Ciência e Saúde

Reverter o efeito das Alterações Climáticas pode começar pelos solos

Docente e investigadora da FCUP está a investigar a utilização de plantas no tratamento de solos degradados por excesso de sais - uma alternativa de “baixo custo e amiga do ambiente”.

Um dos efeitos das alterações climáticas é a aceleração do mau estado dos solos – o que se reflete, por exemplo, na desertificação. Um solo degradado reúne um conjunto de condições que impedem a sua fertilidade, fator essencial para o desenvolvimento da agricultura. Maria Teresa Borges, docente e investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), tem vindo a estudar possíveis soluções para este problema, que passam pelo desenvolvimento de “tecnologias de baixo custo e amigas do ambiente”, recorrendo a plantas e reduzindo o uso de químicos.

A inaptidão dos solos pode dever-se a diferentes fatores. Um deles é o teor excessivo em sais como o sódio. O tratamento recorrente para este problema varia de caso para caso, no entanto, as abordagens mais comuns são a “lavagem” destes solos com água – um processo designado lixiviação – e o uso de químicos. Acontece que ambas as abordagens ora levam a um consumo excessivo de água, ora à contaminação de reservas de água subterrâneas.

Num estudo publicado no jornal Water, Air, & Soil Pollution, a docente da FCUP, e o grupo de investigadores com que trabalhou, analisa a eficácia de uma abordagem alternativa à tradicional. Neste trabalho é testado o uso de plantas no tratamento de solos com excesso de sódio – uma técnica denominada fitorremediação. Apesar da fitorremediação ser usada para diferentes fins – por exemplo, remoção de metais de solos e tratamento de águas –, o seu uso em solos com aquelas características é ainda um assunto pouco estudado.

“[…] potencial da fitorremediação para um tratamento mais lento, mas também significativamente menos poluente, seguro e ecológico.”

As plantas em estudo foram submetidas às “piores condições” que um solo pode ter: excesso de sódio e falta de água para “lavá-lo”. Os resultados, explica a investigadora, “ainda que preliminares, indicam o potencial da fitorremediação para um tratamento mais lento, mas também significativamente menos poluente, seguro e ecológico”. O rendimento daquela tecnologia depende da espécie de planta utilizada – que, após a sua aplicação, pode ser reaproveitada para diversos fins. Rações para animais é um deles.

Uma alternativa “verde”

Os tratamentos convencionais requerem grandes quantidades de água. Acontece que, num cenário de escassez deste recurso, esses tratamentos ficam comprometidos. Assim, a fitorremediação aplicada a solos com excesso de sódio apresenta-se como uma alterativa a considerar no futuro. Uma vantagem da sua utilização é o combate à desertificação, recuperando ou impedindo a expansão de desertos. No entanto, esta é uma metodologia que carece de “um maior esforço de investigação”, uma vez que se trata de uma abordagem menos conhecida e que implica soluções adaptadas para cada caso – ou até mesmo para a sua aplicação a uma escala maior.

O trabalho desenvolvido pela docente da FCUP, teve início na aplicação de plantas no tratamento de águas salinizadas. Ao cultivar aquelas plantas em solo, verificou que estas removiam sais do local de cultivo, embora não fosse esse o objetivo da sua plantação. Foi a partir destas observações que decidiu estudar melhor o fenómeno. O que inicialmente se mostrou uma “hipótese a testar”, tornou-se objeto de estudo. “Após os nossos resultados, e um estudo aprofundado da literatura, eu e a minha equipa verificamos a existência de um potencial a explorar nesta biotecnologia”, partilha.

O futuro da aplicação da fitorremediação em solos salinizados passará, segundo a investigadora, “por testar o uso combinado de fitorremediação e compostos químicos, o uso de mais do que uma espécie de planta com características diferentes e realizar testes a uma escala maior e com melhor monitorização do efeito das plantas no solo”.

A investigação nesta área resultou de diferentes colaborações, entre as quais com investigadores da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade do Minho – “que já utilizavam a fitorremediação noutros contextos”. Por intermédio do doutoramento de João Jesus, coorientado por Teresa Borges, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a FCUP foram as principais instituições envolvidas.