Ciência e Saúde

Cientista cabo-verdiano faz descoberta que nos aproxima da descodificação da vida e da cura do cancro

Jay Brito Querido deu-nos a conhecer, através da publicação de um artigo na prestigiada revista Science, as conclusões da sua investigação que conseguiu "reconstituir o momento em que se dá o início da descodificação da informação genética em humanos".

Jay Brito Querido, cientista de origem cabo-verdiana, desenvolve trabalho na área da biologia molecular, mais especificamente na descodificação de informação genética em humanos, tendo recentemente descoberto uma questão fundamental da vida procurada há décadas e que poderá ajudar na cura de doenças como o cancro.

De modo a clarificar a sua descoberta, Brito Querido explicou numa entrevista dada à agência Lusa, que “a informação genética que herdamos dos nossos pais está codificada nos nossos genes. Por isso, para que se defina a cor da nossa pele ou do nosso cabelo, se vamos herdar alguma doença dos nossos pais, ou seja, para que se defina absolutamente tudo sobre nós, as informações codificadas nos nossos genes têm de ser descodificadas [traduzidas] pelos nossos ribossomas [‘fábricas de proteínas’ dentro das células]”.

De facto, para os ribossomas conseguirem “identificar qual é o gene que precisa ser descodificado em cada momento, as informações provenientes dos genes (no RNA mensageiro) têm de ser ativadas por um grupo de proteínas que formam um complexo chamado eIF4F”, esclarece o cientista. “Ao longo de várias décadas, cientistas têm estado a tentar descobrir onde e como é que o complexo eIF4F se liga ao ribossoma, infelizmente sem sucesso”, acrescenta Jay. “Conseguimos identificar o local de ligação do complexo eIF4F no ribossoma e responder a esta questão fundamental da vida, que permanecia sem resposta havia já várias décadas”.

Relativamente à pertinência da descoberta, Brito Querido refere que “vários compostos que estão a ser testados e investigados para o tratamento do cancro têm como alvo o processo de descodificação da informação genética” e assim, salienta que, esta descoberta “representa um importante contributo para todas essas investigações na área do cancro”.

Explicou, ainda, na referida entrevista, o fundamento da técnica que auxiliou o seu trabalho e que permitiu ir para além dos objetivos iniciais da sua investigação: “Na minha investigação utilizo essencialmente a revolucionária técnica de crio-microscopia eletrónica (cryo-EM), uma forma de microscopia eletrónica de transmissão, na qual a amostra é estudada a temperaturas criogénicas”. Acrescentou também que “em países como Portugal a comunidade científica, infelizmente, ainda não tem acesso a este tipo de tecnologia”.

Jay Brito Querido integra atualmente a equipa de investigação liderada por Venki Ramakrishnan, galardoado em 2009 com o Prémio Nobel da Química, na Clare Hall College da Universidade de Cambridge (Reino Unido). Brito Querido fez a licenciatura e o mestrado na Universidade de Lisboa e parte do doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, tendo passado já por centros de investigação em França e Espanha. Os resultados do trabalho do cientista foram publicados no início de setembro na revista Science, face à importância da descoberta.