testemunhos dos seus percursos em investigação e no mundo empresarial.

Engane-se o leitor que pense que esta terá sido uma das piores edições do Fórum do Ambiente, unicamente por ser a primeira ou por recorrer a tantos elementos conhecidos da casa. Para a jovem aspirante a engenheira do Ambiente, esta foi uma edição fantástica, não só por me ter demonstrado a polivalência de um engenheiro do Ambiente, mas também por me ter dado provas da qualidade do trabalho em desenvolvimento na FEUP e como podia aprender tanto com os meus colegas e professores. O Fórum não podia ter tido um arranque melhor. Com uma organização exemplar, sobretudo face ao desafio que é começar do zero um projeto destes, só fica atrás das restantes edições do ponto de vista cronológico.

Cartaz II Fórum do Ambiente (2012).

Avançamos um ano e a 25 de outubro de 2012 chega-nos a segunda edição do Fórum do Ambiente com o tema “Situação atual e oportunidades emergentes”. Para quem participou nesta edição, lembrar-se-á que foi a única edição presencial que não teve lugar no grande auditório da FEUP, mas sim no anfiteatro B001. Tal decisão não se mostrou adequada às características do evento, com pessoas a entrar e a sair do anfiteatro durante as apresentações, o que perturbava a assistência e os oradores devido à configuração da sala.

Apesar deste ponto menos conseguido, foi novamente uma edição extremamente bem organizada, tendo contado com vários oradores externos à FEUP, mas mantendo a tradição definida pela edição anterior de dar o palco a ex-estudantes e até a atuais estudantes do MIEA. Conseguiu-se também conciliar novamente as várias visões da área com testemunhos de investigação, organizacionais e empresariais, alimentando assim de forma eficiente as discussões pretendidas. Os temas explorados incluíram recursos hídricos, política ambiental, gestão ambiental de projetos, energia, avaliação de ciclo de vida, tratamento de águas, tratamento de efluentes gasosos, entre outros.

Da plateia para o backstage

Cartaz III Fórum do Ambiente (2013).

Tendo até aqui observado com entusiamo e algum fascínio a organização anual do Fórum do Ambiente, não pude deixar de agarrar a oportunidade de dar um bocadinho de volta, ajudando como staff a comissão organizadora do III Fórum do Ambiente (a numeração foi fixada nesta edição para números romanos). Esta edição viu os esforços e dedicação da equipa que a organizou materializados a 16 de outubro de 2013, tendo elevado este evento em vários níveis graças a todo o cuidado com que foi estruturado.

Com a tradicional organização em quatro sessões ao longo de um dia, esta edição dedicou-se a debater os desafios para o futuro de Engenharia do Ambiente, a temática da eficiência energética e o mercado das energias renováveis, os sistemas de gestão ambiental e políticas ambientais no contexto empresarial e, na última sessão, o ordenamento do território, tecnologias e sistemas de tratamento de resíduos sólidos e águas residuais.

Cartaz IV Fórum do Ambiente (2015).

Foi assim com uma herança pesada que me vi chegar a elemento da comissão organizadora do IV Fórum do Ambiente. Ainda enquanto estudante de 3º ano do MIEA comecei a contribuir para a organização da próxima edição como responsável pela logística do evento, tendo ficado a conhecer todo um lado oculto para quem está de fora sobre como se organiza um evento desta dimensão. Confesso que encontrei várias dificuldades pelo caminho, mas sempre tive uma equipa que me apoiou e me ajudou a crescer e a dar o meu melhor, numa experiência que adorei.

Assim, a 18 de março de 2015, vimos concretizada mais uma edição deste evento, desta vez organizada para decorrer no segundo semestre, ao contrário das edições anteriores. Se inicialmente esta mudança de data do evento se deveu a uma série de contratempos com o programa do mesmo, foi uma mudança que se demonstrou oportuna e que acredito que permitiu uma melhor edição em 2015, mas também nos anos que se seguiram. Nesta edição celebramos o décimo aniversário do curso de Engenharia do Ambiente na FEUP, tendo-se reunido vários dos protagonistas na criação do curso, mas também houve tempo para debater a qualidade do ar, ecologia industrial, e o tratamento de água e resíduos.

Cartaz V Fórum do Ambiente (2016).

Relembro o V Fórum do Ambiente com particular carinho por vários motivos, mas em particular pela equipa fantástica que me acompanhou nesta organização. Já com quatro anos completados como estudante do MIEA, fiquei encarregue de gerir a organização da próxima edição do evento no papel de presidente da comissão organizadora. Com muitas lições aprendidas na edição anterior e com uma equipa dedicada, trabalhadora e criativa, demos passos importantes na evolução do Fórum do Ambiente. Destaco a preocupação em criar uma imagem de marca para o evento, tendo sido nesta edição que definimos manter para as várias edições a mesma página de Facebook (que se mantém até aos dias de hoje) e o website (que foi usado da IV à VIII edição).

Com o tema “Towards a better future”, o dia 9 de março de 2016 viu o grande auditório da FEUP encher-se para ouvir falar de qualidade do ar, remediação do solo, energia, alterações climáticas, resíduos, smart cities, a relação entre os media e o Ambiente, entre outros. Mantendo a tradição das edições anteriores, convidamos ex-estudantes do curso, que partilharam os seus testemunhos. Conseguimos também reunir no mesmo lugar participantes de Ciências e Engenharia do Ambiente de norte a sul de Portugal e outros interessados na área, criando um ambiente perfeito para a troca de ideias e partilha, tanto durante as sessões de perguntas aos oradores, como durante o extremamente lotado coffee-break. Ainda me lembro bem do nervoso miudinho que se instalou desde que começarem a chegar os primeiros participantes até à sessão de encerramento, mas valeu a pena.

Cartaz VI Fórum do Ambiente (2017).

Embora já na qualidade de ex-estudante do curso e bolseira de investigação na FEUP, acompanhei de perto a organização do VI Fórum do Ambiente. Continuando a evolução e melhoria continua do evento desde a IV edição, foi globalmente uma das mais bem conseguidas até à data. Foi também nesta edição que finalmente se conseguiu fixar o logotipo do Fórum do Ambiente, e assim completar o trabalho de criação da imagem de marca do evento, e a edição em que se conseguiu gerir melhor a maior afluência de participantes durante o coffee-break.

Mantendo o moto do ano anterior, o VI Fórum do Ambiente trouxe, a 15 de março de 2017, para o palco temas como poluentes emergentes, resíduos, lixo marinho, turismo e construção sustentáveis, controlo da poluição sonora, qualidade do ar e alterações climáticas. Atingiu-se um bom equilíbrio entre os oradores convidados do mundo académico e do empresarial e organizacional, e ficaram ainda várias ideias que surgiram nesta edição para explorar nas edições seguintes.

 

Transição

Cartaz VII Fórum do Ambiente (2018).

VII e VIII Fórum do Ambiente foram organizados num período de transição e que, naturalmente, implicou várias alterações ao evento e, em certa medida, também a alteração da missão e objetivos do mesmo. Se até estas edições a organização estava a cargo dos estudantes do MIEA, podendo qualquer estudante contribuir como staff ou membro da comissão organizadora, com a criação do Núcleo de Estudantes de Engenharia do Ambiente (NEEA) e atribuição da organização ao núcleo, houve algumas alterações ao formato de organização habitual. Assim, já na qualidade de estudante de doutoramento na FEUP, vi a máquina outrora bem oleada da organização a encontrar algumas dificuldades nestas duas edições.

Apesar da VII edição (22 de março de 2018) ser ainda prévia à delegação oficial do Fórum ao NEEA, consegui identificar algumas alterações ao conceito do Fórum e por isso a minha opção de a incluir nesta categoria. Confesso que foi uma edição cujo programa não me cativou tanto, talvez simplesmente por uma questão de maior ou menor afinidade a alguns dos tópicos em discussão, tendo acabado por assistir com maior atenção apenas ao período da manhã. Os temas abordados incluíram a gestão ambiental, alterações climáticas, mobilidade, qualidade do ar, e energia. Foi também organizado um debate sobre o futuro da Engenharia do Ambiente.

Cartaz VIII Fórum do Ambiente (2019).

Seguindo um formato semelhante ao da VII edição, a VIII (13 de março de 2019) foi porventura a menos conseguida até à data na minha perspetiva. Com apenas duas palestras por sessão, os temas abordados foram microplásticos, nanomateriais, aproveitamentos hidroelétricos e digestão anaeróbia, na parte da manhã. A parte da tarde focou-se mais em debates, discutindo-se o enquadramento de Engenharia do Ambiente na Sociedade e o futuro das fontes energéticas. Embora seja natural que estes tipos de projetos evoluam, nem sempre isso ocorre na direção que cada um gostaria.

 

 

Pandemia

Programa IX Fórum do Ambiente (2020).

Quase na reta final desta história, chegamos a 2020. O IX Fórum do Ambiente, inicialmente previsto para 11 de março de 2020, foi adiado devido à pandemia de COVID-19, tendo acabado por ser realizado num formato online a 12 de novembro de 2020. Sob a grande temática “Ambiente em mudança: planear e agir”, o evento contou com quatro sessões, dedicadas ao clima, ao roteiro para a neutralidade carbónica 2050, à gestão e qualidade da água, e à gestão e tratamento de resíduos. Foi nesta edição que estivemos pela primeira vez em risco de ter um Fórum do Ambiente sem nenhum ex-estudante do MIEA como orador, o que se acabou por se resolver pela impossibilidade de participação de um dos oradores inicialmente confirmado para a primeira data.

Apesar de, pela força da pandemia, esta edição ter ocorrido por recurso ao Zoom, foi globalmente uma boa edição. Pessoalmente, gostei de participar no IX Fórum do Ambiente, embora tenha sentido falta dos momentos de convívio e partilha intrínsecos ao formato presencial, sobretudo durante o coffee-break, e ainda da participação de mais elementos ligados ao MIEA.

X Fórum do Ambiente (2021).

Assim, regressamos ao presente, horas antes da próxima edição arrancar. Marcado para o dia 20 de abril de 2021, o programa do X Fórum do Ambiente prevê um enfoque no décimo dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: reduzir as desigualdades. Os temas em discussão voltarão a incluir os temas da água, resíduos, alterações climáticas, recursos hídricos e, claro está, sustentabilidade. Esta edição contou ainda com um pré-evento a 16 de abril.

Analisando o programa desta edição, percebemos que o Fórum do Ambiente mudou bastante desde a sua primeira edição, que contou com uma forte participação da comunidade da FEUP no palco. Uma presença que tem vindo a desaparecer, com o Fórum do Ambiente a transformar-se num evento cuja missão passou de partilhar o que é feito em matéria de Engenharia do Ambiente na FEUP, para trazer diferentes oradores externos que os estudantes têm interesse em ouvir. Do meu ponto de vista, o ideal passaria por uma situação de equilíbrio, sendo que já vimos que esse modelo funcionou bem em edições anteriores.

Apesar de algumas transformações ao longo dos anos, o Fórum do Ambiente é, e continuará a ser, sobretudo um instigador da discussão acerca das áreas de intervenção do engenheiro do Ambiente e áreas afins. Ao longo da sua história viu três direções do curso – lideradas por António Fiuza, Manuel Fernando Pereira e Joana Dias –, dez comissões organizadoras, centenas de participantes em cada edição, e dezenas de palestras e debates. Mas, de forma constante, existiu sempre a vontade de trazer o melhor evento a todos aqueles que dele desejem fazer parte e o destaque do único protagonista desta história: o Ambiente.

Como o leitor terá percebido, desde a minha entrada na FEUP em 2011, tive a oportunidade de participar em todas as edições à data do Fórum do Ambiente. Comecei por assistir ao Fórum com o deslumbramento de para quem quase tudo é novidade, participei com a responsabilidade de organizar um evento que respeitasse a sua herança, até finalmente participar como engenheira do Ambiente e investigadora, com uma visão naturalmente também ela diferente da que tinha há dez anos. Estando-se a aproximar o final do meu percurso na FEUP, será provável que não consiga manter por muitos mais anos este registo perfeito de assiduidade. No entanto, o Fórum do Ambiente terá sempre um lugar especial na minha própria história, e só me resta desejar o maior sucesso para esta e para as edições que se seguirão.

 

Texto por Mariana Miranda.